João Pereira Coutinho
26/06/2006
Sou um caso perdido. Quando penso que finalmente apanhei o presente, eis que o presente resolve dar um corrida e me deixa a comer poeira. Uns anos atrás, resolvi enterrar as minhas resistências cinéfilas e comprei um videogravador. Investi forte: no aparelho e em comida para o bicho. As comédias de Hawks em VHS. Todo o Hitchcock. O melhor de Capra, Wilder e Peckinpah. Três meses depois, o DVD estava no mercado. Amigos vários olhavam para mim como hoje se olha para um dinossauro no Museu de História Natural: assustados e levemente divertidos. Alguns tiravam retratos.
O mesmo com a internet. Melhor: com o e-mail. Que bateu à minha porta pouco depois de ter comprado um fax e, milagre, ter aprendido a mexer com a máquina. O mundo era meu, pensava, com ar triunfal. Podia comunicar em minutos com qualquer parte do globo. O mundo, na verdade, abandonara-me há muito. Ninguém usava papel, exceto para. Só eu.
Agora penso em mudar de computador e, segundo as lojas do bairro, a duração média de um computador é de três meses, no máximo seis. Em meio ano, o computador está "desatualizado" e é necessário "renovar". Os especialistas dizem isto com um sorriso nos lábios. Vermes. Eles nem se apercebem como são escravos de um mundo sem descanso: um mundo que é capaz de criar sempre mas incapaz de desfrutar um pouco. E então penso como cometi um erro imperdoável, algures, pelo ano de 1997: tivesse eu continuado a escrever à mão e estaria tranquilamente em casa, de caneta em punho, pronto para desenhar estas linhas. Escrever à mão não é apenas um exercício elegante, vagaroso e vagarosamente pensado. É um exercício prudente, porque se recusa a alinhar com as loucuras próprias do tempo. Sim, existiram penas. Sim, existiram tinteiros. Mas as penas e os tinteiros deram apenas um pequeno salto para as canetas de hoje. E pronto. As canetas ficaram como vieram, enquanto os seres humanos perseguem como loucos o último grito de uma tecnologia histérica. Que estará morta e enterrada antes do entardecer. Valerá a pena?
15 de Junho
Infelizmente, o mundo não pára. Segundo a revista "The Economist", o futuro terá tecnologia de ponta e a nossa vida será crescentemente dominada por ela. Exemplos? Um elevador que será capaz de transportar gente da Terra à Lua. A ideia não é nova: Arthur C. Clarke escreveu a respeito, em "The Fountains of Paradise", corria 1979.
Duas companhias estudam agora a possibilidade real e a NASA, informalmente, abençoa os estudos e espera para ver. Eu não tenho nada a opôr, embora pressinta óbvias dificuldades com o projecto. Para começar, as intermináveis esperas que seremos obrigados a sofrer quando chamarmos o elevador para ir à Lua. Já é difícil trabalhar num prédio com 20 ou 30 andares: a espera no hall, a necessidade de fazer conversa com perfeitos estranhos e, no meu caso, a evidente impossibilidade de falar sozinho. Agora imagino uma viagem à Lua: o meu repertório de assuntos não chega para tanto e o estado do tempo esgota-se com duas frases ("Está calor, hein?" "Se está, Deus me livre!"). Além disso, sou capaz de ouvir Burt Bacharach, em música ambiente, durante uma hora ou duas. Não um mês ou dois.
Mas fascinante é ler sobre os desenvolvimentos na indústria da música. Para a "The Economist", o futuro será dominado por programas de "inteligência musical". Explico: o compositor faz a música; depois, o computador estuda as qualidades do produto e prevê se o produto será um "hit". Segundo investigadores, os U2, por exemplo, fazem lembrar Beethoven. Provavelmente, na capacidade de provocar a surdez que o afetou. E várias gravadoras já usaram o software para adivinhar o sucesso das músicas. Casos recentes: "Candy Shop", de 50 Cent; "Be the Girl", de Aslyn; "Unwritten", de Natasha Bedingfield; "She Says", de Howie Day; "You're Beautiful", de James Blunt. Todas eles passaram pelo programa da "inteligência musical" e foram aprovados com nota máxima. Antes do lançamento.
Como colunista responsável que sou, resolvi escutar os temas e posso garantir que tenho uma solução mais prática, e mais económica, para as gravadoras do futuro: contratem um adolescente ligeiramente retardado e esperem pela reação. Se ele bater o pé com o ritmo, ou emitir um grunhido próprio da espécie, parabéns: é sucesso garantido.
