Gustavo Ioschpe
04/04/2001
Ambos os bailarinos sabem -ou pelo menos deveriam saber- de cor seus papéis. Já passados os rituais primeiros da sedução e tendo a conquista sido garantida, começa o elaborado jogo. Os dois sabem que passarão a noite juntos. Há um desejo recíproco. E a mulher quer que seu homem demonstre carinho, e interesse, e volúpia, mas que controle o seu desejo, que aparente calma e uma certa indiferença. Quer, paradoxalmente, ser alvo de todas as atenções e desejos de seu companheiro, mas que a sofreguidão não se transforme em afoiteza. Basta uma mão no lugar errado, um olhar de lascívia numa má hora e corre-se o risco de ser refugado. Então cabe a nós, homens, a tarefa árdua de desejar sem aparentar nem pressa nem diferença em demasia. Para parafrasear o senador Pinheiro Machado, quando perguntado por seu motorista como deveria dirigir em meio à turba agressiva: "Nem tão ligeiro que pareça medo, nem tão devagar que pareça provocação".
A imagem me veio à cabeça quando penso na relação do eleitor com o seu representante, especialmente o presidente da República. É outro balé de acordos tácitos. O votante quer um líder de pulso, alguém que ame seu país e seu povo a ponto de não querer dedicar sua vida a outra coisa que não o bem comum. Quer alguém ambicioso, quase heróico; um misto de pai e super-herói. Mas não quer, nem gosta de ver, em seus eleitos uma sofreguidão pelo poder, uma obsessão maníaca por cargos. Assim como o conquistador de sucesso, o bom político tem de conseguir fazer de conta que não se importa muito com o resultado das eleições, que, bom, já que o povo insiste, ele vai lá, mas preferiria mesmo era ter o seu escritoriozinho de advocacia ou engenharia. E cabe ao eleitor, assim como à mulher sensata, ouvir aquelas mentiras e encenações e aceita-las como verdade, porque, enfim, vivemos em sociedade, temos regras a respeitar. Mas, ao contrário das mulheres, a atitude do eleitor é facilmente compreensível e faz todo sentido: ele quer um candidato "cool" porque os obsessivos não estão na batalha para defender os interesses da população, mas sim de seu ego. E a egolatria das lideranças, especialmente em regimes ditatoriais, mas também nos democráticos, tende a provocar desastres para a população.
O exemplo mais acabado do efeito nocivo do amor despudorado pelo poder é do político israelense Shimon Peres. Prêmio Nobel da paz, admirado no exterior, Peres tem dificuldade de ganhar eleição até pra síndico em seu país, mesmo sendo o homem público mais preparado de sua geração, dono de um intelecto espantoso e uma biografia irretocável.
Peres perdeu quase todas as eleições para as quais se candidatou porque maquinava tanto, fazia tantos acordos de conveniência, estava tão desesperado para entrar para a História, que ninguém conseguia confiar nele. Ano passado, teve sua derrota mais retumbante: perdeu a eleição para presidente -cargo meramente decorativo em um regime parlamentarista- para um virtual desconhecido, Moshe Katsav. E, agora, em mais um ato de sua agonia pelo poder, juntou-se a um governo com o vergonhoso Ariel Sharon, e não tenho dúvidas que vai fazer o possível para derruba-lo, assim que a oportunidade vier.
Vendo os primeiros esboços da campanha presidencial de 2002, noto semelhanças indefectíveis entre Peres e seu congênere brasileiro, José Serra. Como Peres, Serra tem uma inteligência monstruosa, uma vida dedicada ao serviço público e uma sabedoria aguda dos problemas que afetam seu país. E, assim como Peres, transmite a impressão de que só se importa com essas coisas porque elas o levarão à Presidência, e não vice-versa, como deveria ser. Por isso, sente-se em Serra a mesma falta de empatia -não simpatia, mas empatia- que se sente em Peres. E talvez aconteça com Serra o mesmo infortúnio que acometeu Peres: ver seu país complicar-se, afundar mais no problema quando a solução estava ali à mão, sentindo-se impotente por não ter o apoio popular necessário para chegar ao poder. E, ao Brasil, a mesma desgraça que acometeu Israel: ter de ser administrado por um líder de meia tigela quando havia um Nobel da paz à disposição.
Alguém diga então ao ministro: "Serra, quando ela se insinuar e fizer aquele cafuné, der beijinho na orelha, faz de conta que você não tá aí, que tá com sono, 'quem sabe se a gente só olhar um vídeo hoje à noite ?'". Dá uma cochiladinha, deixa que ela te acorde e te chame...sem forçação de barra...fica mais agradável. Pros dois.
Serra, Shimon Peres e o que querem as mulheres
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Se Freud, do alto de seu conhecimento da psique humana, confessava não saber o que queriam as mulheres, é sinal de que a tarefa talvez não esteja ao alcance de nós, pobres mortais. De todas as insondáveis artimanhas e trejeitos do sexo oposto, uma particularmente me fascina, que é o balé da sedução-conquista-relutância-entrega.Ambos os bailarinos sabem -ou pelo menos deveriam saber- de cor seus papéis. Já passados os rituais primeiros da sedução e tendo a conquista sido garantida, começa o elaborado jogo. Os dois sabem que passarão a noite juntos. Há um desejo recíproco. E a mulher quer que seu homem demonstre carinho, e interesse, e volúpia, mas que controle o seu desejo, que aparente calma e uma certa indiferença. Quer, paradoxalmente, ser alvo de todas as atenções e desejos de seu companheiro, mas que a sofreguidão não se transforme em afoiteza. Basta uma mão no lugar errado, um olhar de lascívia numa má hora e corre-se o risco de ser refugado. Então cabe a nós, homens, a tarefa árdua de desejar sem aparentar nem pressa nem diferença em demasia. Para parafrasear o senador Pinheiro Machado, quando perguntado por seu motorista como deveria dirigir em meio à turba agressiva: "Nem tão ligeiro que pareça medo, nem tão devagar que pareça provocação".
A imagem me veio à cabeça quando penso na relação do eleitor com o seu representante, especialmente o presidente da República. É outro balé de acordos tácitos. O votante quer um líder de pulso, alguém que ame seu país e seu povo a ponto de não querer dedicar sua vida a outra coisa que não o bem comum. Quer alguém ambicioso, quase heróico; um misto de pai e super-herói. Mas não quer, nem gosta de ver, em seus eleitos uma sofreguidão pelo poder, uma obsessão maníaca por cargos. Assim como o conquistador de sucesso, o bom político tem de conseguir fazer de conta que não se importa muito com o resultado das eleições, que, bom, já que o povo insiste, ele vai lá, mas preferiria mesmo era ter o seu escritoriozinho de advocacia ou engenharia. E cabe ao eleitor, assim como à mulher sensata, ouvir aquelas mentiras e encenações e aceita-las como verdade, porque, enfim, vivemos em sociedade, temos regras a respeitar. Mas, ao contrário das mulheres, a atitude do eleitor é facilmente compreensível e faz todo sentido: ele quer um candidato "cool" porque os obsessivos não estão na batalha para defender os interesses da população, mas sim de seu ego. E a egolatria das lideranças, especialmente em regimes ditatoriais, mas também nos democráticos, tende a provocar desastres para a população.
O exemplo mais acabado do efeito nocivo do amor despudorado pelo poder é do político israelense Shimon Peres. Prêmio Nobel da paz, admirado no exterior, Peres tem dificuldade de ganhar eleição até pra síndico em seu país, mesmo sendo o homem público mais preparado de sua geração, dono de um intelecto espantoso e uma biografia irretocável.
Peres perdeu quase todas as eleições para as quais se candidatou porque maquinava tanto, fazia tantos acordos de conveniência, estava tão desesperado para entrar para a História, que ninguém conseguia confiar nele. Ano passado, teve sua derrota mais retumbante: perdeu a eleição para presidente -cargo meramente decorativo em um regime parlamentarista- para um virtual desconhecido, Moshe Katsav. E, agora, em mais um ato de sua agonia pelo poder, juntou-se a um governo com o vergonhoso Ariel Sharon, e não tenho dúvidas que vai fazer o possível para derruba-lo, assim que a oportunidade vier.
Vendo os primeiros esboços da campanha presidencial de 2002, noto semelhanças indefectíveis entre Peres e seu congênere brasileiro, José Serra. Como Peres, Serra tem uma inteligência monstruosa, uma vida dedicada ao serviço público e uma sabedoria aguda dos problemas que afetam seu país. E, assim como Peres, transmite a impressão de que só se importa com essas coisas porque elas o levarão à Presidência, e não vice-versa, como deveria ser. Por isso, sente-se em Serra a mesma falta de empatia -não simpatia, mas empatia- que se sente em Peres. E talvez aconteça com Serra o mesmo infortúnio que acometeu Peres: ver seu país complicar-se, afundar mais no problema quando a solução estava ali à mão, sentindo-se impotente por não ter o apoio popular necessário para chegar ao poder. E, ao Brasil, a mesma desgraça que acometeu Israel: ter de ser administrado por um líder de meia tigela quando havia um Nobel da paz à disposição.
Alguém diga então ao ministro: "Serra, quando ela se insinuar e fizer aquele cafuné, der beijinho na orelha, faz de conta que você não tá aí, que tá com sono, 'quem sabe se a gente só olhar um vídeo hoje à noite ?'". Dá uma cochiladinha, deixa que ela te acorde e te chame...sem forçação de barra...fica mais agradável. Pros dois.
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Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas E-mail: desembucha@uol.com.br |
