Gustavo Ioschpe
02/05/2001
Pois estamos agora em um momento crucial de nossa vida republicana, com a oportunidade de caçar e cassar este lobo que ameaça nossa democracia há décadas, este coronel baiano que traz seus métodos de cangaceiro para o centro da nossa política. Porém agora, com o cheiro de sangue no ar, os leões que haviam mostrado seus dentes e afiado as presas já estão vestindo novamente suas peles de ovelhas e falando em acertos, acordos, em "punições severas demais", etc.
Não sei se o fazem por benfazejos ou medrosos, ou mistura dos dois. Medo de que o painho se reerga e, do alto de seus 73 anos, achaque-os. Ou bondade de ver um eterno imbatível com os olhos mareados de cansaço na tribuna dos réus, isolado, fazendo cálculos de como evitar uma cassação e como justificar uma renúncia e ter aquele instinto maternal de "pobrezinho, já sofreu que chega de castigo, agora vamos deixá-lo voltar pro pátio".
Pois não se forja um país sério com complacência; é preciso implacabilidade. ACM levou uma bordoada e está grogue. Se não estivesse, não precisaria ficar repetindo para si mesmo "eu sou forte" nem organizando manifestações de apoio de jogadores de futebol baianos. É preciso agora terminar o serviço. Dar a chinelada final, ir até o fim. Mas e por que começa a sentir-se no ar essa benevolência ?
Os ingênuos dirão que é porque os políticos são todos safados e estão armando outro conluio. Escapismo fácil. Políticos, para bem ou para mal, respondem às emanações do povo em uma democracia. E o povo, nesse caso, vem falhando seu dever. Pesquisa Datafolha revela que só 58% dos entrevistados querem a cassação de ACM. Isso é pouco mais que a metade. A outra quase metade está satisfeita com punição mais branda ou punição nenhuma. É incompreensível. Pois digo e repito: o delito de violar o painel do Senado é, ao contrário do que vêm dizendo alguns senadores e seus marionetes da mídia, muitíssimo grave, infinitamente mais sério do que os crimes de Luiz Estevão ou mesmo Jader Barbalho. Estes, se confirmadas as suspeitas, teriam lesado o erário. Mandados para o xilindró e recuperado o dinheiro, o dano estaria sanado. A violação do voto, contudo, fere a alma da democracia: fere a igualdade perante a lei, cria uma situação onde um tem a possibilidade de chantagear o outro, institui o voto de cabresto na mais alta instância do poder legislativo, perdoa e premia a arrogância, a prepotência e o desrespeito às instituições nacionais e suas normas. Tolerar esse tipo de "falha" é absolutamente incompatível com o funcionamento de uma democracia minimamente sadia.
Mas há a possibilidade de que esses criminosos saiam sem danos maiores, porque a população decidiu acovardar-se. Cadê a UNE ? Ainda está achando que política estudantil é fazer carteirinha de cinema ? Onde estão os cara-pintadas ? Onde estão as manifestações, as marchas, os protestos ? Se mobilizaram para apear do poder um presidente que era um mero cancro na pele, mas vão deixar o câncer já em metástases continuar a corroer as entranhas da vida pública ? Cadê os sindicatos, os partidos de esquerda ? Por que não conclamam suas bases, aglutinam seus membros, partem para a ação ? E você, mesmo que não participe de nenhum clube ou organização de classe, votou em alguém para o senado nas últimas eleições ? E já mandou ao seu senador um e-mail dizendo o que pensa ?
Estamos em um período histórico. Um marco. A vontade popular arbitrará, em última análise, essa disputa. Façamos a nossa parte. Ou calemo-nos, de uma vez por todas.
Falta a chapuletada final
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Falta à benevolência brasileira um toque da feracidade tedesca. Um pouco daquilo que Beethoven escreveu quando começava a perder o único dom indispensável a ele, a audição: "Vou agarrar o destino pela goela". Um pouco do que Nietzsche chamava de moral do mestre, com sua sede de vitórias, de glórias, de força.Pois estamos agora em um momento crucial de nossa vida republicana, com a oportunidade de caçar e cassar este lobo que ameaça nossa democracia há décadas, este coronel baiano que traz seus métodos de cangaceiro para o centro da nossa política. Porém agora, com o cheiro de sangue no ar, os leões que haviam mostrado seus dentes e afiado as presas já estão vestindo novamente suas peles de ovelhas e falando em acertos, acordos, em "punições severas demais", etc.
Não sei se o fazem por benfazejos ou medrosos, ou mistura dos dois. Medo de que o painho se reerga e, do alto de seus 73 anos, achaque-os. Ou bondade de ver um eterno imbatível com os olhos mareados de cansaço na tribuna dos réus, isolado, fazendo cálculos de como evitar uma cassação e como justificar uma renúncia e ter aquele instinto maternal de "pobrezinho, já sofreu que chega de castigo, agora vamos deixá-lo voltar pro pátio".
Pois não se forja um país sério com complacência; é preciso implacabilidade. ACM levou uma bordoada e está grogue. Se não estivesse, não precisaria ficar repetindo para si mesmo "eu sou forte" nem organizando manifestações de apoio de jogadores de futebol baianos. É preciso agora terminar o serviço. Dar a chinelada final, ir até o fim. Mas e por que começa a sentir-se no ar essa benevolência ?
Os ingênuos dirão que é porque os políticos são todos safados e estão armando outro conluio. Escapismo fácil. Políticos, para bem ou para mal, respondem às emanações do povo em uma democracia. E o povo, nesse caso, vem falhando seu dever. Pesquisa Datafolha revela que só 58% dos entrevistados querem a cassação de ACM. Isso é pouco mais que a metade. A outra quase metade está satisfeita com punição mais branda ou punição nenhuma. É incompreensível. Pois digo e repito: o delito de violar o painel do Senado é, ao contrário do que vêm dizendo alguns senadores e seus marionetes da mídia, muitíssimo grave, infinitamente mais sério do que os crimes de Luiz Estevão ou mesmo Jader Barbalho. Estes, se confirmadas as suspeitas, teriam lesado o erário. Mandados para o xilindró e recuperado o dinheiro, o dano estaria sanado. A violação do voto, contudo, fere a alma da democracia: fere a igualdade perante a lei, cria uma situação onde um tem a possibilidade de chantagear o outro, institui o voto de cabresto na mais alta instância do poder legislativo, perdoa e premia a arrogância, a prepotência e o desrespeito às instituições nacionais e suas normas. Tolerar esse tipo de "falha" é absolutamente incompatível com o funcionamento de uma democracia minimamente sadia.
Mas há a possibilidade de que esses criminosos saiam sem danos maiores, porque a população decidiu acovardar-se. Cadê a UNE ? Ainda está achando que política estudantil é fazer carteirinha de cinema ? Onde estão os cara-pintadas ? Onde estão as manifestações, as marchas, os protestos ? Se mobilizaram para apear do poder um presidente que era um mero cancro na pele, mas vão deixar o câncer já em metástases continuar a corroer as entranhas da vida pública ? Cadê os sindicatos, os partidos de esquerda ? Por que não conclamam suas bases, aglutinam seus membros, partem para a ação ? E você, mesmo que não participe de nenhum clube ou organização de classe, votou em alguém para o senado nas últimas eleições ? E já mandou ao seu senador um e-mail dizendo o que pensa ?
Estamos em um período histórico. Um marco. A vontade popular arbitrará, em última análise, essa disputa. Façamos a nossa parte. Ou calemo-nos, de uma vez por todas.
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Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas E-mail: desembucha@uol.com.br |