18 de Junho
Falo sozinho com frequência? Precisamente: tenho longas conversas que, às vezes, terminam com zanga séria. Desde logo porque é difícil conversar com alguém hoje em dia. Mesmo com pessoas próximas, com quem partilhamos tudo - trabalho, casa, saliva, doenças - é mais complicado do que parece. Por isso leio o texto de Boris Fausto na Folha, "Jogando conversa fora", com um sorriso de concórdia. De fato. Difícil não sentir alguma nostalgia pela boa e velha conversa, que o século 18 elevou a uma forma de arte. E não apenas nos salões de Paris. O "século da conversa" encontra-se também, ou sobretudo, em Londres e vários conversadores de excelência saltam de imediato: Goldsmith, Boswell, Reynolds e o incomparável Dr. Johnson, que cunhou a frase lendária «whoever goes to bed before midnight is a rogue» («quem vai para a cama antes da meia noite é um velhaco»).
Hoje é o contrário: as pessoas falam, sim, mas raramente conversam. Qual a diferença? Falar é coisa utilitária, que começa e acaba com um propósito comum. Conversar, não: desde logo porque "conversar" implica dois sentidos. Falamos e escutamos. E falamos. E escutamos. Como uma dança que precisa de dois parceiros: dois parceiros que avançam e recuam pelo simples prazer de dançar. Existe disputa. Mas existe também a natureza vagabunda de uma conversa: a forma como vai deambulando pelas ruas da intimidade sem ninguém saber exatamente como, para onde, ou porquê. Participamos apenas no "grande congresso internacional", como lhe chamava Robert Louis Stevenson num ensaio clássico sobre a matéria, "Talk and Talkers", que aconselho. Tudo isto implica um desprendimento do tempo, e da "cultura dos resultados", que a modernidade enterrou sem retorno.
Boris Fausto cita as festas de sociedade, onde as pessoas não conversam: vão disparando frases, tentando vencer a resistência do alarido. Vou mais longe: a cultura do ruído surgiu e instalou-se, precisamente, para esconder a vacuidade das pessoas. Para esconder, no fundo, como os seres humanos se tornaram desinteressantes. Nada para dizer. Nada para escutar. Às vezes, o ruído em volta é até um alívio (para eles) e uma benesse (para nós).
21 de Junho
Pessoas existem que não gostam do sucesso alheio. No meu caso, depende: quando alguém resolve escrever exatamente o que eu penso, fico grato e descansado. Trabalho a menos na salvação da Humanidade. Aconteceu com David Kipen e o seu "The Schreiber Theory" ("schreiber" significa "escritor" em Yiddish).
Que nos diz Kipen no seu breve tratado? Um pensamento que me ocorre com pasmosa frequência: no princípio é o verbo. Falo de cinema e da importância do texto para avaliar a qualidade de um filme. A tribo dos "Cahiers du Cinéma", em meados da década de 50, desenvolveu a "teoria do autor", entregando a chave do sucesso à palavra final do diretor? "Excusez-mois, mes amis": antes do diretor, existe a palavra do homem das palavras. Um bom roteiro é um bom roteiro. E as nossas idas ao cinema seriam melhoradas dramaticamente se prestássemos mais atenção aos roteiristas, e não tanto aos diretores.
No meu caso, não preciso de conselhos: aprecio Woody Allen, David Lynch, Quentin Tarantino e, nos últimos anos, o estimável Alexander Payne. Denominador comum? Escrevem as próprias histórias e, claro, escrevem muito bem. Mas a tese não se limita apenas a diretores que escrevem (ou serão escritores que dirigem?). A tese é válida para os clássicos: Howard Hawks é provavelmente a minha ideia de perfeição artística no século 20. Mas não nego que, por detrás de Hawks, existiu o dedo de Jules Furthman (em "To Have and Have Not/ Uma Aventura na Martinica", "The Big Sleep/ À Beira do Abismo", ou "Rio Bravo/ Onde Começa o Inferno"). Para não falar em Ben Hecht, que escreveu a minha comédia de eleição ("Monkey Business/ O Inventor da Mocidade", também de Hawks) e, por causa disso, me levou à descoberta de Hitchcock (em "Spellbound/ Quando Fala o Coração" ou "Notorious/ Interlúdio", ambos escritos por Hecht).
