Pensata

João Pereira Coutinho

26/12/2005

Dicionário 2005

A

ARON, Raymond - Foi o ano de Raymond Aron (1905 - 1983), o intelectual francês que manteve a cabeça no lugar quando Sartre, também centenário em 2005, namorava Stálin. Comprou brigas várias, escreveu a mais demolidora crítica ao marxismo que conheço. "L'Opium des Intellectuels" (1955) é um dos grandes livros de teoria política do século 20.

Auschwitz - Auschwitz foi libertado há 60 anos. Os campos de extermínio são curiosidade turística para japonês ver: impossível caminhar pelos relvados e barracões de Auschwitz ou Birkenau e ter a sensação, remota que seja, do horror recente que a Europa produziu.

Preferível ler as grandes obras sobre a matéria, especialmente Primo Levi ou Elie Wiesel. Cracóvia, a poucos quilómetros de Auschwitz, é paragem obrigatória: o bairro judeu, pela desolação evidente, é expressão física do que ficou para trás. A fábrica de Oskar Schindler, o industrial alemão que salvou 1200 judeus do Holocausto e que Spielberg filmou em 1993, ainda hoje existe. Batam à porta. Visitas informais.


B

BELLOW, Saul - Morreu Saul Bellow, aos 89 anos, esse Hemingway espiritual que praticamente me ensinou a ler. Bellow é o típico judeu desenraizado, que fez da atenção ao detalhe a marca do gênio absoluto.

Mas não apenas a atenção ao detalhe: todos os romances de Bellow são afirmações de individualidade, por vezes desesperadas afirmações de individualidade, no meio da massa anônima que nos rodeia e oprime.

BLAIR, Tony - Foi a terceira e última eleição consecutiva de Tony Blair. A economia cresce. A oposição interna às aventuras militares de Blair também. Gordon Brown, atual ministro da Economia e Finanças, será o sucessor de Blair à frente do partido trabalhista. Mas, pergunto, será também o sucessor de Blair no governo de Downing Street? Duvidoso. Os conservadores elegeram recentemente David Cameron, 39, bonitinho e articulado, que promete um corte com a tradição "tory", ou seja, uma aproximação ao centro -- o centro que Blair e os trabalhistas também ocupam. Será a luta mortal dos próximos anos na política do velho continente.


C

CERVANTES - Nos 400 anos de "D. Quixote", li o ensaio que Martin Amis escreveu a respeito em "The War Against Cliché". Nota prévia: sempre achei que o Amis fundamental está nos ensaios, não nos romances. Serei o único? "The Rachel Papers", o primeiro romance, ainda se lê com prazer. Mas são os ensaios, como em "The Moronic Inferno", e os textos pessoais, como em "Experience", que salvam Amis da mediania. Regressando a Quixote: como é chato Cervantes, não? Li "D. Quixote" há anos, em tradução do escritor português Aquilino Ribeiro, e a história sempre me pareceu sucessão infindável de "quadros" sem desígnio ou estrutura narrativa digna de nome. Divertidos, estilisticamente apelativos, mas existe a sensação de que Cervantes podia continuar acrescentando, ou subtraindo, "quadros", o que, pessoalmente, me incomoda como leitor. O melhor de Cervantes é, claro, a relação Sancho/Quixote, a maior dupla da literatura universal porque, precisamente, a primeira de todas as duplas que vieram a seguir. Borges dizia (seria Borges?) que Sherlock Holmes e o amigo Watson, nas histórias de Conon Doyle, eram revisitação perfeita de Sancho e Quixote. Borges, como sempre, tinha inteira razão.

E

EVANS, Richard J. - Richard J. Evans publica "The Third Reich in Power". O livro de Evans, professor de história moderna na universidade de Cambridge, faz parte de uma trilogia que conheceu o primeiro volume há dois anos ("The Coming of the Third Reich", narrativa sobre a desagregação da Alemanha de Weimar e a ascensão do Partido Nacional Socialista, até 1933). Este "The Third Reich in Power", como o título indica, cobre o período de 1933 a 1939, ou seja, a forma metódica como Hitler foi construindo um Estado totalitário, preparando a Alemanha (e a Europa) para a guerra. O terceiro e último volume será inteiramente dedicado ao conflito e à derrocada do Reich. Aposta: um dia alguém irá falar desta trilogia de Evans como hoje falamos da Roma de Gibbon.

F

França - Oito mil carros queimados nos arredores de Paris. Explicação? A economia, para uns. O modelo de integração social, para outros. Poucos, muito poucos, sublinharam o óbvio: se as razões da violência urbana fossem a economia ou a integração, a Europa inteira estaria em chamas. O problema, desconfortável de notar, é a presença de uma comunidade imigrante, islamizada e fanática, que não está interessada em integrar-se. Curiosamente, uma das poucas pessoas que escreveu sobre a matéria sem medos nem desculpas foi Nelson Ascher, nas páginas da Folha. Ler Ascher é um exercício de sanidade.

