Gustavo Ioschpe
28/02/2001
Matéria de capa da penúltima revista "Time" adverte que a tecnologia já está aí e que, no underground da ciência de ponta, já se está manipulando material genético humano com o objetivo de se criar uma cópia de nós mesmos.
Espera-se que o primeiro clone humano saia dentro de, no máximo, dois anos, e alguns suspeitam que ele já tenha inclusive nascido. O que não seria surpreendente, aliás: a equipe responsável pela clonagem da ovelha Dolly só anunciou sua existência sete meses depois de seu nascimento, para se assegurar de sua salubridade.
Com a clonagem, abre-se não uma nova porta, mas um castelo inteiro da ciência, contendo centenas de dilemas éticos e perguntas até há pouco inimagináveis. O primeiro dilema surge em consequência de dificuldades práticas: o índice de sucesso na clonagem de animais, campo já explorado há quatro anos, é ainda de apenas 2%.
Não há muito problema no caso de animais: se o carneiro nasce com dois corações, sem patas, deformado, ou se nem chega a nascer, é só sacrificá-lo e não há danos para ninguém. O mesmo não se poderia fazer com um feto humano. Mesmo no caso de aborto, o drama para os pais envolvidos é tremendo.
Ainda que a clonagem desse certo, contudo, criar-se-ia uma aberração sem precedentes. Imagine-se os pais inférteis que vêem seu clone, com o material genético de um deles, e observam a criança nascer e crescer e ter as mesmas formas que eles tiveram 20 ou 30 anos antes? Imagine que festa Freud ia fazer se tratasse um pai forçado a conviver com uma filha igual a mulher dele quando esta tinha 20 anos... Imagine-se os casais gays que criam um clone para poder ter filhos.
Imagine-se os pais de um filho que morreu cedo e querem repetir a dose, que experiência horrorosa seria ver seu filho morto todos os dias? Imagine-se as pessoas que querem clonar seus pais ou parentes que morreram ou estão agonizando, que pane mental não causaria ver aquele ente querido crescendo novamente, com o mesmo código genético, mas vindo de um tempo completamente diferente, com experiências de crescimento dissimilares? E isso para ficar só no campo da atividade privada e razoavelmente sã, pois também podem os Estados párias usar a tecnologia para criar um circo de horrores. Imagine o Taleban criando um exército infinito de clones programados desde bebê para matar infiéis.
Se as possibilidades de problema são quase infinitas, é de se perguntar por que se vai adiante com a empreitada. É verdade que a marcha da ciência caminha razoavelmene sozinha e que sempre haverá cientistas sedentos de glória e fortuna querendo romper a última barreira. Mas a clonagem vai adiante, e a passos largos, principalmente pela existência de um vasto mercado consumidor: loucos, narcisos com sonhos de imortalidade, casais inférteis ou homossexuais, pais que perderam filhos, esposos que perderam seus cônjuges etc.
Todos buscam, de uma forma ou de outra, se perpetuar, alcançar a imortalidade. Quando fazem operações plásticas, tratamentos geriátricos ou criogênicos ou até mesmo fertilizações artificiais, tudo bem, porque o risco é apenas deles mesmos. Mas a possibilidade de clonagem abre o leque e potencializa o problema. O fundamental é saber: como se sentirá uma criança que cresce sabendo-se clone de outra? Como será para ela a pressão de levar a vida de alguém que morreu? De ter o código genético do pai ou da mãe? De ser filha de um casal homossexual ou de crescer defeituosa?
Essa é a pergunta que deveria ser feita à exaustão, mas que permanece abafada. Temos a infelicidade de viver em uma época cegada por um egoísmo quase tão infinito quanto seus recursos técnicos. Os egocêntricos que buscam a imortalidade através da clonagem caminham de mãos dadas, rumo ao despenhadeiro, com os cientistas ególatras que fazem tudo por uma capa de revista e alguns mil réis. Levam-nos todos com eles. Será que dessa vez a ciência foi longe demais, e nos levou a uma enrascada da qual não teremos capacidade para nos libertar?