E depois existem casos de roteiristas que, pessoalmente falando, são mais importantes do que os diretores. Frederic Raphael é o nome mais óbvio: "Darling", "Two for the Road/ Um Caminho para Dois" ou o último Kubrick, "Eyes Wide Shut", merece visionamento por causa do texto, não pelo dedo exclusivo de Schlesinger, Stanley Donen ou mesmo Kubrick. E o cinema académico de James Ivory é produto do talento elegante de Ruth Prawer Jhabvala. Depois da morte de Jhabvala, o cinema de Ivory caiu em qualidade e subtileza - e o último, "The White Countess/ A Condessa Branca", embora escrito por notável romancista (Kazuo Ishiguro), não tem as qualidades cinematográficas de "The Remains of the Day/ Vestígios do Dia". Um romancista é um romancista. Um roteirista é outra história. Experimentem.
25 de Junho
Portugal joga daqui a umas horas com a Holanda. Escrevo sem conhecer o resultado mas com dezenas de e-mails de leitores que me acusam de pessimismo infundado e desconhecimento profundo. Elogios, só elogios. E porquê? Porque há uns tempos escrevi neste espaço que Portugal seria eliminado na primeira fase ("A bola é quadrada"). Não foi: ganhou os três jogos e, agora, pode passar às quartas. Gostaria de afirmar, em minha defesa, que a culpa não é do colunista. A culpa é inteiramente dos leitores. Eles remam contra a ciência e, coitados, continuam a acreditar nos colunistas.
Não é boa ideia e Philip E. Tetlock explica porquê, em "Expert Political Judgement: How good is it? How can we know?". Tetlock, professor de Ciência Política em Berkeley, na Califórnia, utiliza estudo de vinte anos para provar três coisas - três coisas que qualquer leitor atento deveria saber por experiência própria. Primeiro, os colunistas sabem menos do que parece (fato). Segundo, eles falham com frequência (idem). E, terceiro, nunca são penalizados por isso (yuppi!). A lição de Tetlock é especialmente válida para os colunistas com maior pessimismo: segundo o estudo, nos cenários mais negros, que constituem 70% das previsões dos pessimistas, só 12% acabaram por acontecer.
Chega de pessimismo. Hoje, dia 25 de Junho, quando são três da tarde em Portugal, eu prevejo uma vitória homérica da selecção portuguesa sobre a Holanda. Aliás, que se lixe a Holanda: dia 9 de Julho, em Berlim, a Copa será nossa. "Sorry", Brasil.
Vida moderna
12 de JunhoSou um caso perdido. Quando penso que finalmente apanhei o presente, eis que o presente resolve dar um corrida e me deixa a comer poeira. Uns anos atrás, resolvi enterrar as minhas resistências cinéfilas e comprei um videogravador. Investi forte: no aparelho e em comida para o bicho. As comédias de Hawks em VHS. Todo o Hitchcock. O melhor de Capra, Wilder e Peckinpah. Três meses depois, o DVD estava no mercado. Amigos vários olhavam para mim como hoje se olha para um dinossauro no Museu de História Natural: assustados e levemente divertidos. Alguns tiravam retratos.
O mesmo com a internet. Melhor: com o e-mail. Que bateu à minha porta pouco depois de ter comprado um fax e, milagre, ter aprendido a mexer com a máquina. O mundo era meu, pensava, com ar triunfal. Podia comunicar em minutos com qualquer parte do globo. O mundo, na verdade, abandonara-me há muito. Ninguém usava papel, exceto para. Só eu.
Agora penso em mudar de computador e, segundo as lojas do bairro, a duração média de um computador é de três meses, no máximo seis. Em meio ano, o computador está "desatualizado" e é necessário "renovar". Os especialistas dizem isto com um sorriso nos lábios. Vermes. Eles nem se apercebem como são escravos de um mundo sem descanso: um mundo que é capaz de criar sempre mas incapaz de desfrutar um pouco. E então penso como cometi um erro imperdoável, algures, pelo ano de 1997: tivesse eu continuado a escrever à mão e estaria tranquilamente em casa, de caneta em punho, pronto para desenhar estas linhas. Escrever à mão não é apenas um exercício elegante, vagaroso e vagarosamente pensado. É um exercício prudente, porque se recusa a alinhar com as loucuras próprias do tempo. Sim, existiram penas. Sim, existiram tinteiros. Mas as penas e os tinteiros deram apenas um pequeno salto para as canetas de hoje. E pronto. As canetas ficaram como vieram, enquanto os seres humanos perseguem como loucos o último grito de uma tecnologia histérica. Que estará morta e enterrada antes do entardecer. Valerá a pena?
