Gustavo Ioschpe
10/07/2001
A única certeza, a esse ponto, é de que haverá um segundo turno. Nenhum dos candidatos parece ter suficiente musculatura para vencer a contenda logo no primeiro. Outra aparente verdade é que Lula será um dos concorrentes nesse segundo turno. Muito provável, mas não líquido e certo. Se estourar uma crise econômica grave, não ficaria surpreso de ver dois candidatos de perfil mais técnico, como Serra e Ciro, por exemplo. Ainda que as crises em geral beneficiem as oposições e o PT em particular, uma crise com volta de inflação, descontrole do dólar e aumento maciço de desemprego tende a facilitar a vida daqueles que já consertaram o problema uma vez (Ciro e Serra são, de uma forma ou de outra, caudatários do PSDB do Real). E haveria a possibilidade de uma crise maior ? Em caso de desvalorização e calote da Argentina, diria que sim. Haveria uma corrida especulativa forte ao dólar, retirada significativa de investimentos estrangeiros e a necessidade de aumentar ainda mais os juros para estancar a sangria. Pois o juro mais alto atrai o investidor internacional, que precisa vender dólares e comprar reais para investir no país, com isso valorizando a moeda local e melhorando a balança de pagamentos brasileira. A maioria dos analistas afastava a possibilidade de colapso argentino até 2002, depois do êxito portenho com a operação de troca de títulos, mas a conjuntura Argentina não pára de piorar, a crise política parece não ter limites e os próprios diplomatas argentinos, como reportou Clóvis Rossi, já estão confidenciando a seus pares brasileiros que o colapso pode vir daqui a dois ou três meses. Oremos.
Caso não haja esse desastre, voltamos então a situação mais provável, com Lula no segundo turno. Resta saber quem seria seu adversário. Posso estar sendo otimista demais, mas não vejo possibilidades para Itamar e Garotinho. Acho que a população brasileira, malgrado suas lideranças, não embarcam mais nesse tipo de populismo. Itamar é um desequilibrado e Garotinho um evangélico fanático, e não faz bem transformar o palácio do Planalto, por mais feio que seja, em hospício ou igreja. Que, aliás, não se diferenciam muito.
Sobram então Ciro e Serra. Este já é dado como carta fora do baralho. Me parece um engano. Há dois meses atrás, Serra tinha 10% nas pesquisas e mais 15% a 20% do eleitorado dizia-se disposto a votar no candidato apontado por FHC. O que aconteceu de lá para cá ? O apagão. Um desastre, uma incompetência incrível, é verdade. Mas eleição se decide nos últimos dois meses de campanha, lá por agosto e setembro do ano que vem. Até lá, o inusitado racionamento energético já terá virado rotina e o governo fará grande fanfarra caso não ocorram apagões. O desencanto que vitimou a candidatura Serra poderá se dissipar e alçá-lo tão rapidamente como o derrubou.
Hoje, porém, a aposta mais viável é Ciro Gomes. Não pelo bom posicionamento na pesquisa geral, mas por outro fator pouco comentado: na última pesquisa Datafolha, quando se vêem as estatísticas por classe social e nível de instrução, há quase um empate técnico entre Ciro e Lula nas classes mais abastadas e instruídas. Esses são os formadores de opinião. Daí costumam sair os presidentes da República. Ainda que Lula tenha moderado o discurso e o PT tenha se tornado mais palatável, não se iluda o leitor: mesmo que o empresariado local talvez não deixe o país em caso de vitória petista, como previra Mário Amato em 1989, ele certamente não gosta do "sapo barbudo" e vai jogar seu pe$o em qualquer candidato de oposição. Não é pouca coisa. E, além das diferenças ideológicas, todos esses comensais do Alvorada certamente prefeririam ter na cadeira de primeira-dama a bela Patrícia Pillar à companheira Marisa.
Indifolha Online
Clique aqui, caro leitor, e diga quem você gostaria de ter como primeira-dama da nação (independentemente de seus maridos).
