Gustavo Ioschpe
15/08/2001
Tanto quanto pude observar, o meu táxi estava na pista certa, ocupando o espaço devido. A motorista do outro carro queria apenas mais espaço, mais folga, e meteu a mão na buzina. Quando viu o que havia se passado, o taxista meteu a mão na sua buzina, nessa maneira automotiva de xingar o próximo. A senhorita "afro-americana" colocou seu dedo médio para fora da janela e gritou "Fuck you!" ao pobre motorista, que respondeu da mesma maneira.
Ele estava indignado, e se virou para mim como que pedindo solidariedade. Concordamos que ele tinha razão. Mas eu adverti, em tom de brincadeira, que ele tomasse cuidado com o que iria dizer, pois podia levar um processo por discriminação. Aí ele explodiu. "Exatamente! É insuportável ! Quer saber do que mais ? Eu odeio esses 'fucking niggers'. Eu sei que a gente não deve dizer isso, mas não dá, eu odeio esses 'fucking niggers'".
Este momento ofereceu um poderoso insight sobre a mentalidade americana. A palavra "nigger" ("crioulo" talvez seja a melhor tradução) é hoje mais proibida e carregada do que qualquer outro termo da língua inglesa. Pronunciá-la em uma roda social condena o pronunciante ao ostracismo irrevogável. Até aí, tudo bem. Mas o curioso é que as pessoas tendem a condenar em grupo o que sancionam em suas vidas privadas; ficam horrorizadas com demonstrações públicas de racismo - ou de homofobia, ou de chicanofobia, ou de anti-semitismo, ou de qualquer outra manifestação politicamente incorreta - mesmo portando-as em seu íntimo. Até aí - talvez dirá o observador mais criterioso - nada demais: a sobrevivência em sociedade é fundada na supressão de desvios individuais, substituídos pela adoção de convenções comunais. Sem hipocrisia não há civilização.
Ok. Mas o realmente interessante do caso americano é que a hipocrisia começa a virar fato. Nas últimas décadas, aumentou o número de casamentos inter-raciais, o padrão de vida de minorias subiu substancialmente e sua percepção em pesquisas de opinião idem. Há que se lembrar que, apesar de toda a retórica humanista e libertadora, os Estados Unidos eram o país em que brancos e negros não comiam no mesmo restaurante ou sentavam juntos no ônibus há meros quarenta anos. E por que houve essa melhora?
Quero crer que por uma pressão social tão forte que até os pais têm medo de confessar seus preconceitos aos filhos. Os sulistas da Klu Klux Klan não viraram, imagino, pessoas abertas, mas seus filhos muitas vezes sim. E por que os Estados Unidos empreenderam esse esforço para aceitar a diversidade? Para acabar com ela, eis a minha resposta.
Como assim? Assim, ó: nós, brancos, te estendemos a mão e paramos de te discriminar, desde que você fique mais como nós. Desde que aceite mergulhar no "melting pot" e veja suas características fundidas às características do país, ou seja, dos brancos que o fundaram e o administram. E foi isso que aconteceu. Hoje há dois tipos de negros - e de latinos, chineses, judeus, etc. - na sociedade americana. Há os que adotaram nomes americanos, usam roupas "normais", alisam o cabelo, ouvem música pop e falam inglês; a esses, tudo. E há uma minoria que se veste diferente, usa cabelo diferente, dá nomes africanos a seus filhos, ouve rap no volume mais alto, fala "ebonics" e buzina quando quer mais espaço. Esses são os "niggers". Eles são diferentes e rebeldes. E são rejeitados.
A dicotomia é reconhecida e ironizada por um comediante negro chamado Chris Rock que reclama dos "niggers". Sempre que os afro-americanos estão fazendo um progresso, vêm os niggers e estragam tudo, diz Rock, para ainda completar: eu odeio niggers. Assim como ele, provavelmente grande parte da população branca, mas que não ousa manifestar sua opinião porque, afinal, acredita no mantra de que vive na terra da oportunidade e que gosta de negros tanto quanto de brancos ou amarelos. Desde que, claro, o negro tente ser branco. E, pelo amor de Deus, não buzine no meio da rua.
E no Brasil?
Antes de nos regozijarmos com a desgraça dos gringos, há que se olhar para o próprio umbigo. O Brasil, apesar de importantes diferenças de história, demografia e personalidade, também se esconde atrás de uma fantasia. Enquanto os americanos fingem que o racismo já acabou, os brasileiros professam que nunca existiu. É bobagem. A disparidade de renda entre brancos e negros em nosso país é brutal, e qualquer conhecedor de estatística saberá que não se pode culpar o acaso. Ainda que por um lado a nossa solução gere uma convivência mais pacífica e menos reprimida que a americana, por outro é mais cruel, pois não proporciona ferramenta nenhuma de combate aos discriminados. Um problema que não existe não pode, afinal, ser eliminado.
Só bobagem
Volto agora aos Estados Unidos depois de dois anos fora, e estou absolutamente impressionado com o desaparecimento das notícias da vida norte-americana. Antes você ouvia notícias e análises nos noticiários televisivos, nas revistas semanais, nos jornais e até, se quisesse, 24 horas por dia na CNN. Hoje, os noticiários televisivos estão comprimidos em meia hora, às 18h30, entre programas sobre Hollywood, as revistas semanais como Time e Newsweek viraram um pastiche de notas engraçadinhas, a CNN tem talk-shows e especiais sobre personalidades e os jornais vão sendo cada vez mais invadidos pelo jeito USA Today de fazer a coisa: muito gráfico, muita foto, muita bobagem, pouco texto e quase nada de análise. A alienação é total e completa. Não é só deprimente, mas assustador.
Contra a maré, 1
Venho lendo com certa incredulidade a cobertura da seleção brasileira na imprensa, especialmente desde que "Big Phil" assumiu o cargo. E, sinceramente, só consigo entender tamanho negativismo como uma combinação de bairrismo, birra pessoal e ideologização de terceira. Bairrismo pelo fato de Felipão ser um gaúcho guasca do interior do Rio Grande que não abandonou seu estilo para virar um monstro sagrado, um vitorioso inconteste, tanto no Grêmio quanto no Palmeiras. Birra pelo fato do técnico nunca ter se curvado à grande imprensa paulista, nem ter cortejado ou bajulado jornalistas como costumam fazer outros treinadores, mais vaidosos. E ideologização de terceira de gente que quer ver a CBF de Ricardo Teixeira derrotada, que acha que a não-classificação para a Copa ajuda uma vitória da oposição no ano que vem, etc. Essas mesquinharias não valem a tristeza de cento e setenta milhões de pessoas, a maioria das quais não têm o conforto dos profissionais de imprensa em sua vida classe média-alta.
Estou confiante numa vitória brasileira hoje à tarde e, mais importante, torço muito para que ela ocorra, a despeito das supostas safadezas da CBF, da grossura de Felipão e, especialmente, do desprezo mesquinho de certos "philosophes".
Contra a maré, 2
Semana passada falou-se muito na morte de Jorge Amado, com a tradicional deferência conferida aos mortos que eu nunca entendi. Não ia dizer nada, mas já que tanta gente melhor do que eu já falou tão bem do baiano, sinto-me à vontade para dizer o que penso, sabendo que não moverá o consenso positivo em um milímetro. Só li um livro de Amado, Capitães da Areia, e achei um porre. Forçado, estilisticamente pobre, engessado nos moldes da realidade definida pelo Partido Comunista que Amado serviu durante décadas. Pronto, tá dito.
De quando a versão suplanta o fato
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Estava num táxi esses dias, dirigido por um jovem americano, branco. De repente ouve-se um sonoro buzinaço ao nosso lado. O taxista joga o carro de lado, meio atônito. No outro carro, uma motorista negra.Tanto quanto pude observar, o meu táxi estava na pista certa, ocupando o espaço devido. A motorista do outro carro queria apenas mais espaço, mais folga, e meteu a mão na buzina. Quando viu o que havia se passado, o taxista meteu a mão na sua buzina, nessa maneira automotiva de xingar o próximo. A senhorita "afro-americana" colocou seu dedo médio para fora da janela e gritou "Fuck you!" ao pobre motorista, que respondeu da mesma maneira.
Ele estava indignado, e se virou para mim como que pedindo solidariedade. Concordamos que ele tinha razão. Mas eu adverti, em tom de brincadeira, que ele tomasse cuidado com o que iria dizer, pois podia levar um processo por discriminação. Aí ele explodiu. "Exatamente! É insuportável ! Quer saber do que mais ? Eu odeio esses 'fucking niggers'. Eu sei que a gente não deve dizer isso, mas não dá, eu odeio esses 'fucking niggers'".
Este momento ofereceu um poderoso insight sobre a mentalidade americana. A palavra "nigger" ("crioulo" talvez seja a melhor tradução) é hoje mais proibida e carregada do que qualquer outro termo da língua inglesa. Pronunciá-la em uma roda social condena o pronunciante ao ostracismo irrevogável. Até aí, tudo bem. Mas o curioso é que as pessoas tendem a condenar em grupo o que sancionam em suas vidas privadas; ficam horrorizadas com demonstrações públicas de racismo - ou de homofobia, ou de chicanofobia, ou de anti-semitismo, ou de qualquer outra manifestação politicamente incorreta - mesmo portando-as em seu íntimo. Até aí - talvez dirá o observador mais criterioso - nada demais: a sobrevivência em sociedade é fundada na supressão de desvios individuais, substituídos pela adoção de convenções comunais. Sem hipocrisia não há civilização.
Ok. Mas o realmente interessante do caso americano é que a hipocrisia começa a virar fato. Nas últimas décadas, aumentou o número de casamentos inter-raciais, o padrão de vida de minorias subiu substancialmente e sua percepção em pesquisas de opinião idem. Há que se lembrar que, apesar de toda a retórica humanista e libertadora, os Estados Unidos eram o país em que brancos e negros não comiam no mesmo restaurante ou sentavam juntos no ônibus há meros quarenta anos. E por que houve essa melhora?
Quero crer que por uma pressão social tão forte que até os pais têm medo de confessar seus preconceitos aos filhos. Os sulistas da Klu Klux Klan não viraram, imagino, pessoas abertas, mas seus filhos muitas vezes sim. E por que os Estados Unidos empreenderam esse esforço para aceitar a diversidade? Para acabar com ela, eis a minha resposta.
Como assim? Assim, ó: nós, brancos, te estendemos a mão e paramos de te discriminar, desde que você fique mais como nós. Desde que aceite mergulhar no "melting pot" e veja suas características fundidas às características do país, ou seja, dos brancos que o fundaram e o administram. E foi isso que aconteceu. Hoje há dois tipos de negros - e de latinos, chineses, judeus, etc. - na sociedade americana. Há os que adotaram nomes americanos, usam roupas "normais", alisam o cabelo, ouvem música pop e falam inglês; a esses, tudo. E há uma minoria que se veste diferente, usa cabelo diferente, dá nomes africanos a seus filhos, ouve rap no volume mais alto, fala "ebonics" e buzina quando quer mais espaço. Esses são os "niggers". Eles são diferentes e rebeldes. E são rejeitados.
A dicotomia é reconhecida e ironizada por um comediante negro chamado Chris Rock que reclama dos "niggers". Sempre que os afro-americanos estão fazendo um progresso, vêm os niggers e estragam tudo, diz Rock, para ainda completar: eu odeio niggers. Assim como ele, provavelmente grande parte da população branca, mas que não ousa manifestar sua opinião porque, afinal, acredita no mantra de que vive na terra da oportunidade e que gosta de negros tanto quanto de brancos ou amarelos. Desde que, claro, o negro tente ser branco. E, pelo amor de Deus, não buzine no meio da rua.
E no Brasil?
Antes de nos regozijarmos com a desgraça dos gringos, há que se olhar para o próprio umbigo. O Brasil, apesar de importantes diferenças de história, demografia e personalidade, também se esconde atrás de uma fantasia. Enquanto os americanos fingem que o racismo já acabou, os brasileiros professam que nunca existiu. É bobagem. A disparidade de renda entre brancos e negros em nosso país é brutal, e qualquer conhecedor de estatística saberá que não se pode culpar o acaso. Ainda que por um lado a nossa solução gere uma convivência mais pacífica e menos reprimida que a americana, por outro é mais cruel, pois não proporciona ferramenta nenhuma de combate aos discriminados. Um problema que não existe não pode, afinal, ser eliminado.
Só bobagem
Volto agora aos Estados Unidos depois de dois anos fora, e estou absolutamente impressionado com o desaparecimento das notícias da vida norte-americana. Antes você ouvia notícias e análises nos noticiários televisivos, nas revistas semanais, nos jornais e até, se quisesse, 24 horas por dia na CNN. Hoje, os noticiários televisivos estão comprimidos em meia hora, às 18h30, entre programas sobre Hollywood, as revistas semanais como Time e Newsweek viraram um pastiche de notas engraçadinhas, a CNN tem talk-shows e especiais sobre personalidades e os jornais vão sendo cada vez mais invadidos pelo jeito USA Today de fazer a coisa: muito gráfico, muita foto, muita bobagem, pouco texto e quase nada de análise. A alienação é total e completa. Não é só deprimente, mas assustador.
Contra a maré, 1
Venho lendo com certa incredulidade a cobertura da seleção brasileira na imprensa, especialmente desde que "Big Phil" assumiu o cargo. E, sinceramente, só consigo entender tamanho negativismo como uma combinação de bairrismo, birra pessoal e ideologização de terceira. Bairrismo pelo fato de Felipão ser um gaúcho guasca do interior do Rio Grande que não abandonou seu estilo para virar um monstro sagrado, um vitorioso inconteste, tanto no Grêmio quanto no Palmeiras. Birra pelo fato do técnico nunca ter se curvado à grande imprensa paulista, nem ter cortejado ou bajulado jornalistas como costumam fazer outros treinadores, mais vaidosos. E ideologização de terceira de gente que quer ver a CBF de Ricardo Teixeira derrotada, que acha que a não-classificação para a Copa ajuda uma vitória da oposição no ano que vem, etc. Essas mesquinharias não valem a tristeza de cento e setenta milhões de pessoas, a maioria das quais não têm o conforto dos profissionais de imprensa em sua vida classe média-alta.
Estou confiante numa vitória brasileira hoje à tarde e, mais importante, torço muito para que ela ocorra, a despeito das supostas safadezas da CBF, da grossura de Felipão e, especialmente, do desprezo mesquinho de certos "philosophes".
Contra a maré, 2
Semana passada falou-se muito na morte de Jorge Amado, com a tradicional deferência conferida aos mortos que eu nunca entendi. Não ia dizer nada, mas já que tanta gente melhor do que eu já falou tão bem do baiano, sinto-me à vontade para dizer o que penso, sabendo que não moverá o consenso positivo em um milímetro. Só li um livro de Amado, Capitães da Areia, e achei um porre. Forçado, estilisticamente pobre, engessado nos moldes da realidade definida pelo Partido Comunista que Amado serviu durante décadas. Pronto, tá dito.
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Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas E-mail: desembucha@uol.com.br |

