Pensata

Gustavo Ioschpe

21/03/2001

Desta geração que me ufano

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Todo movimento social traz em si os germes de sua destruição, toda idéia carrega consigo sua oposição, e todo movimento opressor traz com ele as ferramentas que permitirão a libertação. Isso é regra. A história da independência da maioria das colônias terceiro-mundistas não foi nada além da materialização dessa máxima, aliás. A maioria dos libertadores foi educada sob os ideais da metrópole, e passou a aplicar às colônias a mesma posologia destinada à própria metrópole, para infortúnio desta.
Por isso é que vejo nessa onda de denúncias de corrupção que assola o país não um indício de que a podridão tomou conta das entranhas da República, mas sim que começamos a debela-la; não que o Brasil é um país sem saída onde todos são corruptos, mas sim um onde há uma parcela da população, talvez sua maioria, que já não aceita mais as práticas de antanho e está determinada a erguer um país limpo. Ilude-se quem imagina que essa sujeirada toda começou recentemente: ela sempre existiu. O fato de que agora se começa - a despeito dos esforços vergonhosos de um presidente da República já desmoralizado - a abrir a tampa que a cobria é sinal de que começamos a tomar o primeiro passo para a erradicação do problema, que é a fase traumática de notar sua existência e tentar mesurar sua dimensão.

Dizia nesse espaço há algumas semanas que uma geração pobre de homens públicos se acabava e que em seu lugar já vinha despontando outra, talvez não tão apaixonada e apaixonante, mas certamente mais séria e provavelmente mais competente. Mas minha razão de otimismo maior não está nessa geração, já nos seus 40, 50 anos, mas sim na minha, nos seus 20. Tenho poucos amigos que não se indignem com a situação social do país, e poucos que não pensem em fazer alguma coisa - por menor que seja a sua contribuição - para ajudar. Muitos pensam em conciliar carreiras privadas com atividades públicas, outros tantos querem se devotar a ONGs. Há pouco, uma amiga de seus 25 anos deixou uma carreira promissora - e um salário anual de seis dígitos - em um banco de investimento londrino para virar administradora de hospital no interior paulista. Amigos estudantes de direito ou recém-formados optam freqüentemente pela defensoria pública ou procuradoria, ou, ainda, por entidades pro bono de apoio à vítimas. Médicos em início de carreira prorrogam a criação de seu consultório para atender em vilas e favelas. E há poucas grandes fortunas nacionais que não tenham aberto uma fundação ou algum outro escoadouro de recursos que, ainda que de forma tímida, propicie a redistribuição de renda de que esse país precisa como oxigênio.

Pode ser que o idealismo da nossa geração seja passageiro. Que as vicissitudes do mundo e as necessidades de sustentar uma família se imponham sobre os ideais mais nobres. Mas não é isso que parece. Quero crer que chegamos ao ponto de saturação e que, daqui pra frente, compromisso patriótico não será mais razão para piadas. Há só que se esperar que a atual classe dirigente não inunde, com seu corrompimento, o jardim em que crescem nossas esperanças. É o mínimo que podem fazer pelas gerações futuras.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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