15 de Junho
Infelizmente, o mundo não pára. Segundo a revista "The Economist", o futuro terá tecnologia de ponta e a nossa vida será crescentemente dominada por ela. Exemplos? Um elevador que será capaz de transportar gente da Terra à Lua. A ideia não é nova: Arthur C. Clarke escreveu a respeito, em "The Fountains of Paradise", corria 1979.
Duas companhias estudam agora a possibilidade real e a NASA, informalmente, abençoa os estudos e espera para ver. Eu não tenho nada a opôr, embora pressinta óbvias dificuldades com o projecto. Para começar, as intermináveis esperas que seremos obrigados a sofrer quando chamarmos o elevador para ir à Lua. Já é difícil trabalhar num prédio com 20 ou 30 andares: a espera no hall, a necessidade de fazer conversa com perfeitos estranhos e, no meu caso, a evidente impossibilidade de falar sozinho. Agora imagino uma viagem à Lua: o meu repertório de assuntos não chega para tanto e o estado do tempo esgota-se com duas frases ("Está calor, hein?" "Se está, Deus me livre!"). Além disso, sou capaz de ouvir Burt Bacharach, em música ambiente, durante uma hora ou duas. Não um mês ou dois.
Mas fascinante é ler sobre os desenvolvimentos na indústria da música. Para a "The Economist", o futuro será dominado por programas de "inteligência musical". Explico: o compositor faz a música; depois, o computador estuda as qualidades do produto e prevê se o produto será um "hit". Segundo investigadores, os U2, por exemplo, fazem lembrar Beethoven. Provavelmente, na capacidade de provocar a surdez que o afetou. E várias gravadoras já usaram o software para adivinhar o sucesso das músicas. Casos recentes: "Candy Shop", de 50 Cent; "Be the Girl", de Aslyn; "Unwritten", de Natasha Bedingfield; "She Says", de Howie Day; "You're Beautiful", de James Blunt. Todas eles passaram pelo programa da "inteligência musical" e foram aprovados com nota máxima. Antes do lançamento.
Como colunista responsável que sou, resolvi escutar os temas e posso garantir que tenho uma solução mais prática, e mais económica, para as gravadoras do futuro: contratem um adolescente ligeiramente retardado e esperem pela reação. Se ele bater o pé com o ritmo, ou emitir um grunhido próprio da espécie, parabéns: é sucesso garantido.
18 de Junho
Falo sozinho com frequência? Precisamente: tenho longas conversas que, às vezes, terminam com zanga séria. Desde logo porque é difícil conversar com alguém hoje em dia. Mesmo com pessoas próximas, com quem partilhamos tudo - trabalho, casa, saliva, doenças - é mais complicado do que parece. Por isso leio o texto de Boris Fausto na Folha, "Jogando conversa fora", com um sorriso de concórdia. De fato. Difícil não sentir alguma nostalgia pela boa e velha conversa, que o século 18 elevou a uma forma de arte. E não apenas nos salões de Paris. O "século da conversa" encontra-se também, ou sobretudo, em Londres e vários conversadores de excelência saltam de imediato: Goldsmith, Boswell, Reynolds e o incomparável Dr. Johnson, que cunhou a frase lendária «whoever goes to bed before midnight is a rogue» («quem vai para a cama antes da meia noite é um velhaco»).
Hoje é o contrário: as pessoas falam, sim, mas raramente conversam. Qual a diferença? Falar é coisa utilitária, que começa e acaba com um propósito comum. Conversar, não: desde logo porque "conversar" implica dois sentidos. Falamos e escutamos. E falamos. E escutamos. Como uma dança que precisa de dois parceiros: dois parceiros que avançam e recuam pelo simples prazer de dançar. Existe disputa. Mas existe também a natureza vagabunda de uma conversa: a forma como vai deambulando pelas ruas da intimidade sem ninguém saber exatamente como, para onde, ou porquê. Participamos apenas no "grande congresso internacional", como lhe chamava Robert Louis Stevenson num ensaio clássico sobre a matéria, "Talk and Talkers", que aconselho. Tudo isto implica um desprendimento do tempo, e da "cultura dos resultados", que a modernidade enterrou sem retorno.
Boris Fausto cita as festas de sociedade, onde as pessoas não conversam: vão disparando frases, tentando vencer a resistência do alarido. Vou mais longe: a cultura do ruído surgiu e instalou-se, precisamente, para esconder a vacuidade das pessoas. Para esconder, no fundo, como os seres humanos se tornaram desinteressantes. Nada para dizer. Nada para escutar. Às vezes, o ruído em volta é até um alívio (para eles) e uma benesse (para nós).