Eu sou você, hoje
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Mal começou o século 21, com suas promessas de uma revolução tecnológica por minuto, e já pode estar trazendo a maior inovação científica do último milênio, quiçá de toda a história: a clonagem humana.Matéria de capa da penúltima revista "Time" adverte que a tecnologia já está aí e que, no underground da ciência de ponta, já se está manipulando material genético humano com o objetivo de se criar uma cópia de nós mesmos.
Espera-se que o primeiro clone humano saia dentro de, no máximo, dois anos, e alguns suspeitam que ele já tenha inclusive nascido. O que não seria surpreendente, aliás: a equipe responsável pela clonagem da ovelha Dolly só anunciou sua existência sete meses depois de seu nascimento, para se assegurar de sua salubridade.
Com a clonagem, abre-se não uma nova porta, mas um castelo inteiro da ciência, contendo centenas de dilemas éticos e perguntas até há pouco inimagináveis. O primeiro dilema surge em consequência de dificuldades práticas: o índice de sucesso na clonagem de animais, campo já explorado há quatro anos, é ainda de apenas 2%.
Não há muito problema no caso de animais: se o carneiro nasce com dois corações, sem patas, deformado, ou se nem chega a nascer, é só sacrificá-lo e não há danos para ninguém. O mesmo não se poderia fazer com um feto humano. Mesmo no caso de aborto, o drama para os pais envolvidos é tremendo.
Ainda que a clonagem desse certo, contudo, criar-se-ia uma aberração sem precedentes. Imagine-se os pais inférteis que vêem seu clone, com o material genético de um deles, e observam a criança nascer e crescer e ter as mesmas formas que eles tiveram 20 ou 30 anos antes? Imagine que festa Freud ia fazer se tratasse um pai forçado a conviver com uma filha igual a mulher dele quando esta tinha 20 anos... Imagine-se os casais gays que criam um clone para poder ter filhos.
Imagine-se os pais de um filho que morreu cedo e querem repetir a dose, que experiência horrorosa seria ver seu filho morto todos os dias? Imagine-se as pessoas que querem clonar seus pais ou parentes que morreram ou estão agonizando, que pane mental não causaria ver aquele ente querido crescendo novamente, com o mesmo código genético, mas vindo de um tempo completamente diferente, com experiências de crescimento dissimilares? E isso para ficar só no campo da atividade privada e razoavelmente sã, pois também podem os Estados párias usar a tecnologia para criar um circo de horrores. Imagine o Taleban criando um exército infinito de clones programados desde bebê para matar infiéis.
Se as possibilidades de problema são quase infinitas, é de se perguntar por que se vai adiante com a empreitada. É verdade que a marcha da ciência caminha razoavelmene sozinha e que sempre haverá cientistas sedentos de glória e fortuna querendo romper a última barreira. Mas a clonagem vai adiante, e a passos largos, principalmente pela existência de um vasto mercado consumidor: loucos, narcisos com sonhos de imortalidade, casais inférteis ou homossexuais, pais que perderam filhos, esposos que perderam seus cônjuges etc.
Todos buscam, de uma forma ou de outra, se perpetuar, alcançar a imortalidade. Quando fazem operações plásticas, tratamentos geriátricos ou criogênicos ou até mesmo fertilizações artificiais, tudo bem, porque o risco é apenas deles mesmos. Mas a possibilidade de clonagem abre o leque e potencializa o problema. O fundamental é saber: como se sentirá uma criança que cresce sabendo-se clone de outra? Como será para ela a pressão de levar a vida de alguém que morreu? De ter o código genético do pai ou da mãe? De ser filha de um casal homossexual ou de crescer defeituosa?
Essa é a pergunta que deveria ser feita à exaustão, mas que permanece abafada. Temos a infelicidade de viver em uma época cegada por um egoísmo quase tão infinito quanto seus recursos técnicos. Os egocêntricos que buscam a imortalidade através da clonagem caminham de mãos dadas, rumo ao despenhadeiro, com os cientistas ególatras que fazem tudo por uma capa de revista e alguns mil réis. Levam-nos todos com eles. Será que dessa vez a ciência foi longe demais, e nos levou a uma enrascada da qual não teremos capacidade para nos libertar?
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Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas E-mail: desembucha@uol.com.br |
