Pensata

Gustavo Ioschpe

31/07/2001

Papo epilético

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Meu pai tem uma expressão da qual ele gosta mas acho que nunca entendeu, e eu idem. Quando uma conversa tá meio estranha, ele diz que é um "papo epilético". Racionalmente, não faz muito sentido, porque um epilético tem um papo normal quando não está surtando e, quando surta, o ato de engolir a língua inibe qualquer construção verbal que lembre um "papo". Mas a expressão entrou para o léxico familiar, e me veio à cabeça nessa semana que passou, quando lia os e-mails sobre a coluna da semana retrasada.

Falava ali da aparente perniciosidade das religiões organizadas e de sua influência no impedimento de movimentos sociais estruturalmente reformadores. E os e-mails, como sói ser, foram apenas de dois tipos: de elogios rasgados ou de críticas peremptórias, do tipo "Jesus vai te salvar", "você está errado, mas Deus ainda o ama", etc.

São críticas - e, aliás, elogios - essencialmente personalistas, onde as idéias foram esquecidas e servem apenas como trampolim para o exercício da crítica pessoal. Tive reação parecida e ainda mais exacerbada há alguns anos, quando escrevi sobre A Genealogia da Moral, de Nietzsche, e os comentários foram "não li, não vou ler e gostei" ou, mais comumente, "não li, não vou ler e não gostei".

Não há nada mais triste para alguém que pretende discutir idéias do que esse tipo de recepção. Me interessei pela escrita e pelo colunismo em particular em larga escala pela influência que outros colunistas tiveram na minha formação. Me lembro com prazer de ler Paulo Francis e Verissimo, entre outros, na infância, e ficar matutando sobre aquilo que estava escrito, comprando e lendo os livros mencionados, e querendo ler mais livros ainda para entender melhor. E tive a sorte de ler muita gente com muita opinião diferente, o que faz com que o sujeito dificilmente adote uma posição monolítica. Lia e leio gente que às vezes me exaspera - Francis, Olavo de Carvalho, Roberto Campos - e, passados os cinco minutos iniciais de sangue quente, procurava pensar sobre os argumentos ao invés de destratar os autores.

Segui a atividade jornalística na esperança de contribuir para a discussão e de gerar questionamentos. Não tenho atividade política nem qualquer tipo de militância e não estou querendo convencer ninguém de nada - isso é mau jornalismo, má postura intelectual. O que gostaria de alcançar com esses textos ? Apenas fazer com que as pessoas pensassem. Não tenho a posição paternalista e pretensiosa de ensinar verdades e arrebanhar adeptos; a priori, acredito na capacidade de raciocínio de qualquer leitor, e ficaria contente se essas linhas impelissem alguém a formar sua própria visão, mais do que adotar a minha.

Por isso essas críticas e elogios personalistas são frustrantes. Significam que as idéias, os conteúdos do texto já foram descartados - ou sumariamente aceitos, ou igualmente rejeitados. Ou seja, que o leitor estava na posição intelectual x, e de lá não se mexeu um mícron. E olha o texto baseado na conformidade com o seu próprio posicionamento já previamente estabelecido: se o autor exprime posicionamento parecido com o meu, me sinto satisfeito e reconfortado, e então escrevo para elogiar-lhe (um elogio que, na verdade, destina-se a produzir efeito benéfico mais no que elogia do que no elogiado); se, ao contrário, o posicionamento ali exposto confronta os meus valores pessoais, me sinto ameaçado e impelido a desqualificar o autor pois, desqualificado o autor, invalidados terão sido seus argumentos. Essa reação, mais do que limitada, é limitante. Melhor seria se idéias impelissem a procurar mais idéias.

Talvez, provavelmente, seja falta de habilidade deste escriba. Talvez seja um fenômeno estatístico: sempre quem responde a enquetes e questionamentos é quem se sentiu incomodado ou agradado ao extremo para perder seu tempo escrevendo, e vai que a grande maioria silenciosa está correndo pra biblioteca toda quarta à noite ? Ou talvez, como queria Francis, quem escreve pra jornal é louco mesmo e, entre loucos, o único papo possível é esse. Epilético.

Catch 22

Você acha que, na média, pessoas que escrevem para jornais e seus colaboradores são:

a) Loucas
b) Sãs

Clique na sua resposta e descubra o Catch 22.

Dom Eusébio, o senhor acha que o Brasil se classifica pra Copa ?

Há milhares, talvez milhões, de boas razões pelas quais os clérigos foram alijados do poder temporal e confinados a suas paróquias. Essas razões têm nome e um dia tiveram até endereço: são todos aqueles mortos pelas perseguições religiosas ocorridas quando líderes espirituais estavam no poder.

Preferindo ignorar a lição, o novo arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eusébio Scheid, deu uma entrevista desastrosa na Folha desse domingo. Deu palpites sobre desde o sistema carcerário até o FMI. No meio, citou filósofos que ele obviamente não conhece. Errou duplamente.

Ao vincular a Igreja com o governo, porque a Igreja Católica tem um histórico vergonhoso em sua passagem pelo poder, no tempo em que os papas detinham o poder e promoviam carnificinas de deixar Nero com inveja. Época não por acaso conhecida como Idade das Trevas.

Ao falar de filosofia, porque filosofia e religiosidade são antagônicas. Pois se filosofia é o exercício da investigação imparcial para chegar à verdade, a intelectualidade religiosa tem como função torcer a realidade para que ela se enquadre ao dogma das escrituras.

Dom Eusébio perdeu uma boa chance de observar aquele preceito bíblico: se Deus quisesse que falássemos mais do que ouvimos, teria nos dado duas bocas e um ouvido, e não ao contrário.

Recado do céu: Au! Au!

Juro que não é chacota. Pesquisa recente divulgada pela rede ABC mostrou que quase metade (43%) dos americanos acham que seus animais de estimação têm alma e, depois de mortos, vão pro céu. E depois cês vêm me dizer que religiosidade é racional ?!

Au! Au! 2

A visão dos "pets" com alma não havia, até agora, convencido as principais fés monoteístas. Mas, a se julgar pela evolução das religiões, sou capaz de apostar que elas conseguirão abrir exceções e mudar regras para admitir essa nova categoria de habitantes dos reinos dos céus. As religiões são, afinal, muito mais flexíveis e pragmáticas que seus fiéis pensam. Uma boa leitura no assunto, pra quem se interessa, é A History of God (Uma História de Deus), de Karen Armstrong.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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