Gustavo Ioschpe
23/05/2001
A padronização tem endereço e CEP, e vem dos Estados Unidos. É normal. Todos os poderes hegemônicos da história lutaram para impor seus standards aos povos dominados. Assim foi com Roma, assim foi com a Inglaterra do século XIX. A diferença é que se foi o poderio militar e as imposições à força bruta, e hoje o imperialismo cultural vem com uma sutileza capaz de fazer os mais desavisados acreditar que não passa de uma coincidência que em todo o mundo as pessoas se interessem pelo namoro de Brad Pitt e Jennifer Aniston e não de Carla Perez e Xanddy (os dois igualmente desprezíveis, e o segundo mais alarmante que o primeiro pela aparente inevitabilidade da prole).
A pax americana vem com latas de Coca-Cola e calças Levi's na caçamba. Tenho um certo problema com os "conspiracionistas" que acreditam na existência de um plano imperialista traçado em alguma sala secreta de Washington ou Nova York. Quando se decompõem essas supostas iniciativas coletivas em seus agentes individuais, vê-se que se trata de empresas apenas buscando lucro. Se vender para mais países aumenta o lucro, essas empresas perseguirão esses novos mercados. E os Estados, claro, incentivarão as ações que fortalecerem as suas empresas, pois em uma época industrial um Estado é tão forte quanto forem suas empresas. É um ciclo natural e esperável.
O desconcertante é a recepção dos povos "colonizados" Aliás, não tanto dos povos, mas de seus governos. Que adolescentes passem dias esperando os Backstreet Boys em frente de seus hotéis é compreensível; que as autoridades locais abram as portas para a invasão é preocupante.
A França é um bom exemplo da resistência possível. Tem leis impondo quotas mínimas de exibição de filmes nacionais em seus cinemas, e músicas nacionais em suas estações de rádio. Uma arbitrariedade, dirão os neoliberais. Claro. Uma arbitrariedade para tentar corrigir outra, o arbítrio do poder econômico, praticado por empresas que tem mais dinheiro para investir na promoção de um filme do que muitos países têm para investir na sua educação por um ano inteiro. Se não é função do Estado algemar a mão invisível do mercado quando ela se excede, pra quê existe Estado ?
A preservação da cultura nacional, longe de ser exercício de botocudos ou caipiras, é um indispensável elemento da preservação da própria identidade nacional. Levando-se ao extremo, um povo que não produz o próprio saber, nem a cultura que consome, nem o entretenimento que o diverte vai, aos poucos, distanciando-se da sua história e adotando a história dos outros. Será que os brasileiros conhecem mais John Kennedy ou Getúlio Vargas ? Um povo desligado de seu presente e desenraizado de seu passado não terá como produzir seu futuro.
Se a recepção deslumbrada dispensada aos astros hollywoodianos é alguma indicação do comportamento a ser adotado nas negociações da Alca, meus amigos...estamos fritos.
Aniversários
Amanhã fazem aniversário minha irmã e Bob Dylan (seu sexagésimo), o que já seria razão suficiente para comemorações. Mas, dependendo do voto dos senadores hoje e do comportamento da mesa do Senado, pode ser que vejamos a renúncia de dois senadores mais do que dispensáveis nas próximas quarenta e oito horas. A ser confirmado o prognóstico, a festa seria tamanha que até mereceria coluna extra. Começa a contagem regressiva.
Todos iguais, mas uns mais iguais que os outros
Publicidade
Andávamos esses dias por Paris quando um amigo observou que o mundo está ficando todo igual. Passávamos por um francês vestindo calça jeans, camisa cavada, tênis da moda e falando ao celular. Um exemplar encontrável, sem diferenças, em Paris, Londres, Nova York, São Paulo, Istambul ou Tóquio. O mundo está ficando chato. À padronização ideológica segue-se - ou antecederia ? - a padronização estética. Não é, claro, fenômeno espontâneo. Se fosse, provavelmente seríamos todos meio chineses ou indianos, as populações mais numerosas do planeta.A padronização tem endereço e CEP, e vem dos Estados Unidos. É normal. Todos os poderes hegemônicos da história lutaram para impor seus standards aos povos dominados. Assim foi com Roma, assim foi com a Inglaterra do século XIX. A diferença é que se foi o poderio militar e as imposições à força bruta, e hoje o imperialismo cultural vem com uma sutileza capaz de fazer os mais desavisados acreditar que não passa de uma coincidência que em todo o mundo as pessoas se interessem pelo namoro de Brad Pitt e Jennifer Aniston e não de Carla Perez e Xanddy (os dois igualmente desprezíveis, e o segundo mais alarmante que o primeiro pela aparente inevitabilidade da prole).
A pax americana vem com latas de Coca-Cola e calças Levi's na caçamba. Tenho um certo problema com os "conspiracionistas" que acreditam na existência de um plano imperialista traçado em alguma sala secreta de Washington ou Nova York. Quando se decompõem essas supostas iniciativas coletivas em seus agentes individuais, vê-se que se trata de empresas apenas buscando lucro. Se vender para mais países aumenta o lucro, essas empresas perseguirão esses novos mercados. E os Estados, claro, incentivarão as ações que fortalecerem as suas empresas, pois em uma época industrial um Estado é tão forte quanto forem suas empresas. É um ciclo natural e esperável.
O desconcertante é a recepção dos povos "colonizados" Aliás, não tanto dos povos, mas de seus governos. Que adolescentes passem dias esperando os Backstreet Boys em frente de seus hotéis é compreensível; que as autoridades locais abram as portas para a invasão é preocupante.
A França é um bom exemplo da resistência possível. Tem leis impondo quotas mínimas de exibição de filmes nacionais em seus cinemas, e músicas nacionais em suas estações de rádio. Uma arbitrariedade, dirão os neoliberais. Claro. Uma arbitrariedade para tentar corrigir outra, o arbítrio do poder econômico, praticado por empresas que tem mais dinheiro para investir na promoção de um filme do que muitos países têm para investir na sua educação por um ano inteiro. Se não é função do Estado algemar a mão invisível do mercado quando ela se excede, pra quê existe Estado ?
A preservação da cultura nacional, longe de ser exercício de botocudos ou caipiras, é um indispensável elemento da preservação da própria identidade nacional. Levando-se ao extremo, um povo que não produz o próprio saber, nem a cultura que consome, nem o entretenimento que o diverte vai, aos poucos, distanciando-se da sua história e adotando a história dos outros. Será que os brasileiros conhecem mais John Kennedy ou Getúlio Vargas ? Um povo desligado de seu presente e desenraizado de seu passado não terá como produzir seu futuro.
Se a recepção deslumbrada dispensada aos astros hollywoodianos é alguma indicação do comportamento a ser adotado nas negociações da Alca, meus amigos...estamos fritos.
Aniversários
Amanhã fazem aniversário minha irmã e Bob Dylan (seu sexagésimo), o que já seria razão suficiente para comemorações. Mas, dependendo do voto dos senadores hoje e do comportamento da mesa do Senado, pode ser que vejamos a renúncia de dois senadores mais do que dispensáveis nas próximas quarenta e oito horas. A ser confirmado o prognóstico, a festa seria tamanha que até mereceria coluna extra. Começa a contagem regressiva.
![]() |
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas E-mail: desembucha@uol.com.br |
