Kennedy Alencar
14/10/2005
No Brasil, já não é mais comum encontrar a figura do migrante português que vem começar um pequeno negócio em busca da prosperidade econômica que não alcançou em Portugal. O perfil é outro. Grandes empresários que investem no turismo e na telefonia, por exemplo. Chegam comprando hotéis e terrenos no Nordeste, região na qual respondem por 1% da economia.
Comum agora é ver brasileiros, muitos deles descendentes de portugueses, chegar à Europa para fugir da crônica crise tupiniquim. Em 1974, com a Revolução dos Cravos, houve o fim da ditadura salazarista. A revolução foi batizada com esse nome porque a população distribuiu cravos (flor nacional) em comemoração ao fim da ditadura que teve início em 1932.
A redemocratização foi fundamental para o desenvolvimento econômico português, mas ele ganhou impulso de verdade quando o país entrou na União Européia em 1986. Desde então, Portugal vive forte ciclo de expansão econômica. Expansão que encontra agora seus limites, mas que ainda é muito atrativa para quem vive no pobre e desigual Brasil.
Além da língua comum, há outras características de Portugal que fazem os brasileiros se sentir em casa, como a arquitetura, a comida e até uma familiar burocracia algo exagerada e lenta. Os brasileiros formam hoje a maior comunidade estrangeira de um país com pouco mais de 10 milhões de habitantes. Não existem estatísticas confiáveis. Autoridades dos países falam em 100 mil brasileiros, mas algumas acham que há mais. Algo por volta de 120 mil. Desses, 85 mil estariam em situação legal.
Andando por Lisboa e Porto
A maioria dos brasileiros vive de subempregos, também atraentes se comparados aos salários da terra natal (mesmo as remunerações em empregos formais). O mineiro Robson, 28 anos, casado, é um dublê de vigia e manobrista num estacionamento nas docas de Lisboa, área turística com restaurantes, bares e discotecas. Ganha 800 euros por mês (R$ 2.400). Um irmão tenta ajudá-lo a obter trabalho numa empresa de prestação de serviços de limpeza. "Acho que pode render um salário de 1.200 euros", diz Robson, num tom de comemoração. Ele diz que comer em casa é barato e que os eletrodomésticos não são caros. Fez as contas e diz que pode comprar um TV 20 polegadas por 70% do preço que pagaria no Brasil.
Robson pretende voltar um dia. Como também pretendem três moças de Santa Catarina que trabalham como garçonete num restaurante próximo ao local de trabalho de Robson. Uma delas, Luana, 22 anos, conta que tem dificuldade de conviver com os portugueses, mais fechados do que os brasileiros, mas que o dinheiro que está ajudando vai dar para comprar uma casa ou apartamento no Brasil. "Vou ficar uns três ou quatro anos. Depois, volto para Floripa. Não me adaptei. Aqui é só trabalho", afirma Luana.
Robson e Luana podem ser considerados felizardos se comparados a outros migrantes. Na região do Porto, de onde partiram as maiores levas de portugueses que colonizaram o Brasil, há ainda um agravante: tráfico ilegal de mulheres brasileiras para prostituição em Portugal e Espanha.
Aliás, a mulher brasileira tem a imerecida fama de "fácil em Portugal, país muito mais conservador do que o Brasil em termos de costume. Essa imagem de "quase prostituta" é também forte em outros países da Europa.
Entre 10 e 20 brasileiras são presas semanalmente na área do Porto, cidade rodeada de indústrias e de municípios com os nomes de famílias do Brasil (Guimarães e Braga, por exemplo). A maioria das brasileiras é mandada de volta ao Brasil --uma boa notícia em relação à vida de escravidão que levam. Elas têm o passaporte apreendido pelo dono do estabelecimento comercial e contraem uma dívida que nunca conseguem pagar. Num piscar de olhos, o sonho dourado se transforma num pesadelo.
Forte simbolismo
Lula marcou um gol ao obter nesta semana do primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, sinais de que terá boa vontade para legalizar parte dos brasileiros. Multas poderão ser perdoadas. A burocracia deverá ser diminuída.
O presidente também recebeu pessoalmente membros da comunidade brasileira. Ouviu queixas de todos os tipos, de detenção prolongada em aeroporto a taxas cobradas pelo serviço diplomático brasileiro. Para quem está fora é relevante e carinhosa demonstração de atenção. Ponto para o presidente, que tem feito encontros desse tipo em todos os países em que há presença significativa de migrantes do Brasil.
