Pensata

Gustavo Ioschpe

03/07/2001

De quantas liberdades teremos de nos libertar?

Publicidade
Nos últimos seis anos, morei em cinco lugares diferentes, fiz duas faculdades, trabalhei em lugares tão distintos como uma instituição filantrópicas para crianças problemáticas de subúrbio e um banco de investimento. Nos próximos dois anos, volto de novo à universidade e devo morar em mais dois lugares diferentes. Faltando pouco mais de meio ano para completar um quarto de século de meu primeiro choro nesse mundo, não sei onde vou morar, nem o que vou fazer da vida, nem quem ou de onde será a minha mulher, nem nenhuma dessas certezas que fazem a vida mais reconfortantes.

Tive a felicidade de ter uma boa educação, que me abriu portas para ocupações igualmente recompensadoras. Agora, de uma certa forma, pago o preço por essas oportunidades: se elas proporcionam a abertura de várias portas, também trazem consigo a angústia: quanto mais portas abertas há, mais portas abertas serão abandonadas quando a decisão for feita de passar por um caminho. A liberdade, nesse caso, pesa. Será ?

Pesa porque é uma liberdade ilusória, meia-boca. Há quinhentos anos, os laços da servidão eram óbvios: você nascia em determinado estrato social de determinado feudo, e sua ocupação e modo de vida estariam pré-determinados por essa certidão de nascimento. Se a falta de liberdade sufocava - e deveria sufocar, sem dúvida - as certezas de uma vida pré-estabelecida pelo menos aliviam a tensão; a tensão de fazer escolhas, de ser diferente, do "e se...?".

O modo de produção capitalista é incompatível com a restringência das paredes de um feudo. A crença na liberdade - e sua irmã, oportunidade - é condições sine qua non. É preciso que cada um acredite no mantra de que, com o devido esforço e recebendo as mesmas oportunidades, qualquer pessoa pode chegar ao nirvana. Esse píncaro, em uma sociedade materialista, é a acumulação de bens materiais, de capital. Atingido esse alvo, reza a lenda, vem a liberdade.

Agora chega aqui pertinho e deixa eu te assoprar um negócio: não é verdade. É um castelo de cartas. Uma mentira dupla. Primeiro, porque o negócio não é tão simples assim. A despeito de todas as aparentes oportunidades, há bastantes ferramentas no lugar para que não se usurpe o fogo dos deuses, não se bagunce o coreto, não se invertam as posições entre a sala e a cozinha. Essa é a mentira número um. Essa é a que faz com que três quartos do mundo viva em estado de pobreza, pior do que estava no tempo de Dante, e mesmo assim continue levando o barco em diante (pelo menos por agora. Sic transit...).

Mas o pior é a mentira número dois. Porque mesmo quem vence nesse sistema não atinge o nirvana. Muito dinheiro traz à pessoa exatamente isto: muito dinheiro. A acumulação de dinheiro supre uma parte tão ínfima das potencialidades e sonhos do ser humano que os vencedores só se sentem satisfeitos porque, via de regra, são doutrinados e ignorantes que chega para não saber o que há além do horizonte.

E quando você enxerga o pote além do arco-íris, a escolha parece clara: ou você o persegue, ou fica à margem da civilização. Não parece haver solução de compromisso possível porque, não por acaso, a marcha da civilização se baseia na supressão de uma existência hedonística. A escolha que se dá, especialmente com o nível de complexidade hoje inerentes a quase qualquer profissão, é: ou você é um workaholic, ou vá viver numa colônia hippie. Sem meios termos. E, com a provável exceção das profissões de ator pornô e degustador de cerveja, sua conciliação é impossível.

A pergunta que se impõe, assim, não é que porta escolher, porque todas dão mais ou menos no mesmo lugar, mas como sair da casa. As escolhas, dentro da estrutura vigente, são insignificantes. A pergunta é como mudar a estrutura. Tradicionalmente, só há duas formas: de fora, pela força, ou de dentro, pela argúcia. Dado que os detentores do poder bélico são, não por acaso, os que "deram certo", a primeira opção parece improvável. A alternativa de ação interna esbarra na ilusão das massas e na flexibilidade de um regime que vai cedendo migalhas capazes de conter o descontentamento cada vez que uma crise sistêmica se aproxima. Se a curto prazo não há razão para otimismo, a longo há que se ter a esperança e visão histórica de notar que nenhum regime repressivo mantido por uma minoria resistiu por muito tempo a pressão da maioria. Esse não será exceção.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca