Pensata

Carlos Heitor Cony

11/11/2003

O Brasil de Ary Barroso

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O centenário do nascimento de Ary Barroso está sofrendo a mesma distorção que acompanha a celebração de outras datas redondas de nosso panteão nacional. Drummond ficou como o poeta da pedra no caminho, Gilberto Freyre como o homem da casa grande e da senzala, Zé Lins como o menino do engenho. No caso de Ary, ele ficou como o autor da "Aquarela do Brasil".

É realmente uma distorção. Certamente, o seu Brasil brasileiro é a mais conhecida de suas obras. Está entre as cem músicas mais executadas em todo mundo, pois mesmo sua rival mais recente, "Garota de Ipanema", com exceção do mercado norte-americano, perde de longe para a sua aquarela.

Outro equívoco, e este mal intencionado, fruto da inveja e da concorrência, atribui ao samba famoso um vínculo com o Estado Novo de Vargas. Nada mais falso. Ary foi eleito vereador pela UDN, o partido que derrubou a ditadura de Vargas em 45, seis anos após ter feito a sua obra-prima. Como Villa-Lobos, ele só foi condecorado pelo governo com a Ordem do Cruzeiro do Sul por Café Filho, que substituiu Vargas na presidência da República. A foto dos dois maiores compositores brasileiros, abraçados e medalhados, é comovente.

Ary foi o único brasileiro que teve um filme de Hollywood totalmente inspirado em sua obra, façanha só conseguida por Gershwin, Kern, Cole Porter, Richard Rogers, Strauss, Chopin, Beethoven, Mozart e outros poucos. A música que ele fez para o final de "Brazil", (erradamente intitulada pela Republic Pictures de "Rio de Janeiro") com Tito Guizar, Virgínia Bruce e Edward Everett Norton, foi indicada ao Oscar e recebeu inúmeras gravações aqui e no exterior.

Quarenta anos depois, houve um filme inglês também chamado "Brazil", de Terry Gilliam, do grupo Monty Python, com Robert de Niro e Jonathan Pryce, uma ficção científica que teve, do princípio ao fim, a música de Ary em arranjos espetaculares da Sinfônica de Londres.
Carlos Heitor Cony, 80, é membro do Conselho Editorial da Folha. Romancista e cronista, Cony foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2000. Escreve para a Folha Online às terças.

E-mail: cony@uol.com.br

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