Pensata

Gustavo Ioschpe

25/07/2001

Ácaro Barbalho

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A literatura e a História não prometem muitas lições didáticas, mas apontam algumas verdades que não deveriam ser esquecidas. Desde pelo menos Ovídio, o mundo ocidental conhece uma história reprisada ad nauseam tanto na ficção quanto na realidade: aquela de Ícaro.

Ícaro era um jovem grego aprisionado com seu pai, Dédalus, em Creta. Seu pai construiu asas com ligaduras de cera para fugir dos domínios do rei Mino, e instruiu seu filho a voar a meia altura. Ícaro ignorou os conselhos paternos e, embevecido pela vaidade e ambição, decidiu chegar mais perto do Sol. Chegou perto da bola de fogo e, como era de se esperar, suas asas derreteram e Ícaro estatelou-se, pagando com sua vida pela ousadia desabrida. A literatura universal não se cansou de martelar o tema da inevitabilidade do desastre quando nos rendemos à vaidade e vamos além de nossas capacidades - do Macbeth de Shakespeare (aliás, um notório copiador de Ovídio) ao Santiago de Hemingway, histórias não faltam para ilustrar esse axioma.

A ascensão e queda de Jader Barbalho, o nosso Ícaro (ou talvez Ácaro), é um tributo a, antes de mais nada, sua ignorância. Se tivesse lido Ovídio, talvez não incorresse no erro que incorreu. Sua vaidade e obsessão pelo poder impediram-lhe de notar que ele podia fazer suas bandalheiras no Pará, onde domina a imprensa e as consciências, e poderia se safar. Podia até se eleger senador que, no meio de tantos picaretas, provavelmente não iam lhe incomodar. Mas Jader foi, ao que tudo indica, roubando um pouco daqui, um pouco dali e foi-se acostumando à impunidade a ponto de achar que poderia ser presidente do Senado e, depois, candidato a vice-presidente da chapa governista. Aí, excedeu-se, e atraiu a si mesmo os germes de sua desgraça. Comprou briga com quem não podia e hoje, ao que tudo indica, está condenado a voltar ao seu Pará natal, sem o cargo pomposo que havia conquistado e talvez sem algumas bichinhas do seu ranário.

A trajetória de Jader revela um erro de estimativa política brutal não só dele, mas também de seus aliados. Os governistas queriam manter-lhe para que o PMDB não caísse no colo de Itamar Franco e acharam que, em ano eleitoral, os demais partidos também não quereriam fortalecer um adversário com chance de chegar ao segundo turno. Os erros foram achar que o pior dos incidentes jaderianos já haviam passado, que a população se esqueceria, e que o homem conseguiria segurar um bando de fisiológicos como o PMDB. Foram derrotados pela constatação que, a cada semana, surgia um escândalo novo da caixa de Pandora e que a opinião pública já não tolera mais esse tipo de desmando. Assim, ironicamente, o apoio tucano-pefelê a Jader só fez com que piorasse ainda mais a imagem do governo, o que fortalece ainda mais a candidatura Itamar, o que, por sua vez, só divide ainda mais o PMDB e enfraquece Jader e o governo, num ciclo vicioso que terminará com o paraense longe do senado e seus aliados ainda mais longe do poder no ano que vem. Que o próprio Jader tenha cometido esse erro de avaliação em causa própria é compreensível, mas que o tucanato dantes ilustrado tenha embarcado na jangada só atesta para o fato de que a mentalidade "esqueçam o que eu escrevi" vem sendo estendida para todos os outros autores e todo o conhecimento acumulado da história universal.

Semana passada semana que vem

Gostaria de ter usado a coluna para comentar reações à coluna da semana passada. Dada a intromissão do digníssimo colega Barbalho, fica pra semana que vem.

É rir pra não chorar

Piadas costumam expressar bem o espírito de um lugar e época. A que segue abaixo traduz os acontecimentos das PMs do Brasil melhor do que qualquer análise.

"E naquele dia ensolarado, ia ser realizado um teste definitivo pra definir a melhor Polícia do planeta. Os finalistas eram: FBI, Scotland Yard e PM de São Paulo.

O teste consistiria no seguinte: um coelho seria solto na floresta, cabia a cada polícia achá-lo e trazê-lo de volta. Quem fizesse isso no menor espaço de tempo, seria o vencedor.

Soltaram o coelho; por sorteio, o FBI foi designado pra tentar primeiro.

Usando fotos de satélite, analise de DNA dos pelos encontrados, um cerco gigantesco a floresta, com dezenas de helicópteros e centenas de homens, o coelho foi capturado em 3 horas e 14 minutos.

Agora era a vez da Scotland Yard. Usando analistas de comportamento, psicólogos, estudiosos da psique leporídea, mais um batalhão anti-bombas e anti-terroristas com óculos de visão noturna, armaram uma armadilha com uma coelha usando passaporte irlandês falso e uma cenoura com sonífero. Capturaram o coelho em 1 hora e 30 minutos, o que arrancou reações de espanto na comissão julgadora.

Mais uma vez soltaram o coelho, e a nossa valorosa PM foi mostrar serviço; saíram numa Veraneio 74, com os pára-lamas cheios de massa, 4 pneus carecas e um pedaço de fio amarrado na tampa traseira (o fecho da tampa caíra em 1982), com 8 policiais, com mais de meio corpo para o lado de fora das janelas da perua, batendo nas portas com revólveres .38 em punho, em alta velocidade gritando "Uh! Terere...!" adentraram a floresta; retornaram em 20 minutos, deixando atônitos os juízes, o FBI e a Scotland Yard. Abriram a tampa do camburão, e de lá saiu um PORCO-ESPINHO cheio de hematomas, escondido e assustado, que gritava:

- EU SOU UM COELHO, EU SOU UM COELHO!!!!"
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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