Pensata

Gustavo Ioschpe

06/06/2001

Entre a incompetência e a corrupção

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Meu estimado colega Gilberto Dimenstein afirmava, na sua coluna de duas semanas atrás, que, segundo estimativas, a crise energética brasileira custará R$ 30 bilhões, o que demonstraria que a incompetência administrativa seria um mal pior do que a corrupção para o Brasil. Aproveito a deixa para expor opinião diferente.

Admitindo-se que a crise vá mesmo custar R$ 30 bilhões em PIB perdido - uma estimativa que, a essa altura do campeonato, não passa de chute - e acreditando-se que não houve casos de corrupção responsáveis por desvios maiores do que essa soma - crença essa não de todo justificável, dada a inventividade nacional para fraudes & estelionatos - mesmo assim diria que o custo da corrupção é muito maior para o país, até porque a corrupção estimula a própria incompetência.

Pois a corrupção e sua irmã gêmea, a impunidade, minam as bases de um país. Quando um político ou seu coletivo (quadrilha) rouba, digamos, R$ 1 bilhão, o prejuízo para a nação não é de apenas R$ 1 bilhão.
Além e mais importante do que a perda nominal, a corrupção e a impunidade geram custos administrativos enormes: procuradores mobilizados para perseguir meliantes, juízes para conduzir os processos e policiais para perseguir os criminosos; níveis e mais níveis de burocracia e papelada para instaurar controles e barreiras para evitar o desvio de verbas. E, efetuado o desvio, perde-se o resultado desejado para a verba: a escola que deixou de ser construída, por exemplo, e a imensurável perda para o país que é ter mais uma criança analfabeta.
Não bastassem esses custos diretos, ainda há os tangenciais. A falência moral dos escalões mais altos da sociedade filtra para os andares de baixo. Em um país onde o presidente do Congresso tem posses incompatíveis com seus rendimentos é de se esperar que médicos não se vexem em perguntar a seus pacientes se preferem fraudar a Receita ou não ("Quer o preço com recibo ou sem ?"), onde empresários sintam-se justificados a não pagar impostos e evadir divisas ou o técnico da televisão ache justificável cobrar por peças que nunca estiveram estragadas. O "eshperrto" acha que está ganhando ao aplicar seus pequenos golpes, e só sua ignorância pode justificar a falta de visão, pois malandro que é malandro não se preocupa em notar que o sujeito que lhe bateu a carteira é um favelado analfabeto marginalizado pela ausência de um Estado. Estado este impossibilitado de agir pela falta dos recursos subtraídos pela ação de malandros como ele. O malandro, só se preocupando com o seu próprio bem-estar, passa então a bolar a próxima roubadinha para poder pagar um sistema de segurança mais caro e sofisticado para, da próxima vez, repelir o ladrão e assim achar-se o malandro mais malandro do mundo. O malandro mais ganancioso candidata-se logo a um cargo público, vendo o potencial de fazer um belo pé-de-meia sem tanto esforço.

Eis aí a consequência talvez mais triste dessa roubalheira que assola o país. Hoje, há que se ser um extremista para querer participar da coisa pública: ou um extremo idealista, convicto da nobreza e indispensabilidade do serviço público, ou um extremo escroque, querendo roubar o máximo possível. E não se monta o corpo de servidores de um país com extremos. É preciso gente normal, que queira o seu emprego, seu ganha-pão. Nem Messias, nem Barrabás.

A corrupção gera incompetência na medida que afasta do governo os homens brilhantes que, em outras circunstâncias, disporiam-se a ajudar o país, mas não querem se sujeitar à pecha de ladrão automaticamente imputada a todos os que lidam com a coisa pública. E isso não vale 30, nem 50, nem 100 bilhões de reais. É incalculável.

Vovô viu a uva

Sobre ACM, dado o seu discurso, nada a acrescentar ao que aqui já foi dito. Só há que se reconhecer no homem a virtude da constância: foi torpe até o final. A única surpresa do discurso foi sua péssima qualidade estilística e estrutural. Uma maré de repetições, meias-voltas e frases desconexas. De quem teve quase cinquenta anos de vida pública e uma semana de tempo para preparar um texto, esperava-se coisa melhor.
Mas já dizia Monteiro Lobato que um país se faz com grandes homens e bons livros, que eu retificaria: o que importa mesmo é que os bons livros sejam lidos, pois eles gerarão grandes homens. ACM, como era de se esperar por sua carreira, não deve ter lido grandes livros, daí ser normal sua estranheza frente à língua de Camões.

Extremo Oriente Médio

A análise da situação entre Israel e palestinos requer mais tinta do que esse espaço permite, mas o atentado de sexta-feira em Tel Aviv mostra o desastre da ambigüidade de Arafat. Quis ao mesmo tempo conduzir um processo de paz e manter um aparato terrorista funcionando, na esperança de que acabaria com os terroristas quando e se a paz chegasse. E que, caso ela não viesse, poderia usar o terror para forçar Israel a fazer concessões. Obviamente, não deu certo, porque um terrorista suicida é, por definição, incontrolável, e a sociedade israelense se fortalece quando atacada, não ao contrário. Agora, a sinuca de bico: se não suprimir o terrorismo, não terá parceiro para processo de paz algum; se suprimi-lo, invoca a ira da população local e capitula ao inimigo sem ganhar nada em troca. O xadrez seria interessante, não envolvesse a vida de tantos inocentes. Caminha-se para uma guerra. Uma guerra que será, necessariamente, sem vencidos nem vencedores. É a inexorável marcha da insensatez, que só grandes líderes - artigo em falta na região - poderiam frear.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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