Pensata

Gustavo Ioschpe

26/06/2001

Na ilha de Caras

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Confessa: você abriu esse texto por achar que o escriba tivesse passado algum tempo nesta versão brasileira da Ilha da Fantasia, ou que tivesse algum amigo ou "fonte" lá refugiado com algum segredo novo sobre as mesmas velhas celebridades. Bom, lamento decepcionar. Apesar de torcer pra seleção e comer escargot de vez em quando, meu masoquismo não chega a tanto. Mas a suspeita do leitor e a curiosidade são totalmente comuns e aceitáveis. Viramos, afinal, uma imensa ilha de Caras.

Lembro das previsões de fracasso da revista quando de seu lançamento. Afinal, o Brasil não tem nem realeza nem astros de cinema - o combustível de revistas semelhantes na Europa e Estados Unidos - e não haveria, assim, material para uma revista semanal sobre a vida de "famosos". O engano é grande que chega a ponto de podemos hoje observar não só o sucesso do veículo-mãe como a proliferação de filiais, de "Quem"s, "Gente"s e afins.

O sucesso dessas publicações é um fenômeno brasileiro, porque os lá retratados devem sua fama à fama. Quer dizer, não são astros da tela platinada, não têm direito a trono algum, não são, via de regra, possuidores de talentos que durem mais do que algumas primaveras, não ganharam dinheiro em doses alopáticas, não ocupam cargo político e nem têm intenção de deixar como herança de sua breve passagem pela terra algo mais que filhos provavelmente neurastênicos, discos que entrarão nas coletâneas de piores da década e imagens que só servirão às festas de aniversário de emissoras de TV, como registro histórico. Os retratados de Caras são factóides, fenômenos de biogênese que se criam sozinhos e desintegram-se no universo das "minor celebrities" como pó cósmico. O curioso, então, é entender por que as pessoas lêem essas revistas, já que o fenomenal está mais nos leitores que nos retratados, dada a insignificância e "desinteressância" desses.

Não conduzi estudo muito profundo nem prolongado com os leitores do hebdomadário, até porque meu seguro saúde não cobre esse tipo de risco, mas pode-se dizer com certo grau de certeza que é gente que se desiludiu com o mundo externo. Caras é um mecanismo de fuga, cumprindo a mesma função - ainda que de forma mais elegante, comme il faut - da maconha fumada pelos filhos das leitoras. O fenômeno de renúncia ao mundo e retração em si mesmo é universal e típico da nossa época, em que socializaram-se as decepções e privatizaram-se os sonhos. O Brasil, dada a sua quantidade de problemas e questões a resolver, seria terreno fértil para um certo idealismo e comprometimento público comuns no resto do mundo até a década de 60 e 70, não fossem as repetidas frustrações e aparente inacessibilidade das coisas públicas.

Ser brasileiro é - ou, aliás, era - um exercício de fé. É ver o primeiro presidente eleito democraticamente em quase trinta anos confiscar sua poupança e depois ser impichado; ver deputados milionários declararem que devem sua fortuna à loteria esportiva. É um país onde as regras normais não costumam se aplicar; lugar onde as putas gozam e os traficantes cheiram, como diz o vulgo. Ainda restavam alguns bastiões de esperança: uma seleção de futebol que ganhava copas, um governo que geria as crises que criava. Nos últimos tempos, nem isso. Não resta a nós consolo algum, e não há razão para se imaginar que a coisa vá melhorar a médio prazo. O cidadão, então, tem de preencher aquele vácuo com algo, e que maneira melhor de esquecer de uma vida pobre e sem perspectivas do que viver vicariamente a vida de pessoas supostamente interessantes, que estão sempre perdendo e encontrando grandes amores, sofrendo e superando grandes dificuldades ? Caras é, assim, não uma revista de informação, mas um romance, um folhetim. É ficção travestida de realidade, é a vida que imita a arte, é o teatro das ilusões que torna a existência mais amena e a vida, afinal, suportável. Ai, que saudades dos tempos em que isso era coisa de novela da Globo...

Pra não dizer que não falei de flores

Não se preocupe o leitor que não tenho só passado meu tempo a ler bobagem nessa passagem pela terra-mãe. Duas exposições em São Paulo: os trinta grandes mestres, do MASP, e a de Julio Le Parc na Pinacoteca. A primeira é, digamos, a transposição do mundo Caras para o universo das artes: um "who's who" da pintura brasileira, com escolha de obras pouco criteriosa e textos explicativos empolados e inúteis. Dispensável. A segunda tem o toque de qualidade de Emanoel Araujo, diretor da Pinacoteca: um belo artista, montado e explicado de forma coerente e completa, com obras primorosas e conceitualmente interessantes. Vale a pena.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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