Sonho e pesadelo em Portugal
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No primeiro semestre deste ano, Portugal passou a ser o principal destino turístico de brasileiros que viajam para a Europa. Parte desse contingente, porém, busca na verdade um recomeço de vida e não uma lúdica e bela viagem de férias a um fascinante país que adora a cultura brasileira --da música às telenovelas que muitas vezes mostram um glamour excessivo e irreal. No começo do século 21, mais de 500 anos depois de os portugueses terem descoberto o Brasil, há uma inversão do fluxo migratório. Com o que ele traz de bom e de ruim para ambos os países.No Brasil, já não é mais comum encontrar a figura do migrante português que vem começar um pequeno negócio em busca da prosperidade econômica que não alcançou em Portugal. O perfil é outro. Grandes empresários que investem no turismo e na telefonia, por exemplo. Chegam comprando hotéis e terrenos no Nordeste, região na qual respondem por 1% da economia.
Comum agora é ver brasileiros, muitos deles descendentes de portugueses, chegar à Europa para fugir da crônica crise tupiniquim. Em 1974, com a Revolução dos Cravos, houve o fim da ditadura salazarista. A revolução foi batizada com esse nome porque a população distribuiu cravos (flor nacional) em comemoração ao fim da ditadura que teve início em 1932.
A redemocratização foi fundamental para o desenvolvimento econômico português, mas ele ganhou impulso de verdade quando o país entrou na União Européia em 1986. Desde então, Portugal vive forte ciclo de expansão econômica. Expansão que encontra agora seus limites, mas que ainda é muito atrativa para quem vive no pobre e desigual Brasil.
Além da língua comum, há outras características de Portugal que fazem os brasileiros se sentir em casa, como a arquitetura, a comida e até uma familiar burocracia algo exagerada e lenta. Os brasileiros formam hoje a maior comunidade estrangeira de um país com pouco mais de 10 milhões de habitantes. Não existem estatísticas confiáveis. Autoridades dos países falam em 100 mil brasileiros, mas algumas acham que há mais. Algo por volta de 120 mil. Desses, 85 mil estariam em situação legal.
Andando por Lisboa e Porto
A maioria dos brasileiros vive de subempregos, também atraentes se comparados aos salários da terra natal (mesmo as remunerações em empregos formais). O mineiro Robson, 28 anos, casado, é um dublê de vigia e manobrista num estacionamento nas docas de Lisboa, área turística com restaurantes, bares e discotecas. Ganha 800 euros por mês (R$ 2.400). Um irmão tenta ajudá-lo a obter trabalho numa empresa de prestação de serviços de limpeza. "Acho que pode render um salário de 1.200 euros", diz Robson, num tom de comemoração. Ele diz que comer em casa é barato e que os eletrodomésticos não são caros. Fez as contas e diz que pode comprar um TV 20 polegadas por 70% do preço que pagaria no Brasil.
Robson pretende voltar um dia. Como também pretendem três moças de Santa Catarina que trabalham como garçonete num restaurante próximo ao local de trabalho de Robson. Uma delas, Luana, 22 anos, conta que tem dificuldade de conviver com os portugueses, mais fechados do que os brasileiros, mas que o dinheiro que está ajudando vai dar para comprar uma casa ou apartamento no Brasil. "Vou ficar uns três ou quatro anos. Depois, volto para Floripa. Não me adaptei. Aqui é só trabalho", afirma Luana.
Robson e Luana podem ser considerados felizardos se comparados a outros migrantes. Na região do Porto, de onde partiram as maiores levas de portugueses que colonizaram o Brasil, há ainda um agravante: tráfico ilegal de mulheres brasileiras para prostituição em Portugal e Espanha.
Aliás, a mulher brasileira tem a imerecida fama de "fácil em Portugal, país muito mais conservador do que o Brasil em termos de costume. Essa imagem de "quase prostituta" é também forte em outros países da Europa.
Entre 10 e 20 brasileiras são presas semanalmente na área do Porto, cidade rodeada de indústrias e de municípios com os nomes de famílias do Brasil (Guimarães e Braga, por exemplo). A maioria das brasileiras é mandada de volta ao Brasil --uma boa notícia em relação à vida de escravidão que levam. Elas têm o passaporte apreendido pelo dono do estabelecimento comercial e contraem uma dívida que nunca conseguem pagar. Num piscar de olhos, o sonho dourado se transforma num pesadelo.
Forte simbolismo
Lula marcou um gol ao obter nesta semana do primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, sinais de que terá boa vontade para legalizar parte dos brasileiros. Multas poderão ser perdoadas. A burocracia deverá ser diminuída.
O presidente também recebeu pessoalmente membros da comunidade brasileira. Ouviu queixas de todos os tipos, de detenção prolongada em aeroporto a taxas cobradas pelo serviço diplomático brasileiro. Para quem está fora é relevante e carinhosa demonstração de atenção. Ponto para o presidente, que tem feito encontros desse tipo em todos os países em que há presença significativa de migrantes do Brasil.
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Kennedy Alencar, 39, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos. E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br |
