Sylvia Colombo
21/07/2006
Hoje fiz como meu querido amigo Lúcio Ribeiro e comecei a coluna com uma citação. Mas não será apenas para homenageá-lo. E sim porque o assunto é "Revolver", um dos mais poéticos álbuns dos Beatles --daí a vontade de escolher um versinho-- e que completa, agora em agosto, 40 anos.
E, se a sua cabeça dói quando você acorda, se aquele incômodo está sempre ali quando o seu dia começa, é porque, de alguma maneira, você sente o que sentiram Lennon e McCartney quando compuseram "For No One", faixa 10 desse disco histórico (e a minha preferida), de onde vêm as palavras acima.
Para muitos, "Revolver" é o melhor que o quarteto de Liverpool jamais produziu. Há quem concorde e quem discorde, é claro. Mas o fato é que muito do que viria surgir com mais intensidade no mitológico "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" (1967) já se podia ouvir em "Revolver". Estão ali a atmosfera psicodélica, indiana e surreal, as repetições e as melodias monocórdicas. No documentário "The Beatles Anthology", George Harrison diz que "Revolver" e "Rubber Soul", o álbum anterior, de 1965, são duas partes de um mesmo trabalho. Modéstia dele, pois "Revolver" parece dar um passo, ou melhor, um belo salto, à frente em relação ao que a banda vinha fazendo. Paul McCartney e Ringo Starr, no mesmo "Anthology", explicam que, naqueles anos pós-conquista dos EUA, os Beatles ficaram mesmo mais maduros, com curiosidades musicais diferentes e vontade de trazer outras influências para a banda. Do ponto de vista das letras, Paul conta como elas foram gradativamente passando da relação mais direta com as garotas, "From Me to You", "Love Me Do", "P.S. I Love You", por exemplo, para temas mais existenciais, políticos e, inevitavelmente, marcados pela influência das drogas que, aos poucos, foram entrando no cotidiano da banda.
Vamos dar uma passada por algumas faixas? Qual é a sua preferida? As minhas são:
"Taxman"
George escreve e interpreta essa historinha sobre a desilusão de descobrir que, quando você começa a trabalhar, alguém logo vai aparecer e tascar uma boa parte
"If you take a walk/ I'll tax your feet..."
"Eleanor Rigby"
Todas as pessoas solitárias, de onde elas vêm, de que lugar pertencem? Ninguém ainda descobriu, assim como é um mistério saber como os Beatles conseguiram resumir a tristeza da solidão por meio de detalhes tão delicados
"Father McKenzie/ writing the words of a sermon that no one will hear/ no one comes near..."
"I'm Only Sleeping"
Aqui, John parece aborrecido com os que querem tirá-lo do meio de uma viagem, ou de uma ressaca dela, e canta com sabedoria que, enquanto todos acham que ele está com preguiça, na verdade só ele sabe que aqueles que estão correndo vão logo perceber que toda essa pressa não é nem um pouco necessária.
"Please don't spoil my day, I'm miles away..."
"Here There and Everywhere"
Paul, o romântico incorrígivel, aqui canta com um coralzinho atrás. Essa é feita na medida para aquelas moças que gritavam histéricas pela banda --e que, até hoje, naquelas imagens já gastas de arquivo, nos surpreendem, quando não nos aterrorizam...
"Nobody can deny that there is something there..."
"Yellow Submarine"
Bom, aqui começou a piração (e que bom!). Um cartoon colorido, com Ringo cantando meio desleixado, mostrando que a viagem ia agora tomar um rumo diferente (para a sorte de todos nós), à bordo desse submarino amarelo que, aparentemente, ainda passeia por aí
"and we lived beneath the waves..."
"For No One"
Nunca uma melodia combinou tanto com uma letra, ou não? E talvez nunca toda a tristeza sobre o fim de uma parceria coube inteira numa só canção
"No sign of love behind the tears cried for no one..."
SOY LOCO POR TI
"Quem derrubou meu filme foi o Harry Potter, e o seu?", perguntou o brasileiro Marcelo Gomes, diretor de "Cinema, Aspirinas e Urubus" ao veterano cineasta uruguaio Mario Handler, que respondeu, "bom, o meu foi destruído pelo Nemo" (risos...).
