Gustavo Ioschpe
16/05/2001
Não se esperava de um Collor mais do que um bom velocista de jet ski, nem de Itamar mais do que cantar uma vagabunda sem calcinha em um sambódromo, com seus assessores completamente embriagados, nem de Sarney nada além da distribuição de concessões de rádio e televisão para ficar mais um ano no poder . Depois de vinte e um anos de ditadura militar e mais dez de líderes desprezíveis, o Brasil depositava sua inteira confiança em um presidente pela primeira vez desde Jânio Quadros. E depositava nesse homem não só a esperança de um bom governo - isso é obrigação e meta de todo presidente - mas de um novo rumo, uma nova auto-estima, a consolidação da democracia e a modernização do Estado. Expectativas essas mais do que nutridas pelo currículo estrelado do chefe-mor da nação e toda sua equipe, composta por figuras de primeiro nível.
Se ainda sobravam dúvidas quanto à falência de Fernando Henrique como algo que não mero "gerente de crise" (e, com a perspectiva de um colapso energético, nem isso), elas devem ter sido dissipadas com a natimorta CPI da Corrupção. Pois o presidente trocou a reforma estrutural que o país precisava - reforma de modos, de mentalidade - para manter sua "governabilidade".
Fez isso porque FHC é um prisioneiro de sua própria vaidade, essa amante cruel. No intuito de manter as loas à sua pessoa pelos próximos anos, foi a campo combater mais uma tentativa empreendida pelos setores sérios - e cansados - da população de se ver livre de um Estado corrupto, fisiológico, personalista. E depois ainda teve a desfaçatez - vulga "cara de pau" mesmo - de posar como sentinela da ética, dizendo que não liberou verbas para barrar a CPI e não erra de má-fé. Mentira, pura e simples.
O tamanho do desserviço prestado à nação por FHC e seus cupinchas é imensurável, por se encontrar no capítulo das esperanças frustradas. Serve para perpetuar todas as práticas retrogradas de uma elite cujo presidente teve o despeito de chamar de atrasada e caipira.
Cegado pela própria egolatria, Fernando Henrique parece não ver o óbvio: perdeu a tão desejada governabilidade há muito tempo, quando decidiu chafurdar na lama dantes condenada. Perdeu a governabilidade quando perdeu o respeito da nação e dos próprios fisiologistas que agora vêem, com razão, o governo como seu "parceiro comercial" - acabaram as discussões sobre ideologia e projetos, e só importa agora é se o pagamento será à vista ou parcelado.
O que o Brasil precisava de seu primeiro presidente capacitado para o cargo nos últimos trinta anos era mais do que o fim da inflação. Era que conduzisse o país a um patamar superior, que restituísse a nós o orgulho de sermos brasileiros, a crença em nossas instituições, a admiração por aqueles que optam pelo serviço público. Para empreender todas essas mudanças, FHC precisava não só de um intelecto afiado, mas principalmente de um comportamento de gigante, idôneo, irrepreensível. A Bíblia conta que quando Gideão precisava escolher os homens para sua batalha, Deus selecionou não os melhores guerreiros, mas aqueles que, quando deixados à frente de um riacho para tomar água, a bebiam sem ajoelhar-se. A batalha para tirar o Brasil da lama envolve a mesma simbologia: precisamos de alguém que não só nos leve à vitória, mas que chegue lá de pé. Se as instituições democráticas não forem consolidadas e as práticas fisiológicas não forem abolidas, não há plano econômico que tire um país da miséria.
Mas Fernando Henrique, munido de todos os conhecimentos necessários, não só ajoelhou-se para tomar água, como aproveitou o acocoramento para ficar admirando seu reflexo no lago. Tal como o Narciso que é, não conseguiu se desgrudar do que via, e acabou sacrificando a si mesmo devido a seu interminável amor-próprio. Já que não ouviu as palavras sinceras de seu amigo agonizante Sérgio Motta ("Não se apequene, Fernando"), só falta rezar para que este ser apequenado não acabe se afogando no manancial de suas vaidades enquanto nós todos estivermos no mesmo bote.
