Pensata

Gustavo Ioschpe

20/02/2001

Generalizar é preciso

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Escreveu-me uma amiga a respeito da coluna da semana passada o mesmo que já havia dito sobre a da semana anterior: que concordava, mas que era preciso cuidar para "não generalizar". A aversão às generalizações é fenômeno comum em épocas politicamene corretas, onde atribuir-se uma característica imutável - especialmente negativa - a um povo ou grupo de pessoas é equivalente a crime de racismo, punível com o ostracismo destinado a todos os violadores desta nova ordem mundial. Pena.

Generalizar é não só desejável, como imprescindível. Nossa mente
desenvolve-se porque temos a capacidade associativa de deduzir regras
genéricas baseadas em experiências particulares, e nossa espécie só
sobrevive por causa dessa mesma capacidade. Assim, se aplicássemos aos
eventos corriqueiros a mesma correção que aplicamos a questões
político-étnico-sociais, provavelmente morreríamos já na tenra infância.
Imagine se que uma criança enfia SBP no olho e sua mãe lhe diz para que não chegue perto desse inseticida de novo, mas que não discrimine contra os outros produtos do mesmo gênero. Na próxima, o guri enfia a porcaria do pesticida goela abaixo.

O exemplo pode parecer risível, e é. Mas o mesmo mecanismo funciona,
incógnito e indetectável, em esferas mais significativas da mente humana.
Nos EUA, terra do supra-sumo do medo da ofensa (e o processo litigioso e a indenização milionária que a acompanham), a ausência de categorização é
patologia que leva à loucura. Não raro, quando as pessoas estão falando
sobre uma pessoa negra e outra branca, elas usam aspectos secundários de sua aparência ("a que tem cabelo liso e a que o tem encaracolado") para evitar o óbvio, que é a cor de sua pele. E quando você diz "o negro ?" ou o "o branco ?" ou "o indiano ?", nota-se no interlocutor um misto de indignação com o bom selvagem e um alívio por ver alguém dizendo o que todo mundo tem vontade, mas não consegue.

O problema é que essa mesma miopia banal se estende a áreas importantes.
Várias faculdades americanas de ponta têm, por exemplo, substituído a
leitura de clássicos (Shakespeare, Dante, Homero) em seus currículos por
obras obscuras de autores latino-americanos, asiáticos ou africanos. A idéia de que em algum momento foi feita uma generalização (de que tudo produzido abaixo do equador era porcaria) que agora precisa ser combatida com outra generalização (de que os cânones ocidentais são obra da imaginação de homens brancos e racistas) é ridícula. O relativismo funciona só em física; esse papo de que gosto é relativo e tudo deve ser respeitado de igual maneira é uma baboseira sem fim. Há mais em uma estrofe shakespereana do que em toda a obra de um Paulo Coelho ou García Márquez da vida.

Não se deve ter medo das generalizações, desde que elas sejam feitas ex
post, ou seja, que sejam fruto de observação empírica e não de preconceito. Pode-se dizer que políticos são vaidosos, egocêntricos e desonestos; que os alemães da época nazista eram anti-semitas; que fanáticos religiosos são intolerantes; que modelos são ignorantes; que lutadores de jiu-jitsu têm agressividade inversamente proporcional à sua inteligência; que gordos são simpáticos e que música clássica é melhor que axé music. Notando-se, claro, as exceções que confirmam a regra e livram os colunistas de vitupérios odiosos.

O homem primitivo sobreviveu porque conseguiu entender que a agressividade do tigre que lhe atacava não era episódica, mas sim que todos os tigres eram carnívoros e queriam lhe matar por uma questão natural, inevitável, de posição na cadeia alimentar. Se o mesmo acontecesse hoje, decerto haveria um professor universitário a preconizar a necessidade do tratamento individualizado aos tigres, auxiliado por um ecologista pedindo especial atenção ao tigre de Bengala, ameaçado de extinção. O conforto de todo generalizador é saber que, não fosse por ele, professor e ecologista não existiriam. E, não fosse por sua militância constante, todos seríamos invariavelmente levados à pobreza intelectual que acomete grande parte dos professores universitários, ecologistas e outros politicamente chatos em geral.

Cantinho do Energúmeno
Um garoto foi ao hospital para tomar uma vacina contra a gripe. Era alérgico ao medicamento, passou mal, entrou em convulsão e foi levado a um hospital público. Em lá chegando, deram-lhe imediatamente oxigênio para respirar. Morreu alguns minutos depois. Depois, notou-se que não se havia dado oxigênio, como se queria, mas sim óxido nitroso, conhecido como gás do riso, que mata em poucos minutos quando ministrado em doses concentradas. A quem já ia lamentando mais essa evidência da bugrice pátria, alegre-se: o fato acima ocorreu foi na Inglaterra.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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