Vitrine
A experiência de poder talvez seja o maior complicador do PT nas eleições do ano que vem, para surpresa do próprio partido. Suas administrações mais importantes - a prefeitura de São Paulo e o governo do Rio Grande - estão sendo um desastre. No RS, por culpa do próprio Olívio Dutra, um defensor do "desenvolvimento espraiado" e ênfase na agricultura às portas do século 21. Em São Paulo, mais por culpa de duas administrações calamitosas que deixaram a cidade na bancarrota. Mas Marta também joga lenha na fogueira. Inventa de abandonar o marido por um franco-argentino logo ao assumir a administração da maior cidade da América Latina, depois vai passar uma semana na Suíça fazendo-se sabe-se lá o quê e com quem e tira quase uma semana de folga ao operar uma apendicite. Alguém chame o Duda Mendonça, urgente!
Tem certeza?
Cada passagem pelo Brasil traz os seus pequenos choques, e dessa vez não foi diferente. Destaque especial para o Show do Milhão, do Siiilllllvio. A popularidade desse senhor é prova daquela máxima rodrigueana que as mulheres normais gostam de apanhar, só as neuróticas reclamam. Ao que parece, os homens também. Silvio Santos tem o dom (?) de pegar qualquer produto televisivo e transformá-lo num festival de humilhação de gente humilde, pra que outros humildes possam rir da sua cara. Antes eram os aviõezinhos do Topa Tudo, agora são as perguntas infelizes do Show. Deu pena daquela gente, tentando conseguir seus dez, vinte mil reais pra pagar a casa da mãe ou a prestação do carro e tendo que ouvir o apresentador perguntar se ele tinha certeza que a alternativa dois era a resposta certa para a pergunta: "Qual animal marinho é usado como esponja de banho?". Respostas: Ostra, Coral e, alternativa três....Esponja! Mas, oooooi, tem certeza? Posso perguntar?
Entre Patrícia Pillar e a companheira Marisa
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Churchill já dizia que, em política, uma semana é muito tempo. Se isso é verdade para um sistema bipartidário da mais antiga democracia do mundo, o que dizer então de uma democracia adolescente, fragmentada e de lealdades trocadas e vendidas no mercado das almas? Por isso, é bom começar qualquer análise e esboço de previsão a respeito das eleições presidenciais do ano que vem com grande dose de cautela. Feito o aviso, vamos ao exercício.A única certeza, a esse ponto, é de que haverá um segundo turno. Nenhum dos candidatos parece ter suficiente musculatura para vencer a contenda logo no primeiro. Outra aparente verdade é que Lula será um dos concorrentes nesse segundo turno. Muito provável, mas não líquido e certo. Se estourar uma crise econômica grave, não ficaria surpreso de ver dois candidatos de perfil mais técnico, como Serra e Ciro, por exemplo. Ainda que as crises em geral beneficiem as oposições e o PT em particular, uma crise com volta de inflação, descontrole do dólar e aumento maciço de desemprego tende a facilitar a vida daqueles que já consertaram o problema uma vez (Ciro e Serra são, de uma forma ou de outra, caudatários do PSDB do Real). E haveria a possibilidade de uma crise maior ? Em caso de desvalorização e calote da Argentina, diria que sim. Haveria uma corrida especulativa forte ao dólar, retirada significativa de investimentos estrangeiros e a necessidade de aumentar ainda mais os juros para estancar a sangria. Pois o juro mais alto atrai o investidor internacional, que precisa vender dólares e comprar reais para investir no país, com isso valorizando a moeda local e melhorando a balança de pagamentos brasileira. A maioria dos analistas afastava a possibilidade de colapso argentino até 2002, depois do êxito portenho com a operação de troca de títulos, mas a conjuntura Argentina não pára de piorar, a crise política parece não ter limites e os próprios diplomatas argentinos, como reportou Clóvis Rossi, já estão confidenciando a seus pares brasileiros que o colapso pode vir daqui a dois ou três meses. Oremos.
Caso não haja esse desastre, voltamos então a situação mais provável, com Lula no segundo turno. Resta saber quem seria seu adversário. Posso estar sendo otimista demais, mas não vejo possibilidades para Itamar e Garotinho. Acho que a população brasileira, malgrado suas lideranças, não embarcam mais nesse tipo de populismo. Itamar é um desequilibrado e Garotinho um evangélico fanático, e não faz bem transformar o palácio do Planalto, por mais feio que seja, em hospício ou igreja. Que, aliás, não se diferenciam muito.
Sobram então Ciro e Serra. Este já é dado como carta fora do baralho. Me parece um engano. Há dois meses atrás, Serra tinha 10% nas pesquisas e mais 15% a 20% do eleitorado dizia-se disposto a votar no candidato apontado por FHC. O que aconteceu de lá para cá ? O apagão. Um desastre, uma incompetência incrível, é verdade. Mas eleição se decide nos últimos dois meses de campanha, lá por agosto e setembro do ano que vem. Até lá, o inusitado racionamento energético já terá virado rotina e o governo fará grande fanfarra caso não ocorram apagões. O desencanto que vitimou a candidatura Serra poderá se dissipar e alçá-lo tão rapidamente como o derrubou.
Hoje, porém, a aposta mais viável é Ciro Gomes. Não pelo bom posicionamento na pesquisa geral, mas por outro fator pouco comentado: na última pesquisa Datafolha, quando se vêem as estatísticas por classe social e nível de instrução, há quase um empate técnico entre Ciro e Lula nas classes mais abastadas e instruídas. Esses são os formadores de opinião. Daí costumam sair os presidentes da República. Ainda que Lula tenha moderado o discurso e o PT tenha se tornado mais palatável, não se iluda o leitor: mesmo que o empresariado local talvez não deixe o país em caso de vitória petista, como previra Mário Amato em 1989, ele certamente não gosta do "sapo barbudo" e vai jogar seu pe$o em qualquer candidato de oposição. Não é pouca coisa. E, além das diferenças ideológicas, todos esses comensais do Alvorada certamente prefeririam ter na cadeira de primeira-dama a bela Patrícia Pillar à companheira Marisa.
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A experiência de poder talvez seja o maior complicador do PT nas eleições do ano que vem, para surpresa do próprio partido. Suas administrações mais importantes - a prefeitura de São Paulo e o governo do Rio Grande - estão sendo um desastre. No RS, por culpa do próprio Olívio Dutra, um defensor do "desenvolvimento espraiado" e ênfase na agricultura às portas do século 21. Em São Paulo, mais por culpa de duas administrações calamitosas que deixaram a cidade na bancarrota. Mas Marta também joga lenha na fogueira. Inventa de abandonar o marido por um franco-argentino logo ao assumir a administração da maior cidade da América Latina, depois vai passar uma semana na Suíça fazendo-se sabe-se lá o quê e com quem e tira quase uma semana de folga ao operar uma apendicite. Alguém chame o Duda Mendonça, urgente!
Tem certeza?
Cada passagem pelo Brasil traz os seus pequenos choques, e dessa vez não foi diferente. Destaque especial para o Show do Milhão, do Siiilllllvio. A popularidade desse senhor é prova daquela máxima rodrigueana que as mulheres normais gostam de apanhar, só as neuróticas reclamam. Ao que parece, os homens também. Silvio Santos tem o dom (?) de pegar qualquer produto televisivo e transformá-lo num festival de humilhação de gente humilde, pra que outros humildes possam rir da sua cara. Antes eram os aviõezinhos do Topa Tudo, agora são as perguntas infelizes do Show. Deu pena daquela gente, tentando conseguir seus dez, vinte mil reais pra pagar a casa da mãe ou a prestação do carro e tendo que ouvir o apresentador perguntar se ele tinha certeza que a alternativa dois era a resposta certa para a pergunta: "Qual animal marinho é usado como esponja de banho?". Respostas: Ostra, Coral e, alternativa três....Esponja! Mas, oooooi, tem certeza? Posso perguntar?
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Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas E-mail: desembucha@uol.com.br |
