Pensata

Kennedy Alencar

25/08/2006

Lula faz um bom governo

Quando eleito presidente em outubro de 2002, Luiz Inácio Lula da Silva disse numa conversa informal que tinha três grandes decisões a tomar: impedir um desastre na economia, resgatar parte da dívida social e não errar na política ao montar uma base de apoio no Congresso.

No atacado, Lula acertou nas questões econômica e social. Apesar de críticas pontuais, o Brasil melhorou nessas áreas. Um dos principais motivos foi Lula ter dado continuidade e ampliado políticas que tiveram início no governo do tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Na articulação política, porém, o petista patrocinou um desastre.

Lula tem feito um bom governo. O Brasil não virou uma maravilha em quatro anos. Mas os mais pobres realmente foram beneficiados pelo controle ainda mais rigoroso da inflação e por políticas de descompressão social. A principal promessa de 2002 foi cumprida.

Por menosprezar isso, a oposição caminha para a derrota. Jogou todas as fichas na esperança de que escândalos de corrupção abateriam o presidente e deixariam em segundo plano a mudança para melhor na vida dos mais necessitados. Num país tão desigual e pobre, olhou para a árvore, mas não enxergou a floresta.

De acordo com pesquisa Datafolha divulgada na terça-feira (22/08), o governo Lula teve aprovação recorde desde 1987, quando o instituto começou a avaliar administrações federais.

No Datafolha, 52% dos entrevistados consideram o atual governo ótimo ou bom. Para 31%, é uma gestão regular. E 16% a avaliam como péssima. Será que tanta gente está errada? Ou será que a oposição e a imprensa não enxergaram alguma coisa?

Abaixo, seguem bastidores que mostram como Lula agiu a respeito de cada uma das três grandes decisões que ele próprio listou como prioritárias. Teve sensatez e ousadia em duas delas. Omitiu-se e foi inábil na terceira.




A revelação e a dura travessia

Lula passou a campanha de 2002 dando corda à idéia de que um empresário comandaria o Ministério da Fazenda. Precisava se mostrar confiável aos mercados e à elite nacional. Depois de ter vencido o tucano José Serra em segundo turno (25 de outubro), Lula discutiu com seu "núcleo duro" (grupo de auxiliares com o qual tomava as grandes decisões) uma mudança de plano: a área econômica ficaria a cargo de um petista de sua confiança.

"Agora que eu ganhei, vou dar a Fazenda para alguém de fora do PT? Claro que o ministro será do PT", disse Lula a um confidente no início de novembro de 2002. Optou pelo médico Antonio Palocci Filho, que propôs uma "travessia dolorosa": aperto fiscal e monetário mais rigoroso do que o implementado por FHC.

Lula bancou o ministro, que o persuadiu cotidianamente a não mudar de rumo. Em alguns momentos, Palocci esteve quase fora do governo por conta de maus resultados econômicos. Mas acabou caindo no "caseirogate" por uma atitude incompatível com o estado democrático de direito. Palocci foi a maior revelação política do governo Lula, para o bem e para o mal.

Hoje, o PT que tanto bombardeou o paloccismo comemora o bom desempenho econômico na propaganda na TV. Em 2006, o Brasil terá inflação na casa dos 4% e um crescimento do PIB entre 3,5% e 4%.




"Solta mais dinheiro aí, Palocci"

A frase acima foi dita por Lula no final de 2003, quando o governo criou o programa Bolsa-Família e começou a desenhar uma política social mais ampla que a da gestão anterior. No Palácio do Planalto, Lula e Palocci se reuniram com idealizadores do Bolsa-Família que apresentariam as metas ano a ano até 2006.

Lula foi informado de que FHC investira em 2002 cerca de R$ 2 bilhões em programas de transferência de renda com condicionalidade (que os filhos freqüentem a escola, por exemplo). Palocci pensou em dobrar esse valor, mas Lula achou pouco. Disse que tinha sido informado de que 11,2 milhões de famílias formavam uma "linha da pobreza" no país. Esse era o número de pobres apontado pela Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2002, com renda de até R$ 100 por pessoa da família.

"Solta mais dinheiro aí, Palocci", disse Lula, decidindo qual seria a meta do Bolsa-Família até o final do seu mandato. Para cumprir o plano, o governo gastará R$ 8,5 bilhões neste ano _quatro vezes mais do que FHC em 2002, seu último ano de governo.




PMDB e PT

Na negociação do primeiro ministério de Lula, o coordenador político da transição, José Dirceu, acertou a entrega de duas pastas ao PMDB. Com 90 deputados, o PT precisava compor com partidos de centro e centro-direita para ter maioria na Câmara.

Lula achou demais. Primeiro, queria ceder um ministério só. Segundo, tinha implicância com peemedebistas. Achava-os pouco confiáveis. Sentindo-se fortalecido pelas urnas, daria cargos ao partido somente depois de o PMDB apoiar as reformas tributária e da Previdência.

"Vou compor com o PMDB no governo", disse Lula em reunião com prefeitos num hotel de Brasília, desautorizando Dirceu. Foi o maior erro político de Lula. Ele nunca contou com uma base de sustentação de verdade. Até o PT boicotava parte de suas propostas legislativas. Lula sempre precisou da oposição para aprovar os grandes projetos.

Nas crises políticas, ficou sem proteção e não teve força para evitar CPIs, apesar de ter tentado. Não é verdade que Lula permitiu as investigações congressuais. Foi atropelado por elas.

Em Brasília, é comum jornalistas fazerem uma brincadeira: "Há dois tipos de políticos. Os que precisam de dinheiro para fazer política. E os que precisam da política para fazer dinheiro".

O PT e Lula sempre rejeitaram pertencer a um dos grupos. Cresceram política e eleitoralmente sustentando que eram diferentes. No poder, integraram o time daqueles que precisam de dinheiro para fazer política, numa hipótese benevolente.

José Genoino não entendeu até hoje o que aconteceu. Diz que o mensalão não existiu. Ataca a imprensa. Diz que ninguém roubou para meter no bolso. Fala que tudo foi mero caixa 2, como se financiamento de partidos e corrupção governamental fossem coisas de planetas diferentes.

Parte da oposição também usa esse discurso, dizendo que o caixa 2 de Eduardo Azeredo é menos grave do que o mensalão. No fundo, são a mesma coisa. Um bandido presta favores ao partido do poder em troca da chance de ganhar dinheiro em negócios com o governo. O nome disso é corrupção.

Delúbio Soares e Silvio Pereira não tinham o menor preparo para as suas missões. Respectivamente, tesouraria e divisão de cargos entre aliados. Dirceu não soube exercer o imenso poder que deteve na Casa Civil.

O pecado maior de Lula foi sua omissão na articulação política. Seu erro derivou de um misto de negligência e impaciência para tratar de um tal assunto vital à governabilidade no presidencialismo brasileiro. Para piorar, saiu-se com desculpas esfarrapadas, como dizer que o PT fez o que todos os partidos fazem.

Hoje, Lula paga o preço de uma tremenda desilusão de grande parcela do eleitorado mais bem informado com a política, o governo e o PT. O presidente corre risco de cometer outro tremendo equívoco se julgar que uma reeleição no primeiro turno significará absolvição do escândalo do mensalão. Os desempenhos na economia, no social e na política não cabem na mesma cesta. Ou melhor, na mesma urna.
Kennedy Alencar, 39, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.

E-mail: kennedy.alencar@grupofolha.com.br

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