Pensata

Gustavo Ioschpe

22/08/2001

O que Bush diria a Lula e Ciro (se soubesse da existência deles)

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Durante as angustiantes semanas em que as eleições americanas ficaram soterradas em uma confusão de moções jurídicas e reclamações de velhos floridianos míopes, o mundo se preparou para a catástrofe. A cada dia que passava, crescia a inexorabilidade da vitória do homem público supostamente mais obtuso e tosco dos Estados Unidos, fadado a reinstituir o reino da mediocridade conservadora instaurada por seu pai. Mas não é que George W. Bush surpreendeu a todos ?

Ééééé. Pois seu desempenho conseguiu a façanha de ser muito pior do que o esperado: não é só pífio, mas desastroso, e o conservadorismo com compaixão mostrou grande piedade. Para com os empresários.

O surpreendente de Bush é que ele tenha conseguido fazer tão mal em tão pouco tempo e com tão pouca legitimidade, tendo perdido a eleição não só no voto direto mas, ao que tudo indica, também no estado da Flórida que acabou lhe dando a vitória no colégio eleitoral. A permanência de um desastre como "dubya" no poder é atestado à solidez institucional americana, por um lado, e, paradoxalmente, à concentração de poder de uma meia dúzia de indústrias que o apóiam. Pois se algumas das afrontas de Bush à humanidade são noticiadas no Brasil - o abandono do protocolo de Kyoto, o escudo anti-míssil, a retirada (depois revista) do conflito no Oriente Médio, o desastre diplomático com o avião-espião sobre a China, etc. - outras passam desapercebidas até ao cidadão médio americano. Colocadas juntas, são um conjunto de favorecimento desbragado aos lobbies que o elegeram, especialmente o do petróleo (vide Kyoto e a proposta de perfurar santuários ecológicos no Alaska), dos armamentos (o escudo anti-míssil sendo apenas sua face mais aparente) e a indústria farmacêutica (agarrando-se ao governo em sua luta obscena pela manutenção de patentes vexaminosas que barram genéricos do mercado). O tamanho do desastre causado por Bush ao futuro pertence. Mas, a não ser que o inesperado aconteça, é só uma questão de saber o tamanho do retrocesso, pois avanços não haverá.

E já que a História está aí para ensinar através de seus erros, faríamos bem em aprender algumas lições do sufrágio americano para nossas próprias - e próximas - eleições. Bush favorece e desfavorece os principais candidatos. Vejamos.

O maior beneficiado de sua vitória talvez seja Lula. Pois a maior restrição ao petista sempre foi seu despreparo, sua falta de escolaridade e sua falta de pedigree. É, sem dúvida, um preconceito elitista, que o próprio fenômeno Collor já deveria ter desmontado, mas a oligarquia brasileira costuma só consumir o que vem de fora, e taí uma boa oportunidade. Pois Bush tem pedigree (filho de ex-presidente e ex-diretor da CIA, neto de senador, irmão de um governador de sucesso), escolaridade (tendo feito graduação, tragicamente, na Yale que agora me acolhe, e mestrado em Harvard) e até um certo preparo, tendo sido governador do segundo maior estado, Texas. E, apesar de tudo isso, faz um governo desastroso.

Por outro lado, Bush prejudica a candidatura Lula por mostrar que, efetivamente, o conhecimento teórico tem grande valor na coisa pública e não pode ser descartado pelo pragmatismo das experiências de vida. Bush entrou nas faculdades que entrou por influência familiar, e lá nada aprendeu, e mesmo antes de sua eleição já dava pra se notar que o fosfato do homem tinha ficado na cozinha. "Teria Lula condições de fazer um bom governo dadas suas limitações intelectuais?", eis a pergunta que se põe.

Vamos então ao outro candidato sério e bem cotado para chegar ao Planalto. Bush o ajuda ao mostrar, mais uma vez, que ignorância demais arruína um governante e que só bons assessores não podem segurar o rojão. Ciro não conta entre seus defeitos o da asnice, e tem como mérito sua ascensão praticamente solitária, descontados Mangabeira Unger, cuja influência seria maior se falasse português, e Patrícia Pillar, suporte só na medida em que estética também é poder.

Mas depõem contra Ciro a instrução de Bush e sua experiência de poder. Pois tanto Ciro como Bush obtêm muito de sua credibilidade pela passagem por Harvard, e o governo de Bush no Texas, com suas execuções no atacado e religiosidade no varejo, apenas se repetiram na presidência. Se Ciro teve passagem bem-sucedida pelo governo do Ceará e Ministério da Fazenda, não há como ignorar seu caráter explosivo e declarações infelizes que o desabonam para a presidência.

Só não se pode dizer que Bush gostaria de servir de lição aos candidatos brasileiros porque não é de todo certo que ele saiba da existência do Brasil.

Salomão dos pobres

A última decisão de Bush talvez tenha sido a mais nociva à humanidade. Ao limitar substancialmente o custeio governamental às pesquisas com células-tronco embrionárias, Bush retarda o que muitos consideram o maior avanço científico desde a fertilização in vitro, capaz de, potencialmente, oferecer curas a males como Alzheimer, Parkinson, diabete juvenil e muitas outras. O caipira texano tentou dar uma de Salomão e agradar tanto o lobbie religioso como a comunidade científica. Não fez nem um, nem outro, e usou as vidas de doentes à beira da morte para fazer politicagem. Um asco.

Breast and brightest

Clinton deve estar dando risada. Em discurso recente às forças armadas, Bush prometeu aumentar a alocação orçamentária para os militares, no intuito de manter no exército os "breast and brightest". Foi a sua versão freudiana para o clichê "best and brightest", ou "melhores e mais brilhantes"- "breast" atende pela parte da anatomia feminina contida pelo sutiã.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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