Pensata

Gustavo Ioschpe

12/06/2001

Análise sociológica do cocô de cachorro

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Depois de tantas semanas seguidas lidando com o submundo (e existe outro?) da política brasileira, decido poupar o meu leitor de mais uma semana de agruras. Falemos de algo mais agradável que nossos homens públicos. Falemos, pois, de cocô de cachorro.

Quem já veio a Paris deve ter-se espantado com a beleza das mulheres locais. E, ao apreciá-las, deve ter-se também espantado com o fedor vindo dos seus sapatos, provavelmente carimbados com um vistoso excremento canino. Sim, pois Paris é uma cidade infestada por cachorros e calçadas estreitas, e só o residente mais tarimbado desenvolve a manha de evitar os detritos dos melhores amigos do homem (?).

Fazendo uso, portanto, da mais rala sociologia de porta de cadeia, quero utilizar aqui o cocô de cachorro para traçar um paralelo cultural. Comecemos pela França.

Aqui, há quilos e mais quilos de excremento no chão (18 toneladas por ano, para ser mais exato, segundo um livro sobre a cidade) deixadas por cachorros. São uma incomodação, mesmo para o mais apaixonado dos caninófilos. Não há nenhuma lei regulando as atividades gástricas dos bichos nem a atitude de seus donos. Há, sim, pedidos para que se cuide da cidade e para que se limpe a cacaca feita pelo cachorro. Como ninguém presta atenção aos apelos, a solução foi a criação de um veículo que eu chamarei de papacaca, um carrinho com jatos d'água e escovas que dissolve e recolhe os detritos.

Um sociólogo ou cientista político diria que esse comportamento é próprio de uma civilização cristã-latina, onde há uma mentalidade individualista, uma dinâmica de pecados e castigos que leva a repressão e sua consequente rebelião, onde o estado reproduz a estrutura familiar e torna-se paternalista, cuidando até de limpar a caca dos filhos da pátria. Um economista diria que o francês coloca mais valor na liberdade de ter um cachorro e deixá-lo ir aos pés sem ter que ficar controlando seus movimentos ou limpando sua sujeira do que em ter uma cidade imaculadamente limpa, o que aconteceria caso houvesse lei regulando os bichanos e polícia dando multas nos cachorros infratores e seus donos. O cocô de cachorro serve, assim, como perfeito emblema da sociedade francesa: com pendores socialistas, libertários e fraternais, um estado paternalista e expandido.

O que é exatamente o oposto dos Estados Unidos, com a mentalidade protestante que louva a abnegação pessoal em favor do coletivo, o individualismo e a ênfase no trabalho e ganho ao invés do prazer. Como era de se esperar, as grandes cidades dos Estados Unidos têm leis duras - especialmente Nova York - sobre os detritos caninos. O transeunte nova-iorquino é bombardeado com dezenas, centenas de placas dizendo "Clean up after your dog" e um desenhinho de um boneco fazendo exatamente isso: recolhendo a sujeira deixada pelo cão. A multa para os infratores é severa. Por isso, pode-se ver os donos de cachorro tirando uma pá e sacola cada vez que o cão começa a descrever aqueles círculos exploratórios sobre o lugar onde ele deixará sua obra de arte. Terminados os esforços esfincterianos do bicho, lá vai o dono pegar os restos de seu cão, num espetáculo completamente degradante. Mas a filosofia é essa: se você quer cachorro, cuide dele e não incomode o resto. Ninguém vai tolerar pisar no cocô do cachorro dos outros. A socialização dos custos (andar em lugar repleto de fezes caninas) é menos aceitável do que a individualização da degradação (que o dono do cachorro tenha de se sujeitar a pegar a caca do seu bicho). Então, dê-lhe multa, dê-lhe polícia, e quem não gostar que vá pra Porto Rico.

E o Brasil? Ah, no Brasil cachorro é coisa de madame. Os maridos dessas madames são, não por acaso, aqueles que vêm controlando o país há séculos, e que escrevem e implementam as leis. Ou, no caso, deixam de fazê-las. Pois, no Brasil, se há lei regulando os movimentos peristálticos dos "pets", ninguém sabe, ninguém viu. Cachorro de madame caga na rua e não tem equipamento especial pra limpar o detrito, porque ele vai sair ali de dois jeitos: ou alguém pisa, ou lixeiro tira. Como madame e seu marido só andam de carro, estão alheios ao problema. Se algum pobretão pisar no cocô do cachorro, problema é dele. Se esse pessoal dá comida pro cachorro mas deixa a classe de baixo passar fome, não é de se esperar que vão se preocupar com um mero tropeço nos excrementos do Rex. E se o lixeiro pegar, tanto melhor, porque quem, dentre os donos de cachorro, vai se sentir aviltado com a noção de um ser humano recolhendo as fezes de um cachorro ? Claro, ninguém. Lixeiros estão na mesma zona cinzenta em que se enquadram mendigos, favelados e cachorros sem pedigree. Dispensáveis. Os mais ilustrados dentre os gente-fina serão capazes até de achar que estão fazendo um favor ao gerar mais cocô, porque assim gerarão mais emprego, de lixeiro a engraxate. Se chegarem a ter acesso ao presidente da República e lhe manifestarem a teoria, são capazes até de ganhar lugar na ekipeconômica.

A propósito

Repito aqui as perguntas, frutos da mais pura ignorância, às quais ainda não consegui respostas. Em frente a atual crise energética:

1) Por que não se decreta um horário de verão ?
2) Não seria mais barato ao país comprar ou transpor do mar águas para nossas hidrelétricas, ao invés de diminuir nossa produção industrial ?

Agradeço de antemão a qualquer economista ou engenheiro prestimoso que venha ao auxílio.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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