Pensata

Gustavo Ioschpe

18/04/2001

Meninos, eu vi

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Há poucas revoluções na história da humanidade, e menos ainda na história da arte, mas me arrisco a dizer que acabo de presenciar uma. No museu Whitney de Nova York, a exposição Bitstreams me introduziu - com um pouco de atraso, é verdade - ao mundo da arte digital.

Se Giotto revolucionou a arte ao reintroduzir as noções de profundidade e uma dose de expressividade; se da Vinci fez o mesmo ao resolver o problema dos retratos com a invenção do "sfumato"; se Van Eyck teve de inventar uma nova técnica de pintura (a óleo) para conseguir o realismo revolucionário que desejava alcançar; se Manet e seu discípulo Monet trouxeram a pintura para a rua, para o mundo de verdade, de sóis e sombras; se Rodin e Michelangelo tiraram vida da pedra; se Picasso tornou a figura humana multidimensional em um plano unidimensional e se todos os abstracionistas que os seguiram decompuseram as formas até chegar ao minimalismo de uma tela branca, uma constante sempre houve: a matéria. Quer dizer, os grandes artistas melhoraram a forma como vemos a matéria, depois decompuseram-na para expressar o que quisessem, mas sempre recriavam a matéria e se viam presos a ela. A arte digital, não. A arte digital cria a matéria.

Através de computadores e outros instrumentos tecnológicos, a matéria é criada. Como ? Jim Campbell cria figuras humanas através de um painel de luzes vermelhas, em que se vislumbra um homem correndo quando algumas luzes se apagam. John Klima, com seus pássaros representando moedas internacionais, cria a melhor explicação do mercado mundial de moedas que eu já vi - e tudo atualizado em tempo real, via Internet. As caveiras distorcidas de Robert Lazzarini colocam na sua frente um crânio em 3-D que, na verdade, é quase achatado. Os vídeos de animação de P. Mutt, com seus buracos e portas que vêm e vão, conseguem criar e apagar cenários com a leveza de um pincel e a rapidez de um filme. E Paul Pfeiffer, talvez o melhor de todos, mexe em vídeos reais de forma a, por exemplo, congela a bola de um jogo de basquete e fazer você ter a certeza de ver aquilo que, enfim, existe, mas não daquela maneira, não naquele contexto.

Não sei se o meu otimismo é demasiado, mas essa ruptura pode recolocar a arte no patamar que lhe foi usurpado no último século e meio. Walter Benjamin, no indispensável ensaio A Obra de Arte na Época da Reprodução Mecânica, mostra como a criação de métodos automatizados de reprodução de arte - o poster do quadro de Van Gogh, o disco da orquestra tocando Beethoven, a foto da escultura de Giacometti - distanciou o público do meio original da obra de arte e a tornou banal, comum (você pode ver Van Gogh e ímãs de geladeira, pode ouvir a Nona Sinfonia na campainha de um celular, etc.). A arte digital, já feita e difundida por meios cibernéticos, será conhecida pelo público da mesma forma que ela foi concebida pelo artista, e manterá todo seu poder. Se a internet virar o meio de comunicação de massa que promete ser, é a possibilidade da arte ser distribuída para a população geral como nunca antes se viu na história. Se isso causará a mudança do mundo através da arte "engajada" ou apenas uma leve melhoria na sensibilização do ser humano, ou se não causará nada, ninguém sabe, mas as possibilidades são estimulantes que chega para que, se você puder ir a Nova York, deixe as compras de lado por uma tarde e vá conferir a exposição.


Adiós, Mogadon

Reza a lenda que Churchill, depois de mais um comentário ácido, ouviu de uma senhora inglesa: "Mr. Churchill, se o senhor fosse meu marido, eu colocaria veneno no seu chá." Ao que este, impassível, respondeu: "Minha senhora, se eu fosse seu marido, eu o tomaria."

Minhas saudações e votos de felicidade à prefeita Marta Suplicy.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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