Gustavo Ioschpe
25/04/2001
A violação do painel eletrônico do Senado é atentado direto contra o espírito da democracia. O respeito ao voto é esquecido e voltar-se-ia, com um painel violável, aos tempos do cabresto, onde o coronel de plantão tenha direito de manipular e achacar os membros daquela que é a instância mais alta do poder legislativo. Também fere outra premissa fundamental do estado de direito - a igualdade perante a lei - no momento em que concede a um ou dois senadores o poder arbitrário de descobrir o voto sigiloso de seus colegas.
Ao contrário de todas as outras ofensas que originaram cassações no passado - de tráfico de drogas ao de influência, de negócios escusos a roubos faraônicos - nenhum deles foi tão diretamente afrontoso à própria instituição do Senado e da democracia brasileira quanto esse caso que agora se desenrola. A não-cassação dos envolvidos seria uma mancha vergonhosa e indelével nos carpetes azuis daquela casa, sinal de que os senadores não se preocupam nem com o bem comum (o que já se desconfia há algum tempo) nem com o seu próprio, o que é ainda surpreendente.
O senador Arruda teve, pelo menos, a hombridade de assinar sua própria declaração de morte. Seu discurso choroso na tribuna do Senado não deve ser visto como uma confissão grandiosa de um homem que redescobre seu tino ético, mas sim aquela de alguém que se vê acuado e resolve, mesquinhamente, transferir a culpa para ombros menos protegidos (a diretora do Prodasen, que teria feito a lista por "precipitação", bem no dia da votação da cassação do adversário político de Arruda) e dividi-la com o outro comparsa de crime, ACM. Além de tudo, é uma declaração de dupla quebra de decoro parlamentar: uma ao violar o painel e outra, assaz grave, ao mentir deslavadamente na tribuna do Senado há uma semana. Que tal discurso tenha servido para gerar nos digníssimos colegas a esperança de pena menos branda do que a cassação para esse "réu confesso e arrependido", ao invés de, ao contrário, apressar seu expurgo, é sinal de que a poeira do Planalto Central infiltrou-se não só nas roupas, mas também nos neurônios dos congressistas.
Se Arruda é carta fora do baralho, só resta uma em pé. Resta, como sempre tem restado em tudo na política brasileira desde JK, a figura horizontalmente avantajada de ACM a deixar sua sombra. A única diferença é que dessa vez o senador baiano está isolado, sua base de poder corroída e seu método de fazer política com a data de validade mais do que esgotada. Retirar Toninho da política nacional sempre foi um sonho de todos comprometidos com a construção de um Brasil mais justo, e agora o sonho transformou-se em imperativo ético. Não porque ACM tenha roubado muito ou serrado gente, como alguns de seus pares já fizeram. Não surpreenderia se tivesse feito ambas as coisas, mas não se sabe que as tenha feito. ACM deve ir-se por ser, mais do que maléfico, simbólico. É simbólico de um modo arcaico de fazer política: aquele que intimida, amedronta, conspira, trama, puxa o tapete, vende-se para o governante de ocasião, é fisiológico, clientelista e abusado. É, em suma, a atitude de uma certa aristocracia transplantada aos trópicos e que acha que povo é pra servir de criadagem, e a quem as regras e leis não se aplicam. É o que de pior há em termos de elite; é do que mais urgentemente temos de nos livrar. É de se esperar, pelo bem do Senado e da democracia no país, que os senadores saibam disso, e notem também que o país inteiro está olhando. Chegou a hora da verdade. Seremos um país de homens ou ratos ?
E Jader ?
Só as bestas não julgam pela aparência, já dizia Oscar Wilde. Com aqueles ternos azul cobalto e as gravatas de estampas florais, pode-se esperar de Jader Barbalho que tenha roubado até o leite do filho. Quem comete tamanha atrocidade com a estética não terá pudores em outras áreas. Mas a extensão de seu malefício ainda é insabida e não-provada. Assim, por ora, nada de cassação pra Jader. Seu processo será mais longo, e não tem nada a ver com o painel do senado. Cuidado com quem proclama a máxima de que ou vão os três (Jader, ACM e Arruda) ou não vai ninguém. Pode estar, ainda que insuspeitadamente, protegendo a pele dos três, pois é improvável que se reúnam provas suficientes para cassar Jader no período da crise do "Painelgate". Os dois processos são completamente disjuntos e necessariamente dissociáveis. Senado não é festa de colegial, onde ou não vai ninguém ou vai todo mundo. Há que se separar os dois assuntos o mais breve possível, para impedir as raposas de Brasília de tricotar mais um acordo de ocasião. Se essa pizza for pro forno, explode o forno.
Nãããããããããão ?! Seráááá ?!
