Pensata

Sylvia Colombo

13/07/2006

Pelo fim do Radiohead

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Tudo bem, não serei tão radical. Acho que basta dizer apenas: "Fique sozinho, Thom!".

Tá achando que eu não vibrei quando "Creep", a balada mezzo grunge do álbum de estréia do Radiohead ("Pablo Honey", 1993), estourou quase como se fosse mais um "hit" do contemporâneo Nirvana?

Parece que eu não achei que "OK, Computer" (1997) era um seríssimo candidato a disco do milênio?

Mentira. Desde que a banda formada em Oxford, em 1988, surgiu no cenário pop, não tinha como a gente não se curvar às melodias eletrônicas tortuosas, cheias de ruídos, e à voz lânguida daquele rapaz de olho semi-fechado (até os seis anos de idade, Thom Yorke não conseguia abrir seu olho esquerdo; e, se hoje ele enxerga algo com ele, foi devido a uma sequência dolorosa de operações na adolescência). Lembro, por exemplo, que "Let Down", a faixa 5 daquele álbum, era a música de acordar e levantar. E mais, de me fazer voltar repetidas vezes para aquele meio da faixa (se você acompanhar pelo iTunes/iPod é lá pelo momento 3:28) em que o clima ia ficando mais intenso e Thom por fim se esgoelava: "You know, you know where you are with/ You know where you are with/ Floor collapsing/ Floating, bouncing back/ And one day.... /I am going to grow wings/ A chemical reaction/ Hysterical and useless/ Hysterical and..."

16.jun.2006-Miguel Vidal/Reuters
Thom Yorke: melhor quando não é acompanhado pelo Radiohead
Thom Yorke: melhor quando não é acompanhado pelo Radiohead
Bom, mas tudo isso é passado. Depois de "OK Computer, pouca coisa realmente interessante surgiu do laboratório dessa banda indie britânica que poderia ter mudado o curso do rock. Poderia, porque era diferente de todo o bom-mocismo do britpop, porque ia buscar em referências já superadas, tipo o rock progressivo, a exuberância necessária para encarar um mundo pop regido pela tecnologia.

Só que foi aí que os caras pisaram na bola. Excesso de experimentalismo e muita vontade de parecer diferente e esquisito estragaram "Kid A" (2000) e "Amnesiac" (2001), os dois álbuns que vieram seguidinhos e que fizeram com que muita gente fingisse continuar gostando da banda por pura fidelidade a "OK, Computer". "Hail to the Thief" (2003) até que recuperou alguma dignidade _e ex-fãs_ dos sujeitos. Também, era um disco anti-Bush. O mais legal é que resgatava um pouco do rock sincero que havia no excelente segundo disco deles, "The Bends" (1995).

Mas, voltando ao ponto, porque estou aqui defendendo que Thom vire um bardo solitário? Por que acabei de ouvir as nove faixas de "The Eraser", seu projeto-solo, um disco de canções de fundo eletrônico, mas, antes de tudo, como na própria descrição de Thom, um disco de canções, em que o músico parece não se interessar muito pelo que vai por trás e pode experimentar mais livremente com a própria voz.

O curioso é que não é de hoje que ele dá mostras de estar melhor quando não é acompanhado pela trupe do Radiohead. Procure ouvir "El Presidente", em que Thom empresta a voz à banda Drugstore, ou, melhor ainda, à punk-lamuriosa "The Mess We´re In", que divide com PJ Harvey. São só alguns exemplos de que, sozinho ou com companhias selecionadas, Thom vai muito melhor. Num mundo pop em que cantores como Chris Martin ou Damien Rice dominam o cenário com seu excesso de doçura vocal, a meloncolia pós-punk do jeito de Thom cantar faz falta. Muita.

Mas sei que estou arrumando intriga `a toa. Nem Thom quer ficar sozinho, nem a banda quer que ele saia, tanto que estao todos juntos, preparando o próximo disco do Radiohead, previsto para sair no ano que vem. Vamos esperar para ver. E você, o que prefere?




TANGOS E TANGUINHOS

Não faz muito tempo, publiquei na "Ilustrada" uma reportagem sobre o Gotan Project, grupo de tango eletrônico anglo-argentino metido a experimentações com o gênero. No mesmo dia, ia se apresentar em São Paulo um músico de tango veterano, também argentino, que havia tocado no passado com o mestre Astor Piazzolla (1921-1992). Resolvi incluir na matéria, dizendo que, para aqueles que preferissem uma opção mais tradicional, assistir ao concerto desse ex-parceiro de Piazzolla poderia ser mais negócio do que buscar conhecer o Gotan (cujo primeiro álbum, "A Revancha do Tango" saiu aqui; mas o mais recente, "Lunático", ainda não).

Pois não é que, no dia seguinte, chego na Redação e recebo um telefonema de um senhor muito entendido de tango, um tanto chateado. Me dizia que não tinha gostado nem um pouco do fato de eu ter sugerido que Piazzolla fosse algo "tradicional" diante de artistas contemporâneos de tango-eletrônico, como o Gotan Project. Que Piazzolla, sim, tinha sido o grande transgressor e inovador do tango e que Gotan e sua turma não passavam de uma moda.

Divulgação
Gotan Project: refinado e cheio de pose, mas o melhor do tango eletrônico
Gotan Project: refinado e cheio de pose,
mas o melhor do tango eletrônico
Eu disse a ele que não discordava quanto a quem era mais "revolucionário" do que o outro. Até porque Piazzola elevou o tango a uma categoria musical superior a que ocupava antes, nos tempos do tango-canção, etc. E até porque, inclusive, Piazzolla viveu uma época em que mais "revoluções" eram possíveis nas artes em geral do que a nossa. O único que fiz, timidamente, foi sugerir que ele não fosse tão resistente a conhecer o tango eletrônico, que era interessante e tal... mas, pelo visto, ele não se convenceu. De qualquer modo, achei legal ter levado esse "puxão de orelhas" e conversado com alguem que tem bom gosto musical.

E voce, já ouviu tango eletrônico? Hoje são muitos grupos, e vieram na carona de uma espécie de tríade de exportadores dessa tal "modinha" para o mundo. Um é o próprio Gotan, refinado e cheio de pose, mas de longe o melhor dos três. Não passe batido pelas faixas "Queremos Paz" e "Arrabal". Outro é o alegre 'coletivo' uruguaio-argentino Bajofondo Tango Club, comandado por Gustavo Santaolalla (produtor de nove entre dez artistas latinos de sucesso). Deles, não perca "Miles de Pasageros" e "Centrojá". O mais comercial e, talvez por isso, o mais herético, é o Tanghetto. Os caras têm um álbum (ainda não lançado aqui) que se chama "Buenos Aires Remixed". Dá pra sentir de cara que é coisa pra estrangeiro ouvir, achar exótico e sair dançando. Mas é difícil deixar de achar que a versão tango que eles fizeram para "Enjoy the Silence", do Depeche Mode, não é melhor do que a original. Ouve lá e me diz.
Sylvia Colombo, 35, é repórter da Ilustrada, onde escreve sobre livros, cinema e música. Formada em história pela USP e jornalismo pela PUC-SP, foi editora de Especiais, Folhateen e Folhinha, e correspondente em Londres. Escreve às sextas.

E-mail: scolombo@folhasp.com.br

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