Sylvia Colombo
01/09/2006
Acabei de ver "Scoop", o 36º filme do cineasta, que estreou agora nos EUA, mas só deve chegar ao Brasil em fevereiro. Não é lá dos seus melhores trabalhos, mas mesmo um Woody "menor" vale mais do que a média de todas as estréias hollywoodianas. Em qualquer temporada.
"Scoop" vem na carona do excelente "Match Point" (que há pouco saiu em DVD no Brasil) e guarda, com relação a este, algumas semelhanças. Primeiro porque se passa em Londres, cidade que Woody adotou (e que já está usando como locação para seu próximo filme). Depois, porque, de novo, o diretor aponta os canhões para a aristocracia britânica e expõe um provável criminoso que conta com a posição social para tentar sair impune.
Se, por um lado, a idéia é mesmo requentada, "Scoop" tem uma vantagem com relação a "Match Point": o próprio Woody em cena, na pele do mágico Splandini. E eu sou daquelas que preferem os filmes de Woody com o próprio Woody no elenco.
A história começa quando uma repórter novata, gostosona e meio bocó (Scarlett Johansson) está participando de um número de desaparição de um show apresentado por Splandini ---um comediante do Brooklyn curiosamente radicado em Londres. A moça entra numa daquelas caixas gigantes e coloridas e, lá dentro, encontra o fantasma de Joe Strombel (Ian McShane), um jornalista que acaba de morrer, mas que não resiste à idéia de voltar ao mundo dos vivos só para passar para a frente um furo jornalístico ("scoop") cujas evidências levantou a partir de um relato que ouviu no barco da Morte (num momento Ingmar Bergman do filme).
O tal "furo" é a revelação de que um famoso serial killer que anda assombrando a cidade seria nada menos que um jovem milionário, encarnado pelo X-Man Hugh Jackman. A partir de então, a moça e o mágico, ela cheia de vontade, ele, de medos e paranóias, tentam se aproximar do fulano para desvendar o crime. Acontece que, no meio do caminho, ela se apaixona pelo suposto criminoso e a investigação, que já não ia bem por conta da atrapalhada participação do ilusionista, desanda de vez. O final, previsível, já se anuncia antes da metade do filme e a temática das piadas é a mesma de sempre: a culpa, as relações amorosas fracassadas etc.
Mas não importa, Woody Allen é piada velha que nunca perde a graça.
O MUNDO É DOS NERDS
A capa da "Time Out" nova-iorquina (cidade de onde escrevo) desta semana mapeia um fenômeno curioso, engraçado e ao mesmo tempo meio preocupante sobre os nossos tempos. Trata-se do assim apelidado movimento avant-nerdista, formado por grupos organizados por meio da internet que usam Nova York como palco para eventos que simulam realidades "alternativas". Tem desde o pessoal que reencena trechos da história dos EUA, com roupas de época e no meio da rua, até grupos que promovem "lutas Jedi", com roupas inspiradas nas do filme de George Lucas e sabres de luz, incorporando personagens como Darth Bush e Emperor Cheney contra Al Gore Solo e Clinton Skywalker, por exemplo. Há também campeonatos gigantes de quiz, festivais só com música para videogames e variações do "flash mob" em que, por exemplo, pessoas entram em lojas de departamento vestindo roupas que imitam o uniforme dos funcionários só para confundir os compradores.
O que mais me chamou a atenção, entretanto, foi a série de encontros chamada Cringe Reading, que reúne gente que resolve ler, publicamente e para um monte de desconhecidos, seus diários de infância ou adolescência até então guardados no fundo da gaveta. Quem precisa de terapia depois de uma tarde assim?
PETER PAN CONTRA HARRY POTTER?
Numa época em que toda trama de sucesso, seja a de um livro ou a de um filme, precisa render o máximo de seu potencial desdobrando-se em subprodutos e seqüências, nem os clássicos estão em paz. Em outubro, chega às livrarias britânicas a "continuação autorizada" de "Peter Pan", de J.M. Barrie (1860-1937).
"Peter Pan in Scarlet" é o resultado de um concurso, promovido em 2004 pelo Great Ormond Street Hospital for Children, que detém os direitos de publicação da obra do autor. A idéia era lançar uma seqüência da história que fosse o mais fiel possível ao modo de escrever de Barrie. A vencedora foi Geraldine McCaughrean, 55, autora de mais de uma centena de livros e de adaptações de clássicos infanto-juvenis. A história, desta vez, vai se passar em 1926, os garotos perdidos estão grandes, Wendy casou-se e teve filhos e Nana, a cadela-babá das crianças, já morreu. Peter, que evidentemente não cresceu, ainda vive na Terra do Nunca, que será um lugar diferente e ainda mais sombrio.
O hospital explica que, como os direitos autorais cedidos por Barrie à instituição terminam em 2007, sentiu-se na obrigação de lançar uma continuação oficial antes que a obra se torne pública e centenas de seqüências comecem a pipocar. Só não disse que essa será uma oportunidade de ouro de colar a história do herói que nunca envelhece e seu mundo mágico na carona do sucesso da série "Harry Potter". Será que convence?
UM RIO QUE PASSOU
Aos leitores que mandaram e-mails me desejando boa sorte na travessia do rio Hudson, no último sábado, um sincero agradecimento. Só para "dar um retorno", foi tudo bem. Apesar da água fria, vento e nível muito bom dos competidores, deu pra não fazer feio e chegar até o fim numa boa colocação. Agora é pensar nos próximos desafios.