Publicidade
Me ensinaram, quando criança, a não ficar feliz com a desgraça dos outros. Mas confesso a alegria sentida ao contemplar a possibilidade de ver Toninho Malvadeza em pessoa cassado, escorraçado de Brasília e, o que seria melhor ainda, tendo seus direitos políticos igualmente suspensos por oito anos - tempo suficiente para que até a mais hesitante das criaturas onipresentes digne-se a retirar essa amostra grátis de prepotência dessa dimensão de tempo e espaço.A violação do painel eletrônico do Senado é atentado direto contra o espírito da democracia. O respeito ao voto é esquecido e voltar-se-ia, com um painel violável, aos tempos do cabresto, onde o coronel de plantão tenha direito de manipular e achacar os membros daquela que é a instância mais alta do poder legislativo. Também fere outra premissa fundamental do estado de direito - a igualdade perante a lei - no momento em que concede a um ou dois senadores o poder arbitrário de descobrir o voto sigiloso de seus colegas.
Ao contrário de todas as outras ofensas que originaram cassações no passado - de tráfico de drogas ao de influência, de negócios escusos a roubos faraônicos - nenhum deles foi tão diretamente afrontoso à própria instituição do Senado e da democracia brasileira quanto esse caso que agora se desenrola. A não-cassação dos envolvidos seria uma mancha vergonhosa e indelével nos carpetes azuis daquela casa, sinal de que os senadores não se preocupam nem com o bem comum (o que já se desconfia há algum tempo) nem com o seu próprio, o que é ainda surpreendente.
O senador Arruda teve, pelo menos, a hombridade de assinar sua própria declaração de morte. Seu discurso choroso na tribuna do Senado não deve ser visto como uma confissão grandiosa de um homem que redescobre seu tino ético, mas sim aquela de alguém que se vê acuado e resolve, mesquinhamente, transferir a culpa para ombros menos protegidos (a diretora do Prodasen, que teria feito a lista por "precipitação", bem no dia da votação da cassação do adversário político de Arruda) e dividi-la com o outro comparsa de crime, ACM. Além de tudo, é uma declaração de dupla quebra de decoro parlamentar: uma ao violar o painel e outra, assaz grave, ao mentir deslavadamente na tribuna do Senado há uma semana. Que tal discurso tenha servido para gerar nos digníssimos colegas a esperança de pena menos branda do que a cassação para esse "réu confesso e arrependido", ao invés de, ao contrário, apressar seu expurgo, é sinal de que a poeira do Planalto Central infiltrou-se não só nas roupas, mas também nos neurônios dos congressistas.
Se Arruda é carta fora do baralho, só resta uma em pé. Resta, como sempre tem restado em tudo na política brasileira desde JK, a figura horizontalmente avantajada de ACM a deixar sua sombra. A única diferença é que dessa vez o senador baiano está isolado, sua base de poder corroída e seu método de fazer política com a data de validade mais do que esgotada. Retirar Toninho da política nacional sempre foi um sonho de todos comprometidos com a construção de um Brasil mais justo, e agora o sonho transformou-se em imperativo ético. Não porque ACM tenha roubado muito ou serrado gente, como alguns de seus pares já fizeram. Não surpreenderia se tivesse feito ambas as coisas, mas não se sabe que as tenha feito. ACM deve ir-se por ser, mais do que maléfico, simbólico. É simbólico de um modo arcaico de fazer política: aquele que intimida, amedronta, conspira, trama, puxa o tapete, vende-se para o governante de ocasião, é fisiológico, clientelista e abusado. É, em suma, a atitude de uma certa aristocracia transplantada aos trópicos e que acha que povo é pra servir de criadagem, e a quem as regras e leis não se aplicam. É o que de pior há em termos de elite; é do que mais urgentemente temos de nos livrar. É de se esperar, pelo bem do Senado e da democracia no país, que os senadores saibam disso, e notem também que o país inteiro está olhando. Chegou a hora da verdade. Seremos um país de homens ou ratos ?
E Jader ?
Só as bestas não julgam pela aparência, já dizia Oscar Wilde. Com aqueles ternos azul cobalto e as gravatas de estampas florais, pode-se esperar de Jader Barbalho que tenha roubado até o leite do filho. Quem comete tamanha atrocidade com a estética não terá pudores em outras áreas. Mas a extensão de seu malefício ainda é insabida e não-provada. Assim, por ora, nada de cassação pra Jader. Seu processo será mais longo, e não tem nada a ver com o painel do senado. Cuidado com quem proclama a máxima de que ou vão os três (Jader, ACM e Arruda) ou não vai ninguém. Pode estar, ainda que insuspeitadamente, protegendo a pele dos três, pois é improvável que se reúnam provas suficientes para cassar Jader no período da crise do "Painelgate". Os dois processos são completamente disjuntos e necessariamente dissociáveis. Senado não é festa de colegial, onde ou não vai ninguém ou vai todo mundo. Há que se separar os dois assuntos o mais breve possível, para impedir as raposas de Brasília de tricotar mais um acordo de ocasião. Se essa pizza for pro forno, explode o forno.
![]() |
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas E-mail: desembucha@uol.com.br |

