Pensata

Kennedy Alencar

23/09/2005

Lula caminha para derrota

Publicidade
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um homem de sorte, mas abusa muito dela. Depois de ter sofrido derrota política acachapante em fevereiro, quando Severino Cavalcanti derrotou dois petistas e se elegeu presidente da Câmara, Lula aprofundou a forte tendência de cometer erros politicos. Tendência bem observada pelo governador Aécio Neves (MG), um dos poucos tucanos que mantêm canal com o presidente da República.
A crise do mensalão, resultado do namoro do PT com a corrupção, tem sido agravada pela inábil forma como o governo administra a crise. Mesmo assim, a sorte tem ajudado Lula.

Nas três CPIs em andamento no Congresso, há luta menor por holofotes, algum resultado concreto (quem recebeu recursos de Marcos Valério) e uma lacuna tremenda (de onde veio esse dinheiro?). Mais uma vez, há pouco ânimo para investigar os corruptores. Ou alguém acha que Valério bancou a farra sozinho?

Nesse contexto, Lula se beneficia, pois até a oposição recua na hora de aprofundar as investigações e chegar aos grandes corruptores, que são, por sua vez, os grandes financiadores de campanha. Exemplo: o dócil comportamento da oposição no depoimento do banqueiro Daniel Dantas, muito protegido pelo PFL.

Outro lance de sorte para Lula: aparece o mensalinho de Severino, que renuncia e abre espaço para o governo tentar negociar com a oposição um acordo. Surge a chance de o governo serenar um pouco o conflagrado ambiente congressual. Mas Lula dá sinais de que poderá jogar fora mais essa oportunidade.

Isolado politicamente por erros seus e do PT, o presidente não teria muita alternativa se analisasse friamente sua situação na Câmara. A base do governo acabou. Está mais fraca do que em fevereiro, quando foi derrotada pelo baixo clero. A oposição joga unida. E o PMDB, partido ambíguo, virou o fiel da balança.

Ora, caberia a Lula tentar um entendimento com o PMDB e a oposição. Um peemedebista como Michel Temer, ex-presidente da Casa, teria chance de ser aceito pelos dois lados desde que governo e oposição entendessem que a gravidade da crise exige a tentativa de buscar um consenso.

A oposição prefere tentar emplacar um nome dela, o pefelista José Thomaz Nonô. Auxiliares de Lula buscam um acordo com Temer, mas o PT e parte da ala governista do PMDB resistem. Lula não decide, e os fatos o atropelam.

Em menos de 24 horas, morreu a candidatura do líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), para suceder Severino. Apesar de saber que Chinaglia não tinha chance de vencer, Lula deixou que fosse lançado. O recuo, porém, não cairá na conta do PT, mas na sua. É mais uma trapalhada do governo, que pode ter feito outra: escolher o ex-ministro Aldo Rebelo para substituir Chinaglia. Apenas o PSB se uniu ao PT para apoiar Aldo, do PC do B paulista.

Aliados do governo, PP, PL e PMDB preferiram manter, pelo menos por ora, os seus candidatos --respectivamente Francisco Dorneles (RJ), João Caldas (AL) e Michel Temer (SP). Num quadro de forte disputa, Temer pode não concorrer.

Aldo, político cordato, inteligente e fritado pelo PT quando ministro, não conseguiu unir a base do governo quando estava no extinto Ministério da Coordenação Política. Dificilmente o fará agora. Mais: era o coordenador político oficial do governo quando Severino foi eleito. E pertence a um partido com apenas 9 membros na Câmara. Pode até ser que Aldo vença, mas é improvável.




Última chance?

Se a sorte ajudar muito Lula, ele poderá se reeleger. Governará, então, com quais forças? O PMDB, que já tem um pé no governo, seria opção natural. A legenda está com 87 deputados. Pode passar de 90 até o dia 30. É um partido grande, vital para a governabilidade de um presidente no Congresso.

Na eleição para presidir a Câmara, Lula tem a oportunidade de tentar um acerto com ala oposicionista, apoiando Temer. Assim, conseguiria aumentar a parcela do partido que o apóia no Congresso, dar um sinal em relação a 2006, pavimentar aliança para um eventual segundo governo.

Um presidente e um partido que enfrentam grave crise política agiriam assim. Lula e o PT, porém, preferem trilhar o caminho da derrota.
Kennedy Alencar, 39, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.

E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca