Pensata

Gustavo Ioschpe

08/08/2001

Como se Lula fosse o problema...

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A retórica das forças reacionárias é engraçada. Há dez anos, criticavam Lula por ele ser um monstro de esquerda comedor de criancinha. Hoje, quando o PT se sai com um programa tipicamente social-democrata, os mais empedernidos dizem que não passa de manobra sub-reptícia para ganhar o poder e, depois, mostrar a verdadeira face. É um cul de sac conveniente: quando o homem diz que é de esquerda, é um tarado; quando diz que mudou está, na verdade, mentindo, e não deixou de ser o tarado de outrora, agora apenas mais esperto e dissimulado.

Os mais razoáveis notam a tautologia do raciocínio e mudam de tática. Aceitam o abrandamento de Lula em seu valor de face, mas apelam para duas ressalvas igualmente incontornáveis: ou chamam o petista de burro e despreparado, ou advertem para a possibilidade de Lula virar refém das alas radicais do partido. Sobre o primeiro argumento discorrerei com mais calma em outra oportunidade, mas vale a pena lembrar que Collor e Fernando Henrique Cardoso foram presidentes poliglotas, instruídos, sofisticados e charmosos, e seus governos foram o que todo mundo viu. Mas o mais interessante é o segundo, até porque é mais realista e amedrontador.

Pois diz-se esse "Lula vai sucumbir aos radicais do partido" como se tal guinada fosse obra do acaso, geração espontânea. A não ser que Lula esteja realmente falseando uma imagem moderada para depois cantar a Internacional Socialista e sair de cueca vermelha na primeira parada de Sete de Setembro (possibilidade desabonada tanto pela seriedade de sua biografia quanto pela experiência de poder do PT em diversas instâncias), uma eventual deriva à esquerda não seria casualidade, mas fruto de movimento político justificado. Explico-me.

A tarefa daqueles que querem reformar ou revolucionar um país é, em primeiro lugar, obter o poder. E, em segundo, mantê-lo. Parece óbvio, mas não é tanto assim, porque quando se fala de uma presidência de oposição ouvem-se palavrões graúdos como "governabilidade", "quebra das instituições democráticas", etc. Tais termos são jogados ao vento sempre carregados de análises correlatas sobre a capacidade de o povo brasileiro tolerar um governo oposicionista, a maturidade de nosso eleitorado, etc.

Não passa de uma falácia. Pois quem tolera ou não tolera um governo e o mantém ou derruba em nosso país não é o povo, o eleitorado, mas um círculo bastante restrito de empresários, políticos e formadores de opinião, freqüentemente preocupados mais (ou unicamente) com seus ganhos pessoais do que com a evolução político-social da nação. Se esses elementos-chave decidirem retirar seu apoio de uma presidência de esquerda e passarem a boicotá-la ativamente, não restará ao presidente eleito alternativa que não a de migrar para o outro extremo. Pois a regra de sobrevivência política manda que se estabeleça uma base de poder, e se os elementos de centro-direita dessa base dela se retirarem, não resta ao fiel da balança alternativa que não a de se deslocar para a esquerda na tentativa de equilibrar forças. Cada movimento de uma força em direção aos radicais de seu lado leva a outra a fazer o mesmo, num ciclo vicioso, exatamente como aquele que apeou Jango do poder em 1964 e mergulhou o país nas mais escabrosas trevas.

A questão da sucessão não é, assim, tanto de educar ou abrandar Lula, mas as oligarquias nacionais. Gostar-se-ia de vê-las agüentando do próximo presidente eventuais catástrofes da mesma dimensão das cometidas pelo atual mandatário, como uma economia recessiva, desemprego, juros descabidos e cortes de energia. Caso tal simpatia não esteja disponível, pede-se - aliás, exige-se - pelo menos que respeitem a ordem democrática e a vontade das urnas.

Que papo!

A amostra mais triste do deslumbramento e degenerescência dessa presidência se dá quando FHC manda carta manuscrita a Caetano Veloso para lhe explicar a corrupção governamental. Seria de se perguntar ao presidente da República porque ele julga Caetano digno dos esclarecimentos mas não a população que o levou ao poder, ainda ansiosa por entender as corrupções e incompetências múltiplas cometidas por essa gestão.

A conversa entre os dois, se ocorrer, não deixará de ser um símbolo do declínio brasileiro. FHC e Caetano Veloso são pseudo-ícones com prazo de validade vencido. Continuam falando e fazendo suas declarações bombásticas (Caetano) e inócuas (FH) que ninguém mais quer ouvir. Todos gostaríamos que se aquietassem, fossem para seus cantos e nos deixassem desfrutar as memórias do professor combativo e do artista iconoclasta das décadas de 60 e 70 sem termos de sofrer a interferência de suas versões temporãs e acabadas.

Caetano, aliás, nem precisava ouvir o presidente para dar uma boa resposta às suas explicações. Não precisaria nem inventar nenhum novo termo ou dar chilique. Bastaria aquela canção antiga: "Esse papo seu tá qualquer coisa / Você já tá pra lá de Marrakesh".

Nova York por aí

Se o velho Francis ainda estivesse por aí, talvez diria aos caipiras que vêm a Nova York fazer compras que pelo menos aproveitassem um pouco do que a cidade tem a oferecer quando as lojas se fecham. Opções não faltam. Em teatro, quem se dispuser a pagar preços altos ou aguentar filas longas pode ver "The Producers" ou conferir Shakespeare ou Chekhov ao ar livre, no Central Park, com Merryl Streep. Os museus estão aí com material interessante: no Metropolitan, uma nova ala de impressionistas e pintores franceses; o Guggenheim segue seus esforços de marketing como uma mostra do trabalho de seu arquiteto Frank Gehry. A temporada musical vale a pena: o festival Mostly Mozart, do Lincoln Center, já teve Yitzhak Perlman e Pinchas Zuckermann tocando juntos a Sinfonia Concertante, o Emerson String Quartet, e ainda contará com Emanuel Ax. Para quem se dispuser a viajar mais um pouco, o idílico festival de Tanglewood oferece um fechamento de platina no final do mês: Zubin Mehta regendo a Orquestra de Israel tocando a Nona Sinfonia, de Beethoven.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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