Gustavo Ioschpe
11/04/2001
Agora imagine que, meio ano depois desse incidente, um avião de espionagem chinês sobrevoa a costa americana, a poucos quilômetros de distância de seu território. Imagine ainda que este avião chinês, interceptado - nas proximidades da costa americana, frise-se mais uma vez - por dois caças americanos, bate em um deles. O caça cai no mar, o piloto desaparece. O avião-espião pousa em território americano. Imagine que o governo americano seja camarada e não queira julgar esses tripulantes como espiões, e que a China se recuse a pedir desculpas pelo ocorrido.
Difícil imaginar se o mais inusitado das combinações dessas duas situações é a sua inverossimilhança ou seu provável resultado (de rompimento diplomático e comercial americano à declaração de guerra à China). E o inusitado só é substituído por outro, a ser discutido logo adiante, porque as situações acima não são frutos de histórias de ficção científica mas sim eventos reais, apenas com sinais trocados: onde se lê China, leia-se Estados Unidos, e vice-versa.
O primeiro caso se refere à escandalosa prisão de Wen Ho Lee, cientista de origem chinesa preso no prestigioso laboratório de Los Alamos, acusado de ser espião chinês. O Dr. Lee passou nove meses numa solitária, para depois ser solto por falta de provas.
O episódio vem à mente porque só confirma a imagem explicitada nessa última crise da queda do avião-espião americano, esta presenciada por todos. A prepotência que norteava as ações da polícia federal no episódio do Dr. Lee é a mesma que se vê agora, em sua face "for export". Patrulhar continuamente a costa de um até há pouco "parceiro estratégico" já é arrogância suficiente, mas faz parte do jogo. Quando o avião responsável pela espionagem colide com um avião chinês e mata o seu piloto nas rebarbas (ou talvez dentro) das águas territoriais chinesas e os americanos se negam a simplesmente pedir desculpas pelo ocorrido, e insinuam mesmo com sanções que vão desde boicote à entrada chinesa à OMC até o veto às Olimpíadas de Pequim em 2008, aí é roteiro que nem Ang Lee e Steven Spielberg, juntos, poderiam imaginar. Que os EUA possam violar tudo que se entende por relações internacionais e respeito à soberania alheia e ao bom senso comum com a desfaçatez de não só não se desculpar, mas de ameaçar retaliações (?!), é sinal de que estamos sendo controlados por uma polícia global com a mesma truculência daquela da Favela Naval, que chega dando tapa e sai dando tiro.
Passei a semana passada, por acaso, nos EUA , e tive a oportunidade de presenciar o mais infeliz de tudo: a miopia dos meios de comunicação locais é tamanha que tinha a capacidade de dizer, com fervor acusatório, que a população chinesa estava contra os americanos porque estavam recebendo suas notícias de uma imprensa controlada pelo governo. Os paladinos da liberdade mostravam, então, como é que se fazia jornalismo imparcial: sempre que queria ouvir o outro lado, entrevistava um membro do partido democrata. De chinês, só caricatura.
Chomsky já mostrava que o jeito mais fácil de propagar uma inverdade com fins doutrinários não é mentir, mas simplesmente limitar a discussão para um campo convenientemente estreito, que deixasse o dissentâneo à margem, falando sozinho, tal qual um louco. Tivesse Goebbels aprendido essa manha e quem sabe hoje seríamos governados por Adolf Hitler Jr.
Dois pesos, duas medidas
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Considere o seguinte cenário: um cientista nuclear de origem americana morando na China é acusado de ser um espião dos EUA, de ter-lhes passado segredos sobre uma das ogivas nucleares mais sofisticadas do mundo. Esse cientista é preso, acusado de 59 crimes. Sua história sai na capa do jornal mais importante do país, seus supostos atos viram alvo de uma comissão parlamentar de inquérito. O cientista - americano, frise-se - fica em prisão solitária por nove meses. Depois desse período, 58 das acusações contra ele são abandonadas, e ninguém consegue provar a sua culpa, em uma ação vergonhosa envolvendo a Polícia Federal, o serviço de espionagem e o Ministério da Energia.Agora imagine que, meio ano depois desse incidente, um avião de espionagem chinês sobrevoa a costa americana, a poucos quilômetros de distância de seu território. Imagine ainda que este avião chinês, interceptado - nas proximidades da costa americana, frise-se mais uma vez - por dois caças americanos, bate em um deles. O caça cai no mar, o piloto desaparece. O avião-espião pousa em território americano. Imagine que o governo americano seja camarada e não queira julgar esses tripulantes como espiões, e que a China se recuse a pedir desculpas pelo ocorrido.
Difícil imaginar se o mais inusitado das combinações dessas duas situações é a sua inverossimilhança ou seu provável resultado (de rompimento diplomático e comercial americano à declaração de guerra à China). E o inusitado só é substituído por outro, a ser discutido logo adiante, porque as situações acima não são frutos de histórias de ficção científica mas sim eventos reais, apenas com sinais trocados: onde se lê China, leia-se Estados Unidos, e vice-versa.
O primeiro caso se refere à escandalosa prisão de Wen Ho Lee, cientista de origem chinesa preso no prestigioso laboratório de Los Alamos, acusado de ser espião chinês. O Dr. Lee passou nove meses numa solitária, para depois ser solto por falta de provas.
O episódio vem à mente porque só confirma a imagem explicitada nessa última crise da queda do avião-espião americano, esta presenciada por todos. A prepotência que norteava as ações da polícia federal no episódio do Dr. Lee é a mesma que se vê agora, em sua face "for export". Patrulhar continuamente a costa de um até há pouco "parceiro estratégico" já é arrogância suficiente, mas faz parte do jogo. Quando o avião responsável pela espionagem colide com um avião chinês e mata o seu piloto nas rebarbas (ou talvez dentro) das águas territoriais chinesas e os americanos se negam a simplesmente pedir desculpas pelo ocorrido, e insinuam mesmo com sanções que vão desde boicote à entrada chinesa à OMC até o veto às Olimpíadas de Pequim em 2008, aí é roteiro que nem Ang Lee e Steven Spielberg, juntos, poderiam imaginar. Que os EUA possam violar tudo que se entende por relações internacionais e respeito à soberania alheia e ao bom senso comum com a desfaçatez de não só não se desculpar, mas de ameaçar retaliações (?!), é sinal de que estamos sendo controlados por uma polícia global com a mesma truculência daquela da Favela Naval, que chega dando tapa e sai dando tiro.
Passei a semana passada, por acaso, nos EUA , e tive a oportunidade de presenciar o mais infeliz de tudo: a miopia dos meios de comunicação locais é tamanha que tinha a capacidade de dizer, com fervor acusatório, que a população chinesa estava contra os americanos porque estavam recebendo suas notícias de uma imprensa controlada pelo governo. Os paladinos da liberdade mostravam, então, como é que se fazia jornalismo imparcial: sempre que queria ouvir o outro lado, entrevistava um membro do partido democrata. De chinês, só caricatura.
Chomsky já mostrava que o jeito mais fácil de propagar uma inverdade com fins doutrinários não é mentir, mas simplesmente limitar a discussão para um campo convenientemente estreito, que deixasse o dissentâneo à margem, falando sozinho, tal qual um louco. Tivesse Goebbels aprendido essa manha e quem sabe hoje seríamos governados por Adolf Hitler Jr.
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Gustavo Ioschpe Ex-colunista da Folha, faz mestrado em Yale, Estados Unidos, e escreve também para várias revistas E-mail: desembucha@uol.com.br |

