Pensata

Gustavo Ioschpe

24/05/2001

Parabéns, Brasil !

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A euforia e felicidade são tamanhas que até admitem a utilização do ponto de exclamação, esse assassinato estilístico. As renúncias do senador Arruda e, especialmente, de Antônio Carlos Magalhães são vitórias cabais, maiúsculas, grandiloquentes da democracia brasileira e seu povo.

A democracia brasileira está de parabéns, está de aniversário. Comemora o terceiro aniversário desta reencarnação pós-64. O primeiro foi a eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral, o segundo foi o impeachment de Collor, e o terceiro comemora-se agora, escorraçando dois senadores que mentiram repetidas vezes da tribuna do mais alto fórum do poder legislativo, que quebraram a espinha dorsal da democracia ao conspurcar a inviolabilidade do voto de seus próprios colegas.

Se Arruda era marinheiro de primeira viagem, e merece dó por sua sucessão de desacertos, já ACM é a personificação desse modelo coronelista, prepotente e autoritário de fazer política. Vem infestando a vida nacional há quase 50 anos, com uma folha de serviços corridos de fazer inveja a Nero ou os militares que apoiou. Sua renúncia forçada é um sinal definitivo de mudança de rumo deste país, é um basta inequívoco da população a esse modelo de se exercer a coisa pública. Por isso, mas não só por isso, o Brasil está de parabéns.

Está de parabéns ademais porque a renúncia é resultado direto da pressão popular. Que ninguém se engane: a única razão pela qual esse processo foi em diante é a firme mostra da população, tanto através da mídia como de demonstrações diretas, de que não agüentaríamos mais essa pizza.

É mais emocionante ainda ver o povo da Bahia, subjugado por décadas pela onipotência do grupo político de ACM, levantar-se inesperadamente e, aos milhares, pedir repetidamente o fim da era Toninho Malvadeza.

Que esta mobilização e este engajamento não desapareçam do horizonte, eis os votos que todos os brasileiros de bem temos a fazer. Ainda restam muitas lutas, muitas batalhas e muito esforço para a construção de um país à altura de sua população. A democracia é um regime do povo, pelo povo e para o povo, já dizia Lincoln, e já está mais do que na hora de exercermos uma democracia de verdade.

Democracia essa em que, como também dizia Lincoln, você pode enganar algumas pessoas todo o tempo, ou todas as pessoas por algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas todo o tempo. Lincoln estava certo. ACM e Arruda _e mais dezenas, centenas de homens públicos do mesmo naipe_ estavam errados. Pagaram o preço. Comemoremos.

Próximos capítulos

Confirmando-se a renúncia de ACM, leva um prêmio o senador que propuser uma lei que proíba um político que renunciou em meio a um processo de cassação recandidatar-se ao mesmo cargo nas próximas eleições. Sim, porque seria um deboche completo da democracia se ACM e Arruda voltassem ao Senado daqui a um ano e meio. Tudo bem que eles continuem com sua vida política em outros cargos, mas não deveriam poder voltar para os cargos dos quais foram obrigados a fugir. Ou isso, ou uma lei que institua o reinício do processo de cassação caso o parlamentar volte a ocupar o cargo que abandonou. Algum senador que se habilite?

O Próximo

Retirando-se ACM, falta ainda mais um alvo da limpeza que esse país merece. Ele mesmo, o homem dos ternos aquamarine, Jader Barbalho.

Se já era difícil nutrir grandes simpatias pelo senador paraense, sua conduta nas últimas semanas tornou mesmo qualquer compaixão impossível.

Sua atuação na questão do painel _de dar 15 dias úteis à Mesa do Senado para que encaminhe ou arquive o processo_ foi desprezível como sempre e mais burra que de costume. Senão, vejamos.

Comecemos pela hipótese generosa: Jader estendeu o prazo para evitar um julgamento sumário e garantir o pleno direito de defesa dos senadores, porque é um homem com agudo senso de justiça e quer evitar qualquer linchamento político. Chegou a essa conclusão depois de ver o monstro do lago Ness no lago de Brasília e de trocar algumas idéias com Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa, a bordo de um disco voador que o levou para o outro lado do arco-íris, na terra dos duendes. Se assim fosse, Jader estaria sendo muito nobre, mas tarde demais para reabilitar sua imagem.

Fez fama e da cama não se levanta mais. Ninguém acredita em suas intenções, e ele é capaz de ter apoiado uma medida altamente impopular mesmo sem haver necessidade dela, caso se confirmem as renúncias. Sai perdendo.

Considerando-se a hipótese mais provável dada a ilibada biografia do senador, é de se pensar que houve algum acordo de preservação mútua entre os dois caciques, um abraço de afogados. Aí há dois cenários: ou a Mesa recomenda a continuação do processo, como queria o relator original e a opinião pública, ou ela vai contra os dois e aprova o arquivamento ou abrandamento do processo. Se a Mesa acabasse recomendando a continuação, Jader se queimaria em dobro: pelo desgaste com a opinião pública pela manobra, e com seus membros de conspiração, traídos e sedentos por vingança.

Se a Mesa facilitasse a vida de ACM e Arruda, o descontentamento popular explodiria. Me arrisco a dizer que os senadores acusados seriam encurralados pela opinião pública e forçados a renunciar, e a sanha da turba voltar-se-ia então para Jader. Com ACM fora do baralho, se Jader acredita que o PFL lhe apoiaria é porque nem "O Príncipe", de Maquiavel, com suas cem páginas, ele leu.

Se, depois de Arruda, ACM renunciar, é inevitável que o próximo alvo seja Jader. O feitiço virou contra o feiticeiro: antes, cada dia que passava era um pouquinho mais de ar para ACM e Arruda; hoje, imagino que a pressão popular só vá aumentar até ACM renunciar.

Com a crise do apagão e talvez agora mais essa novela Chico Lopes-BC-Cacciola, será improvável que o governo se empenhe de corpo e alma para preservar Jader, mais um foco de desgaste. O descontentamento popular também faz crescer a oposição, e um dos maiores beneficiários é Itamar Franco, e à medida que ele cresce nas pesquisas, cresce seu poder dentro do PMDB de Jader, que se enfraquece em proporção inversamente proporcional. Talvez só reste a ele o caminho de meter a viola no saco e fazer uma dupla sertaneja com Arruda ou ACM. Já sugiro até nome: Zé Rico e Milionário cover.

Clique aqui para ler também comentários de Clóvis Rossi, Gilberto Dimenstein e Kennedy Alencar sobre a renúncia.

Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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