G

Gaza - Ariel Sharon, 78, retira de Gaza. Passo histórico que, depois da morte de Arafat, pode abrir caminho para solução razoável entre israelenses e palestinos. O gesto de Sharon não se fez, claro, por motivos humanitários. É um gesto político, ou seja, demográfico: manter os territórios ocupados, em Gaza e na Margem Ocidental, pode condenar os judeus de Israel a serem uma minoria dentro do seu próprio espaço. Nenhum estadista tolera este suicídio a prazo.

GELDOF, Bob - A única forma de ajudar África passa pela liberalização do comércio internacional (pouco provável, como se viu na recente e vergonhosa reunião da Organização Mundial de Comércio em Hong Kong) e pela exigência de transparência e democratização dos regimes africanos, maioritariamente afogados em cleptocracias criminosas. Geldof não vê o filme todo e acredita, como acreditou no primeiro Live Aid, que tudo se resolve com esmolas. No primeiro Live Aid, a ajuda monetária permitiu a Mengistu, tirano etíope, a perpetuação da opressão e da guerrilha. Com o segundo Live Aid, baptizado de Live 8 por referência ao G-8 reunido em Gleneagles, Escócia, o erro é repetido e as consequências, trágicas, também. O criminoso volta sempre ao lugar do crime.

H

HOUELLEBECQ, Michel - Defendo Houellebecq desde 1994, ou seja, desde "Extension du domaine de la lutte": o tom de acídia e humor, a frase curta, o solipsismo autoparódico do narrador -- tudo isso era profundamente novo na verborrágica literatura francesa. Houellebecq continuou com "Partículas Elementares" (1998), provavelmente o seu melhor livro. "Plataforma" (2001), bom, não tem a energia selvagem dos dois anteriores. Este "La Possibilité d'une île", a publicação mais aguardada de 2005, que comentei para a Folha, é a desilusão intelectual do ano. Sorry, amantes: Houellebecq não tem rigorosamente mais nada para contar e repete personagens e situações como um velho demente e sem alma. Sim, todos os grandes autores regressam sempre aos temas do seu afeto. Mas nunca, nunca, nunca com igual desafeto.


I

IRVING, David - O historiador David Irving, 67, foi preso na Áustria, país que oferece cadeia a negacionistas do Holocausto (atenção, Mahmoud Ahmadinejad: nunca viajar para Viena). Detido pela polícia austríaca, Irving acabou por encontrar dois dos seus livros mais polêmicos -- "Hitler's War" e "The Destruction of Convoy PQ-17" -- na biblioteca da prisão. Foi gargalhada pública na imprensa nacional (e internacional) e o judiciário austríaco, envergonhado, não comentou, ou comentou ao contrário: desconhecia o "conteúdo" dos livros e vai mandar retirá-los da biblioteca prisional imediatamente. Ah, o mundo é dos simples...

K

KOESTLER, Arthur - Nasceu há cem anos. Dizem que a Guerra Fria começou com Truman. Errado. Começou com a publicação de "Darkness at Noon", de Koestler.

L

LENNON, John - John Lennon foi baleado há 25 anos. Todas as cidades do mundo deveriam ter uma estátua de Lennon na praça principal. Para que os habitantes da terra pudessem praticar tiro ao alvo. Lennon é sujeito repulsivo que lançou uma moda repulsiva: a idéia da estrela pop como demiurgo da humanidade. Releio algumas das sentenças de Lennon -- proferidas na rua, na cama, no banheiro, em cima de uma árvore -- e encontro a cabeça de uma criança subletrada em funcionamento, que o mundo escutava com atenção religiosa. A canção "Imagine" é a minha idéia de inferno: chego às portas da fogueira eterna e Lennon, de guitarra em punho, com Yoko pendurada num dos braços, faz serenata só para mim.

LEWIS, Clive Staples - C.S. Lewis, scholar em Oxford e Cambridge, especialista em Literatura Medieval e Renascentista, amigo de Tolkien com quem formava parte do grupo The Inklings, intelectuais ingleses que se reuniam no pub The Eagle and Child, em Oxford (ainda hoje existe, perto do centro) escreveu "The Lion, the Witch and the Wardrobe" em 1950. O filme foi agora lançado em cinema. Não vi, não vejo: Li "The Lion" e todas as crônicas de Narnia na infância e há prazeres, óbvios, que não se repetem. Além disso, o próprio Lewis deixou indicações escritas para que a história jamais passasse a celulóide (muito menos pelos estúdios Disney). Para os interessados no autor, e na obra do autor, a melhor biografia (opinião muito pessoal) continua a ser a de A.N. Wilson. C.S. Lewis morreu discretamente a 23 de novembro de 1963.

