Valdo Cruz
Da crise à limonada
Luiz Inácio Lula da Silva quer fazer do limão, uma limonada. Ele quer ficar com a limonada e deixar o limão para o PMDB, mais especificamente o da Câmara. Explico. Antes da Operação Navalha, os deputados peemedebistas indicaram para Furnas Centrais Elétricas o ex-prefeito do Rio Luiz Paulo Conde, um político para um cargo técnico numa das principais estatais do setor elétrico do país.
Ao tomarem conhecimento da resistência ao nome de Conde, especialmente por parte da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), a cúpula do partido na Câmara não pensou duas vezes. Foi até o Palácio do Planalto e disse diretamente ao presidente Lula que não aceitaria outro nome no comando de Furnas senão o do ex-prefeito carioca.
Os peemedebistas saíram do gabinete presidencial confiantes de que haviam emplacado Conde na cobiçada Furnas, estatal que num passado recente foi alvo de denúncias por suposta utilização de seus contratos para angariar contribuições polpudas para campanhas eleitorais. Sem falar em outros negócios não muito republicanos. No Palácio do Planalto, contudo, nada era dado como tão certo assim.
Aí, veio a Operação Navalha, decepou a cabeça do ministro Silas Rondeau (Minas e Energia), criando a oportunidade de o presidente Lula utilizar a crise para fazer o que sempre desejou: nomear para o posto um técnico. Pode e deve ser alguém indicado pelos peemedebistas, mas um técnico.
O argumento a ser brandido será o de que Silas Rondeau, uma indicação dos peemedebistas do Senado, caiu e seus padrinhos políticos decidiram indicar para substituí-lo um técnico, muito provavelmente Márcio Zimmermann, atual secretário de Desenvolvimento e Planejamento do ministério. Se para ministro vai um homem da área, porque numa estatal subordinada a ele vai um político?
É por isso que Lula até hoje não oficializou o nome do substituto de Silas Rondeau no Ministério de Minas e Energia. Deseja oficializá-lo amarrando as nomeações dos novos nomes do setor elétrico. Sua preocupação com a área deve-se ao fato de, pelo menos em algo, não desejar de forma alguma seguir o exemplo do governo FHC. Se praticamente copiou a política econômica do tucano e remodelou o seu programa social, Lula não quer nem ouvir falar num repeteco do apagão energético, exatamente no final de seu governo. Daí que a crise, para ele, pode gerar uma boa oportunidade.
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*Assinar para tirar...*
Proveito do governo. Afinal, o filme se repete. Muitos governistas assinaram o requerimento de criação da CPI da Navalha para retirar sua assinatura depois. Precisamente quando o governo solicitar. Acabam saindo credores do Palácio do Planalto. Quando não levam algo já na saída, ou melhor, logo depois de retirar sua firma do requerimento.
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Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |
