Valdo Cruz
Razão e coração
Lembro de ter ouvido, certa vez, que ministro da Fazenda não pode ter coração. Relembro a frase, dita por um ministro da área econômica para justificar na ocasião um baixo aumento do salário mínimo, para falar sobre a proposta do Ministério da Fazenda de leiloar a folha de pagamento dos benefícios da Previdência Social. Tecnicamente, a idéia é válida e justa. Em vez de pagar pelo serviço, como ocorre hoje, a Previdência Social deveria receber dos bancos pelo pagamento dos benefícios. Afinal, é um ativo que as instituições financeiras podem manejar, dá lucro e deveria render dividendos para os cofres públicos.
Só que não é possível enxergar na folha do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) apenas uma fonte extra de renda. Essa é, por exemplo, a posição do ministro da Previdência Social, Luiz Marinho. Ele prefere não dar somente uma caráter financista ao negócio. Enquanto ministro responsável pela área, cuidando do atendimento de 24 milhões de beneficiários, ele deseja que o tema seja tratado não só com a razão, mas também com o coração. Marinho diz que o governo federal não pode lidar com a folha do INSS da mesma forma que as folhas de pagamentos de servidores estaduais, que vários governadores estão vendendo para instituições financeiras. O público da Previdência é diferente, são muitos velhinhos, acostumados a irem na mesma instituição financeira receber seu benefício. Alterar de uma hora para outra essa rotina seria uma falta de respeito.
Daí que o ministro prefere tentar conciliar as duas coisas. Obter vantagens financeiras com a folha do INSS e, ao mesmo tempo, melhorar os serviços para os aposentados. Ele chega a dizer que seria possível não cobrar nada, e também não pagar nada, pelo serviço realizado hoje por 25 bancos. Em troca, as instituições financeiras ofereceriam mais serviços para os beneficiários da Previdência. Exemplo: entregar aos aposentados um contracheque referente ao benefício de cada mês. Hoje, eles precisam ir a agências do INSS para obter o documento. A dúvida é saber se os bancos topam. Aí Luiz Marinho diz: "Queremos um acordo, mas se não for possível temos o caminho do leilão, mas com regras para evitar um tumulto na vida dos aposentados".
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Grana
Só para se ter uma idéia, o governo pode gastar neste ano R$ 240 milhões para que os bancos façam os pagamentos mensais aos 24 milhões de beneficiários no regime geral da Previdência. O Tesouro Nacional, desde os tempos em que Joaquim Levy comandava a área, não vê sentido em pagar pelo serviço que dá lucro aos bancos. Já se falou que o leilão poderia render aos cofres públicos cerca de R$ 3 bilhões. Mas aí os bancos fariam do jeito que fosse mais lucrativo, podendo infernizar a vida de alguns velhinhos. Para um governo petista que já mandou milhões de aposentados para as filas e colheu uma enxurrada de críticas, tomar esse caminho seria um tremendo erro político. Sem falar que seria realmente um desrespeito. Por enquanto, porém, a discussão do tema está "congelada".
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A grande interrogação do momento em Brasília é se o senador Renan Calheiros vai suportar o tiroteio de cada dia. Muita gente acha que ele terá o mesmo destino de outros dois ex-presidentes do Senado, Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho, que renunciaram para fugir do fogo cruzado. Amigos dizem que Renan pretende sobreviver e não tomar o mesmo rumo de seus dois aliados. O senador peemedebista pode até sobreviver no Conselho de Ética, que pode mandar arquivar o processo contra ele. Mas a artilharia deve prosseguir. Aí, fatos novos podem ir surgindo e criar um clima insustentável para o senador. É o que muitos apostam. A conferir.
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Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |
