Pensata

Gustavo Ioschpe

11/09/2001

No olho do furacão

Publicidade
Saí para a aula, de manhã cedo, tendo visto de passagem num site que um avião colidira com o World Trade Center e quando percebi estava no meio do maior ataque terrorista da História.

É difícil verbalizar a reação a uma situação tão inusitada. No primeiro momento há o caos minha caixa eletrônica abarrotada de mensagens de amigos e parentes pedindo notícias, mas as linhas telefônicas congestionadas que me impossibilitam de encontrá-los; o desespero de tentar encontrar amigos que trabalham nas imediações do WTC e cujos celulares não respondem. Depois, quando se consegue restabelecer um mínimo de comunicação via internet, vem a incredulidade. Você se senta na frente da TV e vê que o conjunto de edifícios mais famoso do mundo, o ícone de Nova York, centro do mundo, foi alvejado por aviões kamikaze. O Pentágono prédio em que fiquei fascinado com o sistema de segurança e a aparente inexpugnabilidade quando o visitei, há vários anos foi parcialmente destruído, outros aviões estão sequestrados e caindo por aí. Porta-aviões e caças patrulham os mares e céus de Nova York e Washington; aeroportos fechados, Manhattan ilhada. Nem o mais inventivo dos diretores de ficção científica e filmes de ação podiam imaginar roteiro assim. As palavras mais ouvidas à minha volta, a pouco mais de cinco horas dos ataques, são "choque", "descrença", "loucura", "surreal". Daqui a pouco, quando baixar a poeira e começarem as centenas de enterros, virão a tristeza, a raiva e a sanguinolência, mas por enquanto o esforço ainda é para digerir a cena grotesca que a TV não pára de repetir de um avião acertando uma das torres em cheio.

Até na pacata New Haven onde me encontro quase tudo fechou, e o prédio federal da esquina da minha casa está sendo protegido pela cavalariça policial, e dezenas de outros agentes da lei circulam as ruas procurando pela próxima bomba, esperando a próxima catástrofe.

Estive em Nova York de quinta a domingo passado. Há pouco mais de 36 horas estava andando no Village, há poucas quadras do WTC, as duas torres destilando sua imponência majestosa sobre a ilha onde tudo acontece, Manhattan. Não existem mais. Não há combinação melhor de simbolismo e maldade suprema do que atacar as "twin towers". Só perdem em importância para a Casa Branca e a Estátua da Liberdade mas, obviamente, tem dezenas de milhares de pessoas a mais trabalhando nelas. Civis inocentes, sua maioria operadores do mercado financeiro, que simplesmente desapareceram em meio a uma implosão cinematográfica.

Ainda é cedo para definir exatamente o que vai acontecer daqui pra frente, mas é certo que o dia 11 de setembro de 2001 será um marco na história mundial, certamente simbolizando o início de uma era pior do que a que o antecedeu. Vejamos por que, fazendo o possível para avaliar os acontecimentos de hoje e prever seus desdobramentos.

O Culpado

A primeira tarefa, claro, será encontrar o culpado por esse ataque de proporções continentais e eficiência milimétrica. Pelo menos quatro aviões foram sequestrados num intervalo de tempo curtíssimo, o que requer uma rede de inteligência poderosa. Todos os aviões faziam vôos domésticos da costa leste para a costa oeste, não por acaso, mas porque teriam a maior carga de combustível a bordo, de forma a causar o maior dando possível na explosão. O fato de serem vôos domésticos também indica que havia um grande contingente de terroristas no país antes da operação, o que reforça a hipótese de uma organização de recursos vultuosos e infra-estrutura considerável.

Tais indicações parecem excluir a possibilidade de um atentado palestino, primeira possibilidade levantada aqui, pois grupos como Hamas e Jihad Islâmica não teriam condições de patrociná-lo e organizá-lo. O Hizbollah, financiado por Irã e Síria, e a Fatah da Autoridade Nacional Palestina teriam a envergadura, mas é altamente improvável que Estados minimamente racionais e veiculados à ordem mundial apoiassem um ataque dessa envergadura, pois as consequências para quem quer que fosse o atacante serão certamente desastrosas.

O fato de o ataque ser contra os Estados Unidos e contra muitos dos símbolos do capitalismo e do establishment de defesa americanos, somado à forma suicida dos atacantes, aponta para um movimento de origem muçulmana. Restariam assim Iraque, Líbia e Afeganistão, abrigo dos Taleban e de Osama bin Laden, o grande terrorista internacional. Dado que ele esteve por trás de ataques igualmente simultâneos às embaixadas do Quênia e da Tanzânia em 1998 e contra o navio USS Cole no Iêmen, em outubro do ano passado, e sabendo-se de sua milionária estrutura financeira e apoio do Taleban, bin Laden deve ser considerado o suspeito mais provável. Mas quem quer que tenha sido o cérebro e o bolso por trás do atentado, é improvável, de novo, por suas dimensões, que seja uma organização agindo sozinha.

Política Internacional

O mundo passa hoje a ser mais retraído. Poderiam-se esperar duas reações dos EUA: uma, de entrar em uma "fraternidade" multinacional para perseguir os terroristas, pacificar inimigos. Outra, de fechar-se ainda mais, como que frustrados pelo tratamento que o mundo lhes dispensa. Dada a mentalidade reinante no país e especialmente depois da posse do presidente texano, aposto minhas fichas na segunda. Os esforços perseguindo políticas isolacionistas e de alheamento em relação às vontades de outros povos devem ser aumentados; em especial, imagina-se que o plano de defesa anti-mísseis e o abandono unilateral do tratado contra mísseis balísticos ganhe novo ímpeto. (Mesmo que ele continue tão ineficiente quanto antes para deter ataques desse tipo).

Os americanos não têm a menor idéia de como são percebidos pelo mundo, primeiro porque não se importam muito com o que se passa aquém de suas fronteiras e segundo porque não estão muito interessados. Se vêem como os vitoriosos, a nação justa e democrática, arauto dos direitos humanos e crentes no que chamam seu "destino manifesto" de liderar o mundo. Acham que as políticas de seus governos são sempre inerentemente benéficas para os recipientes de sua, digamos, atenção. Para o americano médio, é praticamente inconcebível que alguém não goste dos americanos por motivo que não sua (nossa) ignorância, e absolutamente inimaginável que outros povos tenham razão em seu desprezo e desgosto pela superpotência.

Assim, a reação do americano médio deve ser de sentir-se traído pela "ingratidão" demonstrada pelo mundo, e um desejo de se afastar da política internacional. Como seu líder não é muito superior ao americano médio, é de se esperar que seja isso mesmo que faça.

Seu primeiro alvo serão os países árabes. Mais do que ninguém, quem perde com o ataque de hoje são os palestinos, pois é de se esperar que Washington seja absolutamente inflexível com qualquer povo ou Estado que use o terrorismo contra civis como forma de pressão política. Hoje o americano de New Jersey entende o que sente um pai de Jerusalém que teme pela segurança de sua filha, e a solidariedade dos EUA para com Israel só irá aumentar, afastando para ainda mais longe a possibilidade de resolução do conflito na região.

Economia Internacional

A economia mundial também foi alvejada. Num momento em que se esperava um reaquecimento da economia americana para impedir a recessão global, o ataque de hoje diminui a agilidade da maior potência do mundo.

Afora os gastos com a reconstrução dos monumentos destruídos e das perdas de produtividade oriundas do desaparecimento das vítimas algo não desprezível, em se tratando de uma elite econômica, em sua maioria a economia americana foi golpeada em pelo menos três áreas.

Primeiro, é de se esperar que parte consideravelmente maior do orçamento americano seja destinada à defesa, subtraindo recursos de áreas mais condutivas a crescimento econômico como pesquisa ou educação. Esse gasto pode levar à formação de um déficit orçamentário, com possíveis repercussões inflacionárias, de contração da política monetária (aumento de taxa de juros) e fiscal (aumento de impostos), todas desastrosas para o reaquecimento econômico.

Segundo, e talvez mais importante, certamente haverá um fechamento econômico e diminuição de atividades de importação e exportação, o que gerará impactos não desprezíveis sobre as outras economias do planeta.

Finalmente, e menos importante, haverá um aumento do custo de transação e consequente diminuição de eficiência com as restrições de segurança que devem ser impostas sobre os sistemas de transporte do país, parte fundamental de sua vitalidade econômica.

Haveria ainda a possibilidade de um aumento do preço do petróleo caso o ataque tenha vindo de algum país da OPEP, caso esse seja bombardeado e tenha sua capacidade de produção de óleo diminuída, mas ainda é cedo para especulações desse tipo.

Política Interna

Esqueça o debate sobre células embrionárias e superávits previdenciários: Bush será julgado em relação aos acontecimentos de hoje.

Sua reação inicial não foi das melhores. A Casa Branca foi evacuada e o presidente está, nesse momento, escondido em algum lugar secreto entre a Flórida, onde estava de manhã, e Washington. O "commander-in-chief" está acuado; suas mensagens foram desconexas e as promessas de vingança, ocas. Bush certamente será criticado por não ter feito nada para prevenir o ataque, mais pelo sentimentalismo da população do que por realismo político, pois e eis aí a desgraça dessa nova ordem mundial muito pouco que pode ser feito para evitar que um louco suicida se exploda levando consigo dezenas, centenas ou milhares de pessoas.

Bush deve estar torcendo agora para que se possa comprovar que o ataque teve apoio de algum Estado, para ele ter onde atacar. Caso o autor tenha sido mesmo bin Laden um alvo que vem se mostrando dificílimo de acertar há anos a coisa se complica, e o sucesso de Bush será medido pela demora que seu governo levar para executar o mandante do crime.

Nesses primeiros dias, a comoção nacional criará um sentimento de união e apego em relação a seu chefe supremo, dando a Bush alguma margem de manobra. Mas não por muito tempo. Com o passar das semanas, a capacidade de estadista de Bush será colocada em cheque e as pessoas devem começar a se perguntar se não estariam melhor com Gore, um profundo conhecedor de questões de segurança e hábil articulador internacional. Mas, pela primeira vez, provavelmente o mundo todo e Bush tem o mesmo objetivo, e todos esperam que o mandatário americano o cumpra: encontrar e punir os responsáveis por um crime hediondo, monstruoso, incompreensível, injustificável e absolutamente
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca