Pensata

Gustavo Ioschpe

28/03/2001

Y Qué Importa ?

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O leitor médio já deve estar, com o perdão do termo, de saco cheio de ouvir falar tanto dessa crise argentina. Fala-se muito nela, mas não se costuma discutir as razões pelas quais esse sacolejo portenho deveria nos importar. E deveria. Vejamos por que.

Primeiro, e menos importante, o campo político. A instabilidade política gerada pela crise econômica está próxima de gerar uma convulsão. O presidente de la Rua sacou de seu último e mais poderoso curinga para salvar a situação, o superministro Domingo Cavallo. O presidente e seu ministro já começam a pedir poderes especiais ao Congresso para lidar com esta situação emergencial, o que, em si só, já é um distúrbio - ainda que leve - da ordem democrática. Se a gestão Cavallo falhar - e as possibilidades de insucesso são enormes - não seria de todo surpreendente uma ruptura do processo democrático-constitucional, quer seja através da convocação de eleições antecipadas ou, menos provável, um golpe de Estado.

Ambos os cenários teriam repercussões no Brasil. A concessão de poderes especiais ao governo argentino estimula o Executivo brasileiro a governar, mais do que já faz agora, através de Medidas Provisórias. E, em caso de afundamento argentino, sabe-se lá o que o "débâcle" do vizinho causaria nos golpistas de pijamas do Brasil.

Economia

As conseqüências mais imediatas do problema argentino permanecem, contudo, na área econômica.
Primeiro, porque a Argentina é importante parceiro comercial brasileiro, e sua falência causaria grandes prejuízos para uma série de setores exportadores brasileiros, o que tenderia a agravar um dos nossos problemas econômicos mais graves, que é o déficit da balança comercial.

Segundo, o clima de insegurança na Argentina diminui o apetite do investidor estrangeiro pelo Brasil, especialmente em período de escassez de capitais nos grandes centros econômicos mundiais, dada a queda das bolsas americanas, recessão japonesa e quadro macroeconômico mundial instável. É verdade que Brasil e Argentina não são o mesmo bicho. Eu sei disso e você também. Mas o aposentado do Kentucky que tem o dinheiro de sua pensão aplicado num fundo de investimento e que acabou de perder uma nota com ações de empresas que ele conhecia, como a Yahoo!, não quer nem ouvir falar de deixar suas economias em papéis de países que ele não conhece e nem sabe localizar num mapa. Pro investidor menos sofisticado - e apenas uma ínfima parcela dos investidores é sofisticada - Brasil e Argentina são a mesma coisa.

Terceiro, o dólar. O mesmo clima de insegurança gerado pela Argentina faz com que haja uma corrida natural em direção ao dólar, moeda segura e lastro do país vizinho. A demanda pelo dólar, no Brasil, faz seu preço aumentar. A subida do dólar significa uma queda inversamente proporcional do Real, e então tudo que se compra em dólares fica mais caro. A partir de um certo nível, as firmas que compram matéria-prima ou pagam dívidas em dólar começam a repassar seu custo maior para os preços, e há pressão inflacionária. O que automaticamente dispara um alarme vermelho lá na sala do dr. Armínio Fraga que, ato contínuo, aumenta a taxa de juros, como fez semana passada, assim diminuindo a oferta de dinheiro na praça e dificultando a subida de preços, freando a inflação e, junto com ela, a perspectiva de um crescimento econômico saudável no Brasil.

Relações internacionais

O maior risco para o Brasil, contudo, provavelmente não seja no cenário político-econômico imediato. Os planos de relações exteriores brasileiros podem tomar um baque com a crise argentina que causará efeitos nocivos para as gerações vindouras. Explico-me. O nó górdio das relações exteriores brasileiras será a formação da Alca, a Área de Livre Comércio das Américas. Esta união é incentivada pelos EUA, sedentos por abrir de vez os mercados latino-americanos para seus bens, seguro de que a superioridade de sua indústria será suficiente para esmagar a concorrência dos países aqui de baixo. Para o Brasil, a estratégia era de adiar a Alca o máximo possível, enquanto formava um Mercosul forte e uma indústria nacional mais moderna, para entrar nas discussões com poder de barganha pelo menos um pouco melhor.

Dois fatos conspiram contra as intenções brasileiras. O primeiro foi a adesão do Chile, a terceira economia-chave da região, ao NAFTA. E o segundo, vem-se desenhando agora, é a virada de casaca da Argentina. Se seu plano der certo, a Argentina continua extremamente dependente de capitais estrangeiros, e o ministro Cavallo parece acenar mesmo com a possibilidade de empréstimo enorme dos EUA, como revelou Celso Pinto em sua coluna na Folha de S.Paulo na última quinta-feira. E se der errado, a Argentina pode-se ver forçada a dolarizar sua economia, o que significaria transferir sua política monetária ao Fed. Em ambos os casos, o país fica dependente da boa-vontade americana. Nessa situação, e tendo-se em vista o chumbo grosso que podemos esperar dos países lá de cima depois do banimento de nossa carne feito pelo Canadá, não se pode esperar da Argentina qualquer oposição maior à formação da Alca nos termos ditados pelos países desenvolvidos. Contando com Canadá, México, Chile e Argentina, a aliança comandada pelos EUA dificilmente poderá ser oposta pelo Brasil com muita ênfase. Desativar essa bomba-relógio, ou pelo menos tentar contorna-la, portanto, é assunto digno de conversa de botequim do lado de cá do Rio de la Plata.
Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas
E-mail: desembucha@uol.com.br

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