João Pereira Coutinho
19/09/2005
Marc Quinn, conhecido por fazer obras com o seu próprio sangue, justificou a escolha com tese notável. Para o "artista", Trafalgar Square é excessivamente dominada por figuras masculinas e pela presença "fálica" da coluna de Nelson. Quinn sentiu falta de um "toque feminino" e o corpo da sra. Lapper, alegadamente, permite esse "toque".
O mayor de Londres, Ken Livingstone, concorda: Trafalgar, disse Ken no dia da inauguração, representa o heroísmo bélico do Reino Unido. A estátua grávida de Alison Lapper representa a batalha do indivíduo para vencer o preconceito social e a limitação física. A própria Alison Lapper, presente no ato em sua cadeira de rodas, acrescentou: "Pelo menos, a minha luta não provocou sofrimento a ninguém". Bom, a luta talvez não, minha senhora. Mas a estátua é tão grotesca que até dói.
Não pelo motivo mais básico. Não pela ausência de braços, ou pernas. Não pela deficiência física. O problema de "Alison Lapper Grávida" está na intenção do gesto, na justificação para ele. E, naturalmente, na escolha do espaço.
Acredito que muitas almas sensíveis, confrontadas com o ato radical de Marc Quinn, dirão certamente que Quinn é artista "corajoso" e "provocador", decidido a expor em público a deficiência de uma mulher. Quinn seria uma espécie de Caravaggio moderno, furando o preconceito social com a representação tangível da limitação física.
Como é evidente, a atitude não é provocadora e não é corajosa. Como escreveu o crítico de arte Richard Dorment, é exatamente o contrário: uma atitude covarde e politicamente correta porque Quinn sabe, ou imagina, que poucos irão criticar o gesto, ou criticar a obra, com medo das brigadas corretivas. Quinn usa o corpo de uma mulher deficiente para se proteger da crítica e para faturar com a obra.
Mas a escultura é também grotesca pela justificação que a sustenta. Nas palavras de Quinn, não interessava apenas dar um "toque feminino" a Trafalgar Square. Era necessário prestar uma sentida homenagem à estatuária clássica, leia-se "grega", da qual a sra. Lapper, sem braços ou pernas, seria um brilhante exemplo. Na cabeça de Quinn, a sra. Lapper seria uma espécie Vênus de Milo "au naturelle", agora esculpida em mármore branco da região italiana de Carrara.
Infelizmente, as palavras de Quinn apenas podem ser escutadas como sórdida piada. Ao contrário do que Quinn parece imaginar, as figuras clássicas que chegaram aos nossos Museus (as "Vênus" de Praxíteles; as "Amazonas" de Policleto; as "Deusas Atena" de Fidias) não começaram como figuras mutiladas. Mais: a sublime ambição que presidiu à estatuária clássica foi a busca, obsessiva e vital, da harmonia e da proporção do corpo. Não apenas nas figuras mitológicas ou nos personagens mundanos. Policleto de Argos, na 2ª metade do século 5 a.C., estabeleceu o cânone que, sem grandes alterações, vigorou durante séculos (Roma incluída): o tamanho da cabeça seria repetido, sete vezes, ao longo da proporção integral do corpo (como se vê, aliás, nas suas próprias peças, hoje no Museu do Vaticano). Escusado será dizer que um corpo mutilado não é, por definição, um corpo "clássico", ou seja, harmonioso e proporcional. É, simplesmente, um corpo mutilado.
Mutilado e, na obra de Quinn, tecnicamente medíocre: a escultura "Alison Lapper Grávida" é uma peça acadêmica e inexpressiva, exatamente o contrário da "humanização" da escultura helenística, em que a sensualidade (como em Praxíteles), a violência (como em Fidias) ou a tragédia (como em Scopas) foram o contributo mais poderoso dos Gregos para a história da escultura ocidental.
A "obra" de Marc Quinn é moralmente repugnante, artisticamente medíocre e, last but not least, historicamente deslocada. Trafalgar Square celebra a história britânica em seus momentos mais gloriosos ou dramáticos. Colocar no quarto plinto uma figura feminina sem grandeza histórica evidente é tão absurdo como colocar no plinto a Princesa Diana, as Spice Girls ou Elton John a cantar suas baladas.
Porque o problema não está na sra. Lapper e na sua deficiência física. O problema está em quem encomendou a obra e, sobretudo, no artista que a executou. A escultura pode não ter braços, ou pernas. Mas o artista, claro, não tem vergonha, não tem caráter. E, pior, não tem cabeça.
