Pensata

Carlos Heitor Cony

04/12/2001

Mulher de Alabastro

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Falar mal dos dramalhões mexicanos é um dos lugares comuns da cultura brasileira. Quando um sujeito deseja derrubar um filme, um livro, uma canção, basta declarar que se trata de um dramalhão mexicano e todos entendem do que se trata.

Não compreendo esse tipo de restrição. O México vai bem, obrigado, apesar dos abrolhos que todos os países atravessam. Quem parece que não vai muito bem é a Gloria Trevi, que está grávida não se sabe de quem, é reclamada pela polícia de lá e, numa embrulhada própria dos dramalhões mexicanos, tem admiradores que a inocentam das graves acusações que lhe são feitas e a consideram vítima de um complô empresarial.

Que a moça fez das suas, fez. Mas todas as histórias que circulam a seu respeito estão mal contadas, inclusive a que ela própria conta.

Mereceria um daqueles boleros de Agustin Lara, Alberto Domingues e outros, exaltando o "nudo de sus brazos", senhora tentação, hipócrita, perversa, pérfida em seu amor, traiçoeira e fugaz, sensitiva mulher de alabastro.

Mais cedo ou mais tarde, teremos uma enxurrada de filmes e telenovelas que a terão como personagem bem ao gosto daquilo que nós julgamos ser a marca registrada da libido mexicana.

Aqui para nós: não é um tipo de mulher para se jogar fora. É possível que seja uma exploradora da sexualidade infantil, uma cafetina de adolescentes, uma isso ou aquilo. Pode ser também que seja vítima de uma armação mercadológica. Semana passada, o motorista que me levou para a Feira do Livro de Guadalajara garantiu que Glória é inocente e que todos a desejam. Perguntou quando a devolveremos, não à polícia mexicana mas a todos os que sonham com ela, traiçoeira e fugaz, mulher de alabastro.
Carlos Heitor Cony, 80, é membro do Conselho Editorial da Folha. Romancista e cronista, Cony foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2000. Escreve para a Folha Online às terças.

E-mail: cony@uol.com.br

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