Pensata

Gustavo Ioschpe

14/03/2001

A imprensa e a morte

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A imprensa brasileira tem uma relação curiosa com a morte, especialmente com a morte de figuras políticas. Pois todo o respeito que falta no tratamento de pessoas públicas, com críticas pessoais pesadíssimas e às vezes contraproducentes para o país (isso fica pra outra coluna), sobra quando essas mesmas pessoas estão à beira da morte. O rigor investigativo, o zelo e a vontade de tudo expor que acometem os melhores jornalistas e editores em situações normais parecem ser encobertos pela proximidade do descanso eterno.

Falo tendo como exemplo mais recente a morte de Mário Covas. Circulou nos meios jornalísticos, sempre em off, que à época da sua segunda cirurgia, no final do ano passado, o corpo do governador já estava devorado pela metástase e o quadro era irreversível. A única questão passível de dúvida seria quanto tempo de vida lhe restaria. Por que não se publicou a versão que corria solta pelas redações? Porque as fontes não queriam se idenitifcar, dirão uns. Mas todos os grandes jornais costumam publicar declarações de fontes secretas nos casos dos mais variados _por que a distinção para a morte de pessoas públicas? Ou, se não se quisesse recorrer a esse expediente, bastaria uma rápida consulta a um oncologista ou associação de oncologia, propondo a seguinte questão: "Tenho um paciente hipotético que teve um câncer na bexiga, e dois anos mais tarde observou-se metástase em seu sistema digestivo e excretor. Quais são as perspectivas desse paciente? Qual é o índice de sobrevida?" Pronto.

Outros dirão que não há utilidade em se divulgar essas informações funestas. Mas como não, se lida diretamente com a vida do homem eleito para cumprir com funções públicas? Acho difícil demonstrar-se que um eleitor não tem o direito de saber se o seu candidato, se o seu governador, terá condições de terminar o mandato. E as eleições para a Prefeitura de São Paulo teriam sido diferentes se os eleitores soubessem que o governador tinha, sei lá, 60% de chance de não viver mais do que meio ano, ou qualquer que fosse a sua probabilidade de sobrevivência (que eu desconheço)? Talvez. Por último, quiçá alguém vá dizer que não se deve tratar da vida pessoal de pessoas públicas, e eu até concordaria em princípio, mas não vejo por que devesse haver distinções para com a morte. Se se noticia nascimento de neto, operação de hemorróidas etc. também tem de se noticiar uma morte iminente.

A forma pela qual Mário Covas faleceu, com a dignidade e transparência que lhe eram peculiares, serviu para melhorar a própria imprensa. Ao tornar sua doença pública e tratá-la sem rodeios, e aparentemente pedir a seus médicos que tivessem comportamento semelhante, Covas tornou impossível a tarefa do editor que quisesse preservá-lo, expondo-se ele próprio. Mas não foi o caso até então. Nas mortes de Sérgio Motta e, notadamente, Tancredo Neves, a imprensa dourou a pílula de tal forma que a morte foi recebida com choque pela população, mas todos os envolvidos pareciam saber há algum tempo que o fim seria aquele.

Não é possível ainda saber se Mário Covas mudou a imprensa ou se ela estava já mudando quando o encontrou. Mas se pode e deve esperar que a comoção que atingiu a pátria com o falecimento de um de seus filhos mais queridos surta efeito também sobre seus membros mais endurecidos, os jornalistas, e que esses tragam pra dentro de suas redações a honestidade tão venerada naquele que se foi. Seria uma grande homenagem ao espírito público de Mário Covas.

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Cantinho do Menino Maluquinho

A destruição das fantásticas estátuas budistas pelo Talebã abre uma grande questão de relações internacionais e, talvez, um precedente desastroso para a humanidade. Consolidou-se nos últimos anos a noção de que soberania nacional tem limites, e que a justiça global pode julgar aqueles que perpetraram crimes contra a humanidade (caso de Pinochet), assim como os exércitos globais podem fazer intervenções ditas humanitárias (caso de Kosovo). E destruir o patrimônio cultural de uma civilização não entra nas categorias de crimes supranacionais? Se amanhã o presidente egípcio resolver dinamitar as pirâmides de seu país para abrir uma estrada, ou se o prefeito de Atenas quiser acabar com a Acrópolis para lá instalar um restaurante panorâmico, pergunto: o mundo deve assistir calado? Como defender esse patrimônio? E, se ele o for defensável, como prevenir os abusos? Como evitar que a mesma doutrina usada para salvar os kosovares não seja usada para invadir a floresta amazônica? Questões divertidas pra quem tenta imaginar como será, afinal, esse mundo globalizado.

Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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