Foi assim, com um misto de bom humor e autoflagelação que um grupo de cineastas latino-americanos conversou comigo e com minha amiga e colega Silvana Arantes por quase duas horas, num hotel em São Paulo, onde estiveram para participar da primeira edição do Festival de Cinema Latino-Americano.
A tomar como exemplo os presentes, o cubano Juan Carlos Cremata, o mexicano Ivan Trujillo, o argentino Hector Molina, o chileno Miguel Littin e os já mencionados Gomes e Handler, o cinema latino-americano é provinciano, divertido, um pouco chorão e bastante nostálgico. Ainda repercutia entre eles, causando consternação, o suicídio de Juan Pablo Rebella, um dos jovens diretores do filme "Whisky", aos 32 anos, no começo de julho. "Whisky" (2004), que alcançou ótima repercussão internacional, se passa em Montevidéu e conta a historia de um homem solitário que forja um casamento com uma funcionária de sua fábrica (que produz meias...) só para causar uma impressão de bem-sucedido ao irmão que chega do Brasil para uma visita. "Temos algo de diferente, nós, uruguaios. Para nós, aquilo é uma comédia sobre como somos e vivemos, mas os estrangeiros assistem e sempre me dizem "que deprimente!", disse Handler.
Você já viu "Whisky"? E "Elsa e Fred", comédia argentina que está em cartaz em São Paulo? Também saiu recentemente em DVD um clássico, "Memórias do Subdesenvolvimento", do cubano Tomás Gutiérrez Alea. Ficam como dicas recentes de cinema latino-americano.
HORA DE BATER PALMAS
Finalmente saiu por aqui um dos melhores álbuns dos últimos meses, o primeiro do Clap Your Hands Say Yeah, banda norte-americana que estourou por conta de um boca a boca virtual. Só para ficar no contexto desta coluna, veja como o universo surrealista e circense dos Beatles continua reverberando no som que muitas bandas fazem nos dias de hoje. Já escrevi sobre o Clap no Folhateen, então não vou ficar me repetindo, mas quem curte Flaming Lips e Arcade Fire com certeza vai gostar. As melhores faixas? Vá por mim: "Sunshine and Clouds (and Everything Proud)", "The Skin of My Yellow Country Teeth" e "In This Home on Ice".
"Revolver", 40
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"Your day breaks/ your mind aches"Hoje fiz como meu querido amigo Lúcio Ribeiro e comecei a coluna com uma citação. Mas não será apenas para homenageá-lo. E sim porque o assunto é "Revolver", um dos mais poéticos álbuns dos Beatles --daí a vontade de escolher um versinho-- e que completa, agora em agosto, 40 anos.
E, se a sua cabeça dói quando você acorda, se aquele incômodo está sempre ali quando o seu dia começa, é porque, de alguma maneira, você sente o que sentiram Lennon e McCartney quando compuseram "For No One", faixa 10 desse disco histórico (e a minha preferida), de onde vêm as palavras acima.
| Reprodução |
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| Capa do disco "Revolver", dos Beatles, considerado um dos melhores do quarteto |
Vamos dar uma passada por algumas faixas? Qual é a sua preferida? As minhas são:
"Taxman"
George escreve e interpreta essa historinha sobre a desilusão de descobrir que, quando você começa a trabalhar, alguém logo vai aparecer e tascar uma boa parte
"If you take a walk/ I'll tax your feet..."
"Eleanor Rigby"
Todas as pessoas solitárias, de onde elas vêm, de que lugar pertencem? Ninguém ainda descobriu, assim como é um mistério saber como os Beatles conseguiram resumir a tristeza da solidão por meio de detalhes tão delicados
"Father McKenzie/ writing the words of a sermon that no one will hear/ no one comes near..."
