Gustavo Ioschpe
29/08/2001
Russel continua o trecho declarando sua imparcialidade quanto ao mérito do tema; como todo filósofo honesto, sua preocupação é de fazer pensar mais do que tentar convencer.
Escolhi essa pérola para encerrar minha participação nesse espaço porque me parece a síntese de muito o que aqui se tentou fazer. O mesmo Russel, tentando explicar o brilhantismo da Grécia antiga, vê como sua causa a combinação de paixão e intelecto. Paixão sem razão é a receita para desastres, e o intelecto desprovido de gana é estéril e, em última análise, infecundo. Só a junção de ambos gera as glórias das quais o espírito humano é capaz.
Assim como os problemas de gregos antigos eram entender como e por que o sol cruzava o céu todos os dias e como criar uma pólis justa, o problema mais urgente da nossa época - minha, sua e de Russel - é o da erradicação da miséria.
O século passado viu a falência das duas soluções até então imaginadas para a questão, o capitalismo e o comunismo, ambos levados a seu extremo pela dinâmica de um mundo bipolar e a loucura de alguns de seus artífices. Ainda que a falência do comunismo seja mais aparente do que a do capitalismo, as mentes mais atiladas já sabem que o modelo hoje posto não equacionará a miséria humana. O problema, então, é tratar de buscar um sistema alternativo.
Talvez o paradoxo sugerido por Russel esteja na raiz da solução a essa charada. Talvez um sistema de propriedade privada em que as riquezas não são repassadas de geração em geração seja a síntese necessária a surgir entre as teses e antíteses de nossa história político-econômica. Talvez seja essa a maneira de quebrar um longo ciclo de favorecimentos e desigualdades.
Claro, a proposta é repleta de dificuldades práticas e logísticas para as quais eu não tenho as respostas. Mas nesses casos a logística sempre vem a reboque de uma mudança de cosmovisão. Acordado o destino a ser alcançado desvendar-se-ão os caminhos a serem percorridos.
Se a idéia parecer estapafúrdia numa primeira leitura, tanto melhor. É apenas um sinal de como certas convenções humanas foram inscritas em nossas mentes com a força de um édito divinal. O rompimento desse paradigma deve parecer tão estranho a nossas mentes como a quebra do princípio da hereditariedade na política ao homem medieval. E, espero, a existência de dinastias econômicas parecerá ao homem do futuro tão incompreensível e injustificável quanto aquela de dinastias políticas nos é estranha atualmente.
O caminho até lá não passa pela acomodação dos crentes na inevitabilidade do avanço da História, mas pela luta incessante de todos aqueles desejosos de uma sociedade melhor.
Como já disse outro pensador, já se teorizou que chega sobre o mundo. Está na hora de mudá-lo.
Una pensata y un adiós
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Não tenho, por temperamento e herança, inclinações à idolatria, mas abro uma exceção parcial a Bertrand Russel (1872-1970). Acabei há pouco de ler sua monumental História da Filosofia Ocidental, um livro de dimensões e pretensões enciclopédicas cujo texto, não satisfeito com a abrangência e profundidade com que cumpre a tarefa ingrata de mapear quase 2.500 anos de pensamento, deixa ainda transpassar pequenas amostras de um gênio ao mesmo tempo afiado e generoso, superior e ainda assim preocupado com as questões sociais de seu tempo, do homem comum. Assim é que, no meio da discussão sobre a filosofia política de Locke, Russel insere o seguinte parágrafo: "É curioso que a rejeição ao princípio hereditário na política não tenha tido praticamente nenhum efeito na esfera econômica de países democráticos. (...) Nós ainda pensamos ser natural que um homem deva deixar sua propriedade para seus filhos; quer dizer, nós aceitamos o princípio hereditário no que tange o poder econômico enquanto o rejeitamos no poder político."Russel continua o trecho declarando sua imparcialidade quanto ao mérito do tema; como todo filósofo honesto, sua preocupação é de fazer pensar mais do que tentar convencer.
Escolhi essa pérola para encerrar minha participação nesse espaço porque me parece a síntese de muito o que aqui se tentou fazer. O mesmo Russel, tentando explicar o brilhantismo da Grécia antiga, vê como sua causa a combinação de paixão e intelecto. Paixão sem razão é a receita para desastres, e o intelecto desprovido de gana é estéril e, em última análise, infecundo. Só a junção de ambos gera as glórias das quais o espírito humano é capaz.
Assim como os problemas de gregos antigos eram entender como e por que o sol cruzava o céu todos os dias e como criar uma pólis justa, o problema mais urgente da nossa época - minha, sua e de Russel - é o da erradicação da miséria.
O século passado viu a falência das duas soluções até então imaginadas para a questão, o capitalismo e o comunismo, ambos levados a seu extremo pela dinâmica de um mundo bipolar e a loucura de alguns de seus artífices. Ainda que a falência do comunismo seja mais aparente do que a do capitalismo, as mentes mais atiladas já sabem que o modelo hoje posto não equacionará a miséria humana. O problema, então, é tratar de buscar um sistema alternativo.
Talvez o paradoxo sugerido por Russel esteja na raiz da solução a essa charada. Talvez um sistema de propriedade privada em que as riquezas não são repassadas de geração em geração seja a síntese necessária a surgir entre as teses e antíteses de nossa história político-econômica. Talvez seja essa a maneira de quebrar um longo ciclo de favorecimentos e desigualdades.
Claro, a proposta é repleta de dificuldades práticas e logísticas para as quais eu não tenho as respostas. Mas nesses casos a logística sempre vem a reboque de uma mudança de cosmovisão. Acordado o destino a ser alcançado desvendar-se-ão os caminhos a serem percorridos.
Se a idéia parecer estapafúrdia numa primeira leitura, tanto melhor. É apenas um sinal de como certas convenções humanas foram inscritas em nossas mentes com a força de um édito divinal. O rompimento desse paradigma deve parecer tão estranho a nossas mentes como a quebra do princípio da hereditariedade na política ao homem medieval. E, espero, a existência de dinastias econômicas parecerá ao homem do futuro tão incompreensível e injustificável quanto aquela de dinastias políticas nos é estranha atualmente.
O caminho até lá não passa pela acomodação dos crentes na inevitabilidade do avanço da História, mas pela luta incessante de todos aqueles desejosos de uma sociedade melhor.
Como já disse outro pensador, já se teorizou que chega sobre o mundo. Está na hora de mudá-lo.
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Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas E-mail: desembucha@uol.com.br |