Os jornais dedicaram espaço diminuto ao fato: a 23 de novembro morriam também John F. Kennedy, em Dallas, e Aldous Huxley, na Califórnia. Concorrência desleal

Lisboa - A cidade de Lisboa relembrou os 250 anos sobre o terremoto de 1755, acontecimento que alimentou polêmicas filosóficas e teológicas que sacudiram o século 18. O "Desastre de Lisboa", como ficou conhecido, com uma magnitude provável de 8,7 na escala de Richter, arrasou a cidade antiga (mais de 30 palácios, os seis hospitais da capital, coleções artísticas e bibliográficas de valor incalculável, milhares de casas particulares). Dos 250 mil habitantes, 10 a 15 mil pereceram com o abalo e suas consequências: múltiplos incêndios e um tsunami que terminou o serviço com ondas gigantescas. A tragédia acabaria por fortalecer a autoridade de Sebastião José de Carvalho e Melo, o afamado marquês de Pombal, e por permitir a construção da Lisboa moderna, que ainda hoje se espraia, como uma onda solarenga e pacífica, na "baixa" da capital portuguesa.

M

MERKEL, Angela - Angela Merkel, 51, foi a primeira mulher a ganhar as legislativas alemãs. Uma amiga contava-me há tempos que, na noite em que o Muro de Berlim era derrubado, Merkel acompanhou os acontecimentos pela rádio e depois foi dormir cedo, porque trabalhava no dia seguinte. É o melhor retrato de Merkel.

N

Nova Orleans - Toda a gente escreveu sobre o furacão Katrina, que matou 10 mil pessoas. Semanas depois, os números oficiais apontavam para 1300. Alguém corrigiu a informação? Eis uma das características mais notáveis do jornalismo moderno: lançar números para a estratosfera e nunca corrigir o delírio inicial. Culpados? Depende. Para os fanáticos, Deus, que castiga os homens pela violência da natureza; ou, então, Bush, que não respeita Kyoto. Ambas são atitudes irracionais que tentam negar o óbvio: a natureza é indiferente aos nossos humanos propósitos. Uma idéia incompatível com a nossa cultura pós-iluminista, em que os homens se acreditam senhores do seu destino. Duzentos e cinquenta anos depois, continuamos reféns do Grande Terremoto de Lisboa.

P

PINTER, Harold - Consumi Pinter e respeito os três primeiros anos do dramaturgo, de 1957 a 1959, sobretudo "The Birthday Party". Mas o esgotamento criativo é visível a partir da década de 60 e Pinter, que sempre se afastou da política ativa e infantil, ao gosto de Chomsky, começou a cultivar a veia. Perdeu-se um bom dramaturgo, que aliás já dava sinais de cansaço, e ganhou-se um panfletista menor. A Academia Sueca acertou no Nobel de 2005? Indiferente. A Academia Sueca não acerta desde 1976 (Bellow), com duas ou três exceções nos últimos anos. O prémio, hoje, é essencialmente político, não mais.

POWELL, Anthony - Anthony Powell nasceu há cem anos. Ninguém notou. Injusto. Powell é um dos grandes romancistas ingleses do século 20. Mais: é impossível entender a alta sociedade inglesa do período sem ler a longa sequência "A Dance to the Music of Time", embora os primeiros romances, publicados antes da Segunda Guerra Mundial, mereçam leitura atenta (sobretudo "Afternoon Men"). Infelizmente, Powell sempre conheceu a sombra. Na sua época, perdeu nas comparações para colegas de geração, como Evelyn Waugh ou Cyril Connolly. E, aos olhos de hoje, Powell surge como um snob, uma relíquia de tempos passados. Acusação pedestre, naturalmente: não conheço um único grande escritor que não seja snob no verdadeiro sentido do termo, i.e., que não sinta o dever de encontrar na vida humana aspectos ou idiossincrasias que mereçam tratamento particular e superior.

U

União Européia - Franceses e holandeses reprovaram a constituição e praticamente enterraram o projeto europeu. Uma lição para a Europa: não se apagam séculos de identidades nacionais com documentos burocráticos e federalistas.

W

WOJTYLA, Karol - Não discuto a importância religiosa, ou teológica, de Karol Wojtyla (1920 - 2005). Como figura política, é incontornável na segunda metade do século XX: desconfio que o Muro de Berlim continuaria no sítio, ou pelo menos teria ruído mais tarde, se a acção moral de Wojtyla não tivesse sido determinante (lembrar a viagem à Polônia em 1979).

Z

Zoo - O Jardim Zoológico de Bremen, na Alemanha, viveu dias polêmicos em fevereiro, ao forçar seis pinguins a copularem com parceiras fêmeas da Suécia. Antigamente, uma noite sueca era o sonho de qualquer macho, sobretudo em idade adolescente. Hoje, não: parece que os pinguins eram gays e as patrulhas ideológicas protestaram contra a intromissão na intimidade dos bichos. Desconheço o final da história.

Mas, por motivos sentimentais, gosto de pensar que os rapazes viveram felizes para sempre e, quem sabe, estiveram presentes no casamento de Sir Elton John.
João Pereira Coutinho, 31, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

E-mail: jpcoutinho.br@jpcoutinho.com

Leia as colunas anteriores

//-->

FolhaShop

Digite produto
ou marca