Pensata

João Pereira Coutinho

17/04/2006

Beckett em Paris

O governo francês, como se esperava, enterrou o Contrato de Primeiro Emprego. Sempre assim foi: quando a rua grita, o Eliseu treme. E Chirac, coitado, nunca se notabilizou pela coragem ou pela lucidez política. Paz à sua alma. E paz à alma da França: com desemprego nos 10% (e o dobro entre os menores de 26 anos, que a lei pretendia empregar), não lhe antevejo grande futuro.

O problema é que a rua não concorda. A rua e grande parte dos estudantes que marcharam nas últimas semanas por Paris, exigindo mais protecção, mais Estado, e mais protecção do Estado. O que diria Samuel Beckett de tudo isto?

A pergunta não é absurda: centenário a semana passada, a 13 de abril, Samuel Beckett (1906 - 1989) viveu em Paris grande parte da vida e, juntamente com Kafka, foi o segundo escritor do século porque, precisamente, captou a alma do século. Kafka conseguiu pressentir a ameaça do horror absoluto --uma sombra invisível de fechamento espiritual e moral que não chegou a sentir na pele. Beckett, sim: ele escreveu sobre as ruínas porque sobreviveu a elas. Leio no jornalismo cultural mais preguiçoso que a literatura de Beckett é uma "literatura de fracasso". Talvez seja. Mas este cliché, como todos os clichés, transporta uma simplificação grosseira: o célebre "fracasso" de Beckett nasce diretamente da vontade humana de não desistir. De tentar novamente, falhar novamente, falhar melhor. Se a mortalidade é a nossa única certeza, cabe aos seres humanos continuar: um gesto prometaico que, à semelhança do Sísifo de Camus, continua a rolar a pedra pela recusa do suicídio, ou seja, pela recusa da saída mais simples. Mesmo Malone, às portas da morte, entende a imperiosa necessidade de continuar.

Os estudantes de Paris, que obviamente nunca leram um dos mais importantes escritores da cidade, são a radical negação de tudo isto. Eles não querem continuar num mundo hostil que exige acção possível, ou seja, risco possível, aceitando um trabalho precário durante dois anos. Sobretudo quando trabalho definitivo é um luxo numa economia em crise. Eles querem o retorno imaginário a um passado imaginário, feito de segurança pessoal, laboral, física e até existencial. São jovens de 24 ou 25 mas, mentalmente, inversamente, estão na casa dos 42 ou dos 52. Ou dos 62. Ou dos 72. O horror ao risco é o traço que os une e nesse horror está um horror à vida: à natureza frágil e incerta da existência humana. De uma existência que, desde o berço, está condenada a prazo.

Nas ruas de Paris, não esteve apenas uma lei trabalhista em discussão. Esteve toda uma filosofia de vida. Pessoas existem que, apesar da violência do mundo, não prescindem da liberdade, da angústia da liberdade, e avançam. Porque, sem um mínimo de risco, os seres humanos são, como diria o poeta, cadáveres adiados. Os meninos de Paris discordam. Eles querem segurança total porque acreditam que a vida deve ser vivida numa jaula, ou num caixão. Eles desejam segurança total mas nesse desejo está, simplesmente, um desejo de morte.
João Pereira Coutinho, 31, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online.

E-mail: jpcoutinho.br@jpcoutinho.com

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