21 de Junho
Pessoas existem que não gostam do sucesso alheio. No meu caso, depende: quando alguém resolve escrever exatamente o que eu penso, fico grato e descansado. Trabalho a menos na salvação da Humanidade. Aconteceu com David Kipen e o seu "The Schreiber Theory" ("schreiber" significa "escritor" em Yiddish).
Que nos diz Kipen no seu breve tratado? Um pensamento que me ocorre com pasmosa frequência: no princípio é o verbo. Falo de cinema e da importância do texto para avaliar a qualidade de um filme. A tribo dos "Cahiers du Cinéma", em meados da década de 50, desenvolveu a "teoria do autor", entregando a chave do sucesso à palavra final do diretor? "Excusez-mois, mes amis": antes do diretor, existe a palavra do homem das palavras. Um bom roteiro é um bom roteiro. E as nossas idas ao cinema seriam melhoradas dramaticamente se prestássemos mais atenção aos roteiristas, e não tanto aos diretores.
No meu caso, não preciso de conselhos: aprecio Woody Allen, David Lynch, Quentin Tarantino e, nos últimos anos, o estimável Alexander Payne. Denominador comum? Escrevem as próprias histórias e, claro, escrevem muito bem. Mas a tese não se limita apenas a diretores que escrevem (ou serão escritores que dirigem?). A tese é válida para os clássicos: Howard Hawks é provavelmente a minha ideia de perfeição artística no século 20. Mas não nego que, por detrás de Hawks, existiu o dedo de Jules Furthman (em "To Have and Have Not/ Uma Aventura na Martinica", "The Big Sleep/ À Beira do Abismo", ou "Rio Bravo/ Onde Começa o Inferno"). Para não falar em Ben Hecht, que escreveu a minha comédia de eleição ("Monkey Business/ O Inventor da Mocidade", também de Hawks) e, por causa disso, me levou à descoberta de Hitchcock (em "Spellbound/ Quando Fala o Coração" ou "Notorious/ Interlúdio", ambos escritos por Hecht).
E depois existem casos de roteiristas que, pessoalmente falando, são mais importantes do que os diretores. Frederic Raphael é o nome mais óbvio: "Darling", "Two for the Road/ Um Caminho para Dois" ou o último Kubrick, "Eyes Wide Shut", merece visionamento por causa do texto, não pelo dedo exclusivo de Schlesinger, Stanley Donen ou mesmo Kubrick. E o cinema académico de James Ivory é produto do talento elegante de Ruth Prawer Jhabvala. Depois da morte de Jhabvala, o cinema de Ivory caiu em qualidade e subtileza - e o último, "The White Countess/ A Condessa Branca", embora escrito por notável romancista (Kazuo Ishiguro), não tem as qualidades cinematográficas de "The Remains of the Day/ Vestígios do Dia". Um romancista é um romancista. Um roteirista é outra história. Experimentem.
25 de Junho
Portugal joga daqui a umas horas com a Holanda. Escrevo sem conhecer o resultado mas com dezenas de e-mails de leitores que me acusam de pessimismo infundado e desconhecimento profundo. Elogios, só elogios. E porquê? Porque há uns tempos escrevi neste espaço que Portugal seria eliminado na primeira fase ("A bola é quadrada"). Não foi: ganhou os três jogos e, agora, pode passar às quartas. Gostaria de afirmar, em minha defesa, que a culpa não é do colunista. A culpa é inteiramente dos leitores. Eles remam contra a ciência e, coitados, continuam a acreditar nos colunistas.
Não é boa ideia e Philip E. Tetlock explica porquê, em "Expert Political Judgement: How good is it? How can we know?". Tetlock, professor de Ciência Política em Berkeley, na Califórnia, utiliza estudo de vinte anos para provar três coisas - três coisas que qualquer leitor atento deveria saber por experiência própria. Primeiro, os colunistas sabem menos do que parece (fato). Segundo, eles falham com frequência (idem). E, terceiro, nunca são penalizados por isso (yuppi!). A lição de Tetlock é especialmente válida para os colunistas com maior pessimismo: segundo o estudo, nos cenários mais negros, que constituem 70% das previsões dos pessimistas, só 12% acabaram por acontecer.
Chega de pessimismo. Hoje, dia 25 de Junho, quando são três da tarde em Portugal, eu prevejo uma vitória homérica da selecção portuguesa sobre a Holanda. Aliás, que se lixe a Holanda: dia 9 de Julho, em Berlim, a Copa será nossa. "Sorry", Brasil.
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João Pereira Coutinho, 31, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online. E-mail: jpcoutinho.br@jpcoutinho.com |