Não se afogue, Fernando
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Talvez a História ofereça um julgamento mais suave, com o distanciamento provocado pelo tempo. Mas para quem acompanha o dia-a-dia da situação brasileira, não há como ter uma imagem positiva do presidente Fernando Henrique Cardoso. Não tanto pelo que ele faz, deixa de fazer ou, mais importante, impeça que façam, mas principalmente pela decepção que este homem causou.Não se esperava de um Collor mais do que um bom velocista de jet ski, nem de Itamar mais do que cantar uma vagabunda sem calcinha em um sambódromo, com seus assessores completamente embriagados, nem de Sarney nada além da distribuição de concessões de rádio e televisão para ficar mais um ano no poder . Depois de vinte e um anos de ditadura militar e mais dez de líderes desprezíveis, o Brasil depositava sua inteira confiança em um presidente pela primeira vez desde Jânio Quadros. E depositava nesse homem não só a esperança de um bom governo - isso é obrigação e meta de todo presidente - mas de um novo rumo, uma nova auto-estima, a consolidação da democracia e a modernização do Estado. Expectativas essas mais do que nutridas pelo currículo estrelado do chefe-mor da nação e toda sua equipe, composta por figuras de primeiro nível.
Se ainda sobravam dúvidas quanto à falência de Fernando Henrique como algo que não mero "gerente de crise" (e, com a perspectiva de um colapso energético, nem isso), elas devem ter sido dissipadas com a natimorta CPI da Corrupção. Pois o presidente trocou a reforma estrutural que o país precisava - reforma de modos, de mentalidade - para manter sua "governabilidade".
Fez isso porque FHC é um prisioneiro de sua própria vaidade, essa amante cruel. No intuito de manter as loas à sua pessoa pelos próximos anos, foi a campo combater mais uma tentativa empreendida pelos setores sérios - e cansados - da população de se ver livre de um Estado corrupto, fisiológico, personalista. E depois ainda teve a desfaçatez - vulga "cara de pau" mesmo - de posar como sentinela da ética, dizendo que não liberou verbas para barrar a CPI e não erra de má-fé. Mentira, pura e simples.
O tamanho do desserviço prestado à nação por FHC e seus cupinchas é imensurável, por se encontrar no capítulo das esperanças frustradas. Serve para perpetuar todas as práticas retrogradas de uma elite cujo presidente teve o despeito de chamar de atrasada e caipira.
Cegado pela própria egolatria, Fernando Henrique parece não ver o óbvio: perdeu a tão desejada governabilidade há muito tempo, quando decidiu chafurdar na lama dantes condenada. Perdeu a governabilidade quando perdeu o respeito da nação e dos próprios fisiologistas que agora vêem, com razão, o governo como seu "parceiro comercial" - acabaram as discussões sobre ideologia e projetos, e só importa agora é se o pagamento será à vista ou parcelado.
O que o Brasil precisava de seu primeiro presidente capacitado para o cargo nos últimos trinta anos era mais do que o fim da inflação. Era que conduzisse o país a um patamar superior, que restituísse a nós o orgulho de sermos brasileiros, a crença em nossas instituições, a admiração por aqueles que optam pelo serviço público. Para empreender todas essas mudanças, FHC precisava não só de um intelecto afiado, mas principalmente de um comportamento de gigante, idôneo, irrepreensível. A Bíblia conta que quando Gideão precisava escolher os homens para sua batalha, Deus selecionou não os melhores guerreiros, mas aqueles que, quando deixados à frente de um riacho para tomar água, a bebiam sem ajoelhar-se. A batalha para tirar o Brasil da lama envolve a mesma simbologia: precisamos de alguém que não só nos leve à vitória, mas que chegue lá de pé. Se as instituições democráticas não forem consolidadas e as práticas fisiológicas não forem abolidas, não há plano econômico que tire um país da miséria.
Mas Fernando Henrique, munido de todos os conhecimentos necessários, não só ajoelhou-se para tomar água, como aproveitou o acocoramento para ficar admirando seu reflexo no lago. Tal como o Narciso que é, não conseguiu se desgrudar do que via, e acabou sacrificando a si mesmo devido a seu interminável amor-próprio. Já que não ouviu as palavras sinceras de seu amigo agonizante Sérgio Motta ("Não se apequene, Fernando"), só falta rezar para que este ser apequenado não acabe se afogando no manancial de suas vaidades enquanto nós todos estivermos no mesmo bote.
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Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas E-mail: desembucha@uol.com.br |

