Carlos Heitor Cony
26/07/2005
Certa vez, escrevi uma crônica na Folha comentando que, apesar do pau cerrado que a crítica e os entendidos davam no Roberto Carlos e no Paulo Coelho, os discos de um e os livros de outro continuavam nas paradas, deslumbrando fãs e leitores.
Na primeira parte daquela crônica, eu repetia sem aspas a média das opiniões dos críticos e entendidos. Somente no final, constatava que ninguém dava bola para os conselhos dados ao público, que devia desprezar ou crucificar um e outro: os dois não passavam de charlatães, idiotas de pai e mãe.
Recebi centenas de e-mails elogiando a veemência e a oportunidade com que esculhambara Roberto Carlos e Paulo Coelho. Pasmem: entenderam às avessas o texto.
Pior: cometi o mesmo erro, semana passada. Escrevi sobre Maluf. Repeti, literalmente, a média dos comentários que lemos nas colunas, artigos e reportagens dos jornais e revistas. Jornalistas e funcionários da Justiça batem cartórios e bancos da Suíça, de todos os paraísos fiscais, trazem provas oficiais das contas de Maluf.
Navios adernados ao peso de tantos documentos, aviões com excesso de carga, despejam a papelada provando que Maluf tem de ir para a cadeia.
Passada a eleição, deixam Maluf em paz, tratando de sua vida e de seus negócios. Mas se ele avisa que pretende se candidatar, ainda que a síndico de um prédio, toda a parafernália se repete. Navios e aviões chegam abarrotados, trazendo novos documentos que provam sua improbidade.
Quis apenas mostrar como e por que a mídia fabrica ídolos e vilões.
Ídolos e vilões
Venho reparando que nem sempre os leitores entendem o que lêem. Talvez seja erro meu, atrapalhado com aquilo que o Nelson Rodrigues dizia de si mesmo: os achaques das múmias.Certa vez, escrevi uma crônica na Folha comentando que, apesar do pau cerrado que a crítica e os entendidos davam no Roberto Carlos e no Paulo Coelho, os discos de um e os livros de outro continuavam nas paradas, deslumbrando fãs e leitores.
Na primeira parte daquela crônica, eu repetia sem aspas a média das opiniões dos críticos e entendidos. Somente no final, constatava que ninguém dava bola para os conselhos dados ao público, que devia desprezar ou crucificar um e outro: os dois não passavam de charlatães, idiotas de pai e mãe.
Recebi centenas de e-mails elogiando a veemência e a oportunidade com que esculhambara Roberto Carlos e Paulo Coelho. Pasmem: entenderam às avessas o texto.
Pior: cometi o mesmo erro, semana passada. Escrevi sobre Maluf. Repeti, literalmente, a média dos comentários que lemos nas colunas, artigos e reportagens dos jornais e revistas. Jornalistas e funcionários da Justiça batem cartórios e bancos da Suíça, de todos os paraísos fiscais, trazem provas oficiais das contas de Maluf.
Navios adernados ao peso de tantos documentos, aviões com excesso de carga, despejam a papelada provando que Maluf tem de ir para a cadeia.
Passada a eleição, deixam Maluf em paz, tratando de sua vida e de seus negócios. Mas se ele avisa que pretende se candidatar, ainda que a síndico de um prédio, toda a parafernália se repete. Navios e aviões chegam abarrotados, trazendo novos documentos que provam sua improbidade.
Quis apenas mostrar como e por que a mídia fabrica ídolos e vilões.
![]() |
Carlos Heitor Cony, 80, é membro do Conselho Editorial da Folha. Romancista e cronista, Cony foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2000. Escreve para a Folha Online às terças. E-mail: cony@uol.com.br |