Sem pés nem cabeça
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16 de setembro - Londres - Trafalgar Square, a praça central de Londres, tem nova estátua. Depois de Nelson, almirante que esmagou Napoleão em batalha célebre; depois de George 4º, Charles Napier e Henry Havelock, figuras de Estado que ocupam três plintos mais baixos; e depois de ampla discussão interna para preencher o quarto plinto, a escolha recaiu sobre uma estátua executada pelo "artista" contemporâneo Marc Quinn. Durante os próximos 18 meses, o quarto plinto da histórica Trafalgar Square irá exibir aos passantes a figura feminina de uma mulher, Alison Lapper, grávida. Pormenor: devido a condição congênita, a sra. Lapper nasceu sem braços e praticamente sem pernas. Marc Quinn, conhecido por fazer obras com o seu próprio sangue, justificou a escolha com tese notável. Para o "artista", Trafalgar Square é excessivamente dominada por figuras masculinas e pela presença "fálica" da coluna de Nelson. Quinn sentiu falta de um "toque feminino" e o corpo da sra. Lapper, alegadamente, permite esse "toque".
O mayor de Londres, Ken Livingstone, concorda: Trafalgar, disse Ken no dia da inauguração, representa o heroísmo bélico do Reino Unido. A estátua grávida de Alison Lapper representa a batalha do indivíduo para vencer o preconceito social e a limitação física. A própria Alison Lapper, presente no ato em sua cadeira de rodas, acrescentou: "Pelo menos, a minha luta não provocou sofrimento a ninguém". Bom, a luta talvez não, minha senhora. Mas a estátua é tão grotesca que até dói.
Não pelo motivo mais básico. Não pela ausência de braços, ou pernas. Não pela deficiência física. O problema de "Alison Lapper Grávida" está na intenção do gesto, na justificação para ele. E, naturalmente, na escolha do espaço.
Acredito que muitas almas sensíveis, confrontadas com o ato radical de Marc Quinn, dirão certamente que Quinn é artista "corajoso" e "provocador", decidido a expor em público a deficiência de uma mulher. Quinn seria uma espécie de Caravaggio moderno, furando o preconceito social com a representação tangível da limitação física.
Como é evidente, a atitude não é provocadora e não é corajosa. Como escreveu o crítico de arte Richard Dorment, é exatamente o contrário: uma atitude covarde e politicamente correta porque Quinn sabe, ou imagina, que poucos irão criticar o gesto, ou criticar a obra, com medo das brigadas corretivas. Quinn usa o corpo de uma mulher deficiente para se proteger da crítica e para faturar com a obra.
Mas a escultura é também grotesca pela justificação que a sustenta. Nas palavras de Quinn, não interessava apenas dar um "toque feminino" a Trafalgar Square. Era necessário prestar uma sentida homenagem à estatuária clássica, leia-se "grega", da qual a sra. Lapper, sem braços ou pernas, seria um brilhante exemplo. Na cabeça de Quinn, a sra. Lapper seria uma espécie Vênus de Milo "au naturelle", agora esculpida em mármore branco da região italiana de Carrara.
Infelizmente, as palavras de Quinn apenas podem ser escutadas como sórdida piada. Ao contrário do que Quinn parece imaginar, as figuras clássicas que chegaram aos nossos Museus (as "Vênus" de Praxíteles; as "Amazonas" de Policleto; as "Deusas Atena" de Fidias) não começaram como figuras mutiladas. Mais: a sublime ambição que presidiu à estatuária clássica foi a busca, obsessiva e vital, da harmonia e da proporção do corpo. Não apenas nas figuras mitológicas ou nos personagens mundanos. Policleto de Argos, na 2ª metade do século 5 a.C., estabeleceu o cânone que, sem grandes alterações, vigorou durante séculos (Roma incluída): o tamanho da cabeça seria repetido, sete vezes, ao longo da proporção integral do corpo (como se vê, aliás, nas suas próprias peças, hoje no Museu do Vaticano). Escusado será dizer que um corpo mutilado não é, por definição, um corpo "clássico", ou seja, harmonioso e proporcional. É, simplesmente, um corpo mutilado.
Mutilado e, na obra de Quinn, tecnicamente medíocre: a escultura "Alison Lapper Grávida" é uma peça acadêmica e inexpressiva, exatamente o contrário da "humanização" da escultura helenística, em que a sensualidade (como em Praxíteles), a violência (como em Fidias) ou a tragédia (como em Scopas) foram o contributo mais poderoso dos Gregos para a história da escultura ocidental.
A "obra" de Marc Quinn é moralmente repugnante, artisticamente medíocre e, last but not least, historicamente deslocada. Trafalgar Square celebra a história britânica em seus momentos mais gloriosos ou dramáticos. Colocar no quarto plinto uma figura feminina sem grandeza histórica evidente é tão absurdo como colocar no plinto a Princesa Diana, as Spice Girls ou Elton John a cantar suas baladas.
Porque o problema não está na sra. Lapper e na sua deficiência física. O problema está em quem encomendou a obra e, sobretudo, no artista que a executou. A escultura pode não ter braços, ou pernas. Mas o artista, claro, não tem vergonha, não tem caráter. E, pior, não tem cabeça.
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João Pereira Coutinho, 31, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online. E-mail: jpcoutinho.br@jpcoutinho.com |