"I'm Only Sleeping"
Aqui, John parece aborrecido com os que querem tirá-lo do meio de uma viagem, ou de uma ressaca dela, e canta com sabedoria que, enquanto todos acham que ele está com preguiça, na verdade só ele sabe que aqueles que estão correndo vão logo perceber que toda essa pressa não é nem um pouco necessária.
"Please don't spoil my day, I'm miles away..."
"Here There and Everywhere"
Paul, o romântico incorrígivel, aqui canta com um coralzinho atrás. Essa é feita na medida para aquelas moças que gritavam histéricas pela banda --e que, até hoje, naquelas imagens já gastas de arquivo, nos surpreendem, quando não nos aterrorizam...
"Nobody can deny that there is something there..."
"Yellow Submarine"
Bom, aqui começou a piração (e que bom!). Um cartoon colorido, com Ringo cantando meio desleixado, mostrando que a viagem ia agora tomar um rumo diferente (para a sorte de todos nós), à bordo desse submarino amarelo que, aparentemente, ainda passeia por aí
"and we lived beneath the waves..."
"For No One"
Nunca uma melodia combinou tanto com uma letra, ou não? E talvez nunca toda a tristeza sobre o fim de uma parceria coube inteira numa só canção
"No sign of love behind the tears cried for no one..."
SOY LOCO POR TI
"Quem derrubou meu filme foi o Harry Potter, e o seu?", perguntou o brasileiro Marcelo Gomes, diretor de "Cinema, Aspirinas e Urubus" ao veterano cineasta uruguaio Mario Handler, que respondeu, "bom, o meu foi destruído pelo Nemo" (risos...).
Foi assim, com um misto de bom humor e autoflagelação que um grupo de cineastas latino-americanos conversou comigo e com minha amiga e colega Silvana Arantes por quase duas horas, num hotel em São Paulo, onde estiveram para participar da primeira edição do Festival de Cinema Latino-Americano.
A tomar como exemplo os presentes, o cubano Juan Carlos Cremata, o mexicano Ivan Trujillo, o argentino Hector Molina, o chileno Miguel Littin e os já mencionados Gomes e Handler, o cinema latino-americano é provinciano, divertido, um pouco chorão e bastante nostálgico. Ainda repercutia entre eles, causando consternação, o suicídio de Juan Pablo Rebella, um dos jovens diretores do filme "Whisky", aos 32 anos, no começo de julho. "Whisky" (2004), que alcançou ótima repercussão internacional, se passa em Montevidéu e conta a historia de um homem solitário que forja um casamento com uma funcionária de sua fábrica (que produz meias...) só para causar uma impressão de bem-sucedido ao irmão que chega do Brasil para uma visita. "Temos algo de diferente, nós, uruguaios. Para nós, aquilo é uma comédia sobre como somos e vivemos, mas os estrangeiros assistem e sempre me dizem "que deprimente!", disse Handler.
Você já viu "Whisky"? E "Elsa e Fred", comédia argentina que está em cartaz em São Paulo? Também saiu recentemente em DVD um clássico, "Memórias do Subdesenvolvimento", do cubano Tomás Gutiérrez Alea. Ficam como dicas recentes de cinema latino-americano.
HORA DE BATER PALMAS
Finalmente saiu por aqui um dos melhores álbuns dos últimos meses, o primeiro do Clap Your Hands Say Yeah, banda norte-americana que estourou por conta de um boca a boca virtual. Só para ficar no contexto desta coluna, veja como o universo surrealista e circense dos Beatles continua reverberando no som que muitas bandas fazem nos dias de hoje. Já escrevi sobre o Clap no Folhateen, então não vou ficar me repetindo, mas quem curte Flaming Lips e Arcade Fire com certeza vai gostar. As melhores faixas? Vá por mim: "Sunshine and Clouds (and Everything Proud)", "The Skin of My Yellow Country Teeth" e "In This Home on Ice".
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Sylvia Colombo, 35, é repórter da Ilustrada, onde escreve sobre livros, cinema e música. Formada em história pela USP e jornalismo pela PUC-SP, foi editora de Especiais, Folhateen e Folhinha, e correspondente em Londres. Escreve às sextas. E-mail: scolombo@folhasp.com.br |

