Pensata

Gustavo Ioschpe

09/05/2001

A cerveja de Londres e a cachaça de Brasília

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Quem já morou em Londres pensou que a desculpa de "tomar um último pint num pub inglês" fosse a senha para mais uma fuga de Ronald Biggs, o ladrão do trem-pagador refugiado no Brasil há 31 anos. Pois a cerveja inglesa é péssima, assim como quase todos os produtos gastronômicos daquele país, e os pubs londrinos viraram (teriam sempre sido ?) reduto de engravatados da City que largam seus escritórios às 5 da tarde e, faça chuva ou faça chuva, enchem a cara até cair de bêbados. Não posso crer que alguém acostumado ao chopinho das areias de Ipanema quisesse passar seus últimos dias num cárcere britânico apenas para ter a possibilidade de, eventualmente, saborear o malte inglês. Biggs rendeu-se e encontra-se preso porque sentia remorso. Sentia culpa por ter protagonizado um roubo. Mesmo tendo levado uma vida de bandido e malandro, aparentemente não conseguiu se libertar daquele apreço pela honestidade e correção que a mentalidade judaico-cristã vem inculcando em nosso inconsciente coletivo há mais de dois mil anos. Vendo-se frente a frente com a morte, o velho ladrão fugira de todos, mas não de si mesmo. Nem, especialmente, de seu superego, aquele termo cunhado por Freud para descrever a noção de culpa implantada em nós pelo medo da rejeição paterna e que nos persegue, companheira ingrata, até o fim de nossas vidas. A decisão de Biggs foi ainda mais surpreendente tendo-se em conta que pesquisas de opinião locais estimam em perto de 60% a parcela da população inglesa contrária à soltura de Biggs por questões humanitárias, mesmo que o velho ladrão, setenta e um anos e alguns derrames cerebrais nas costas, não passe de um fiapo do larápio de outrora.

Desculpe-me o leitor por trazer o assunto à tona pela terceira semana consecutiva, mas o fim de Biggs pede analogias àquilo que se passa em nossa capital. É preciso viver-se em um estado de pequenez atroz para vislumbrar grandiloquência no ato desesperado de um ladrão agonizante e velho. Pois a mesquinharia de Brasília reduziu o país a isso mesmo: pequenez.

Não se encontra, entre alguns membros do Senado e do governo federal, essa consciência de culpa primordial e indispensável ao ser humano. O político brasiliense é um autômato: aproveita qualquer verba, viola qualquer regra de acordo com a conveniência de ocasião, rouba quaisquer somas de dinheiros destinados a maternidades ou ranários e, quando pego em delito fragrante, nega. Nega "com veemência", nega invocando a família, Deus, Jesus e o diabo a quatro. Não só nega: acusa. Acusa os investigadores de conspiradores, quer fazer-nos crer que há um complô contra ele. Coage, ameaça. Amealha apoios entre outros membros da cadeia da felicidade. Um amigo me dizia, em tom de blague, quando invocava uma dívida: "Devo, não pago, nego enquanto puder", mudando a ordem natural da frase. Esse estado deixou de ser blague e passou a reinar nos corredores mais elevados (por sua posição, não por seu comportamento, obviamente) da República.

Nenhum traço de remorso, nem a menor evidência da noção do erro, da transgressão. Os senhores de Brasília não tomam pints em pubs, pois nem precisam. Estão embriagados pela cachaça do poder, e por essa cachaça metafórica são capazes dos mesmos crimes de prostituição, furto e agressão que os viciados na cachaça literal. Sabe-se desde o tempo dos romanos do in vino veritas que o álcool é o melhor demolidor das defesas que nossa mente nos cria. Na embriaguez, cedem nossas muralhas e imposturas, e aflora nossa parte mais instintiva e bestial, aquilo que a psicanálise chama de id. A civilização humana funda-se na domesticação dessas pulsões primitivas pelo ego e superego. Sem esses dois, seríamos todos Toninhos Malvadeza, para desespero e horror de homens munidos de consciência puritana como...Ronnie Biggs. A que ponto chegamos...

Os anéis de Saturno

O senador Saturnino Braga sempre foi tido como homem sério, mesmo que incompetente, como demonstrou sua passagem pela prefeitura do Rio. O adiamento da apresentação de seu relatório sobre o caso da violação do painel do Senado vem, no mínimo, confirmar esse último adjetivo e, no máximo, minar a crença na veracidade do primeiro. Cada dia que passa, com a enxurrada de novos escândalos a serem apurados, aumenta a possibilidade de tudo acabar em pizza. Teria o senador Saturnino algum motivo só confessável aos astros para dar tamanha colher de chá a seus confrades ?

Origem definida

Os textos sobre o imbróglio do Senado têm gerado número inédito de e-mails de leitores. Quase oitenta mensagens nas últimas duas semanas. Alguns elogios, algumas críticas, alguns brados de revolta, de tudo um pouco. A única certeza é a origem das poucas, pouquíssimas mensagens defendendo o painho ACM: são todas, sem exceção, oriundas da Bahia. Será que estaríamos todos nós do resto do país errados ao perceber os efeitos nocivos do cacique baiano, ou estariam os baianos anestesiados por um clã que controla os governos estaduais e municipal (de Salvador) e os meios de comunicação locais ?

Com inimigos como esses...

...quem precisa de amigos ? Pois não é que a oposição brasileira, tendo em mãos a cassação de um de seus maiores adversários, sai-se com requerimentos para outras CPIs, outras investigações ? O afã de querer resolver tudo ao mesmo tempo é a melhor maneira de garantir que nada será resolvido. Brasília - e a mídia - vivem do próximo escândalo, o que impede a apuração do escândalo corrente. Onde é que esse pessoal aprendeu estratégia ?
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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