Ainda bem que Woody Allen existe
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Que bom que Woody Allen ainda está entre nós. Ele é desses poucos diretores cuja regularidade de produção nos traz algum conforto. Digo, se tudo o mais der errado em sua vida, pelo menos pode ter certeza de que um novo filme do cara vai surgir em algum momento num cinema próximo a você e, certamente, vai te fazer rir um pouco.Acabei de ver "Scoop", o 36º filme do cineasta, que estreou agora nos EUA, mas só deve chegar ao Brasil em fevereiro. Não é lá dos seus melhores trabalhos, mas mesmo um Woody "menor" vale mais do que a média de todas as estréias hollywoodianas. Em qualquer temporada.
"Scoop" vem na carona do excelente "Match Point" (que há pouco saiu em DVD no Brasil) e guarda, com relação a este, algumas semelhanças. Primeiro porque se passa em Londres, cidade que Woody adotou (e que já está usando como locação para seu próximo filme). Depois, porque, de novo, o diretor aponta os canhões para a aristocracia britânica e expõe um provável criminoso que conta com a posição social para tentar sair impune.
Se, por um lado, a idéia é mesmo requentada, "Scoop" tem uma vantagem com relação a "Match Point": o próprio Woody em cena, na pele do mágico Splandini. E eu sou daquelas que preferem os filmes de Woody com o próprio Woody no elenco.
| Reuters |
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| Hugh Jackman e Scarlett Johansson em cena de "Scoop", 36º filme do diretor Woody Allen |
O tal "furo" é a revelação de que um famoso serial killer que anda assombrando a cidade seria nada menos que um jovem milionário, encarnado pelo X-Man Hugh Jackman. A partir de então, a moça e o mágico, ela cheia de vontade, ele, de medos e paranóias, tentam se aproximar do fulano para desvendar o crime. Acontece que, no meio do caminho, ela se apaixona pelo suposto criminoso e a investigação, que já não ia bem por conta da atrapalhada participação do ilusionista, desanda de vez. O final, previsível, já se anuncia antes da metade do filme e a temática das piadas é a mesma de sempre: a culpa, as relações amorosas fracassadas etc.
Mas não importa, Woody Allen é piada velha que nunca perde a graça.
O MUNDO É DOS NERDS
A capa da "Time Out" nova-iorquina (cidade de onde escrevo) desta semana mapeia um fenômeno curioso, engraçado e ao mesmo tempo meio preocupante sobre os nossos tempos. Trata-se do assim apelidado movimento avant-nerdista, formado por grupos organizados por meio da internet que usam Nova York como palco para eventos que simulam realidades "alternativas". Tem desde o pessoal que reencena trechos da história dos EUA, com roupas de época e no meio da rua, até grupos que promovem "lutas Jedi", com roupas inspiradas nas do filme de George Lucas e sabres de luz, incorporando personagens como Darth Bush e Emperor Cheney contra Al Gore Solo e Clinton Skywalker, por exemplo. Há também campeonatos gigantes de quiz, festivais só com música para videogames e variações do "flash mob" em que, por exemplo, pessoas entram em lojas de departamento vestindo roupas que imitam o uniforme dos funcionários só para confundir os compradores.
O que mais me chamou a atenção, entretanto, foi a série de encontros chamada Cringe Reading, que reúne gente que resolve ler, publicamente e para um monte de desconhecidos, seus diários de infância ou adolescência até então guardados no fundo da gaveta. Quem precisa de terapia depois de uma tarde assim?
PETER PAN CONTRA HARRY POTTER?
Numa época em que toda trama de sucesso, seja a de um livro ou a de um filme, precisa render o máximo de seu potencial desdobrando-se em subprodutos e seqüências, nem os clássicos estão em paz. Em outubro, chega às livrarias britânicas a "continuação autorizada" de "Peter Pan", de J.M. Barrie (1860-1937).
"Peter Pan in Scarlet" é o resultado de um concurso, promovido em 2004 pelo Great Ormond Street Hospital for Children, que detém os direitos de publicação da obra do autor. A idéia era lançar uma seqüência da história que fosse o mais fiel possível ao modo de escrever de Barrie. A vencedora foi Geraldine McCaughrean, 55, autora de mais de uma centena de livros e de adaptações de clássicos infanto-juvenis. A história, desta vez, vai se passar em 1926, os garotos perdidos estão grandes, Wendy casou-se e teve filhos e Nana, a cadela-babá das crianças, já morreu. Peter, que evidentemente não cresceu, ainda vive na Terra do Nunca, que será um lugar diferente e ainda mais sombrio.
O hospital explica que, como os direitos autorais cedidos por Barrie à instituição terminam em 2007, sentiu-se na obrigação de lançar uma continuação oficial antes que a obra se torne pública e centenas de seqüências comecem a pipocar. Só não disse que essa será uma oportunidade de ouro de colar a história do herói que nunca envelhece e seu mundo mágico na carona do sucesso da série "Harry Potter". Será que convence?
UM RIO QUE PASSOU
Aos leitores que mandaram e-mails me desejando boa sorte na travessia do rio Hudson, no último sábado, um sincero agradecimento. Só para "dar um retorno", foi tudo bem. Apesar da água fria, vento e nível muito bom dos competidores, deu pra não fazer feio e chegar até o fim numa boa colocação. Agora é pensar nos próximos desafios.
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Sylvia Colombo, 35, é repórter da Ilustrada, onde escreve sobre livros, cinema e música. Formada em história pela USP e jornalismo pela PUC-SP, foi editora de Especiais, Folhateen e Folhinha, e correspondente em Londres. Escreve às sextas. E-mail: scolombo@folhasp.com.br |

