Valdo Cruz
Fraternidade tucana
Um pedido de unidade, em nome de um objetivo comum: a reconquista do Palácio do Planalto, depois de oito anos de domínio lulista. Foi assim que Fernando Henrique Cardoso encerrou seu discurso no seminário tucano, realizado em Belo Horizonte, para debater "Um novo modelo de gestão para mudar o Brasil". O alvo, ou melhor, os alvos do ex-presidente estavam bem ali, a seu lado: os governadores Aécio Neves (MG) e José Serra (SP), postulantes a candidato tucano à Presidência da República em 2010.
Numa fala que arrancou aplausos da tucanada reunida em um hotel da capital mineira, com presença de toda cúpula do partido, FHC fez um apelo pela união tucana nos seguintes termos: "A condição necessária para que caminhemos para vitória agora, em 2008, e mais adiante, em 2010, é continuar acreditando naquilo que nós somos e sobretudo entender que precisamos estar juntos".
Não parou aí. Ainda na condição de político que mais chama a atenção da tucanada, FHC prosseguiu: "A condição da vitória é a unidade, e ela se constrói na fraternidade. O PSDB tem de ser um partido que tem de ter alegria, não pode ser maçante, não pode ser um partido de um que fustigue o outro".
Foi longamente aplaudido, principalmente depois de dizer que essa unidade não significa que os tucanos não possam ter suas divergências, mas dentro de um "espírito de fraternidade". O ex-presidente não resistiu e finalizou com uma estocada no presidente Lula, ao afirmar que às vezes é melhor ter divergências dentro do partido do que "idolatrar um líder, depender de um homem só, não dependemos de ninguém".
Na saída, ao ser questionado se havia mandado um recado a Aécio e Serra, FHC desconversou a seu estilo. Sorrindo, disse que a mensagem era destinada para todo o partido. É, pode ser. Mas muita gente na platéia entendeu que o ex-presidente estava simplesmente tentando alertar os tucanos para o que ocorreu nas duas últimas eleições presidenciais, quando o partido passou longe de ser um exemplo de união. Nas duas oportunidades, nem Serra nem Geraldo Alckmin conseguiram unir completamente o PSDB em torno de suas candidaturas. Perderam para Lula.
Palpite: FHC deve ter pregado no deserto. Difícil, pelo menos hoje, acreditar que um dos dois possa abrir mão de sua candidatura.
Palavra proibida
Em seus discursos, FHC, Serra e Aécio fizeram críticas ao governo Lula. O ex-presidente foi o mais ácido. Os três atacaram principalmente o que consideram falha de gestão do presidente petista. Curioso é que eles, em nenhum momento, citaram nominalmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na verdade, talvez ninguém no seminário tenha dito o nome de Lula em seus discursos. Nas conversas paralelas, porém, o presidente petista era muito citado. E visto como um eleitor perigoso em 2010, para os tucanos, é claro, principalmente se a economia continuar crescendo perto da casa dos 5% ao ano.
Provocações
No seminário tucano, Aécio Neves, como anfitrião, estava sentado no centro da mesa. FHC e Serra o ladeavam. O ex-presidente e o governador mineiro não paravam de cochichar, sempre com um sorriso nos lábios. Ao lado de Aécio, o governador de São Paulo mantinha um ar de concentração. Praticamente não conversava. O ex-presidente, que muitos acreditam preferir Serra a Aécio, não resistiu e fez questão de fazer referência à sua conversa animada com o tucano mineiro. "O tempo todo nós [ele e Aécio] nos comunicávamos aqui fraternalmente. Eu nem posso dizer em público o que o Aécio dizia."
Esqueceram de mim
Geraldo Alckmin, que todos sabem não morrer de amores por José Serra, esqueceu do governador paulista ao citar tucanos bons de gestão. Em seu discurso, ao criticar o governo petista em sua administração, Alckmin desandou a fazer elogios ao modelo de gestão de FHC, Mário Covas e Aécio. Nenhuma referência a Serra. Não que tenha sido proposital. Mas esqueceu. Já José Serra, em sua fala, fez questão de citar várias vezes, de forma elogiosa, o colega paulista.
Ainda Serra e Aécio
Presidente do PSDB, Tasso Jereissati fazia as apresentações na abertura dos trabalhos do seminário. Revelou que Aécio Neves iria anunciar a filiação de dez prefeitos ao PSDB mineiro. O governador de Minas não perdeu a oportunidade: "Você vai anunciar [as filiações] ou eu?", indagou em tom de brincadeira. Tasso devolveu: "Se você continuar implicando, eu devolvo a palavra para o Serra". Aécio Neves acabou anunciando a filiação de 40 prefeitos ao PSDB. Transformou parte do seminário num ato de demonstração de força no Estado, coisa de quem está de olho na Presidência.
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Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças. E-mail: valdo@folhasp.com.br |
