Pensata

Kennedy Alencar

22/06/2007

As duas faces de Renan

A estratégia de sobrevivência política do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), divide-se em duas frentes: a pública, cordial e equilibrada, e a reservada, agressiva e vingativa.

Do que Renan diz publicamente, somente o desejo de resistir no cargo deve ser levado a sério. Ele realmente está disposto, no atual momento, a enfrentar sentado na cadeira de presidente um eventual processo de cassação do mandato de senador. Mas pode reavaliar essa disposição em breve, dizem amigos. Por ora, porém, está grudado na cadeira.

Seu principal conselheiro nessa questão tem sido o deputado federal Jader Barbalho (PMDB-PA), ex-presidente do Senado. Jader enfrentou processo parecido com o de Renan em 2001. Licenciou-se da presidência para tentar sobreviver a acusações que questionavam a lisura de seu patrimônio. Não foi suficiente. Teve de renunciar ao mandato para poder concorrer em 2002, quando se elegeu deputado.

Desde então, Jader, um político de peso nos anos FHC, não recuperou sua força. É hoje um hábil articulador nos bastidores, mas tem dificuldade para alçar vôos mais altos --um ministério, por exemplo. Temendo o mesmo destino, Renan resolveu endurecer. Abrir mão de um centímetro de poder, pensa, seria caminhar para o cadafalso por conta própria.

De público, o presidente do Senado diz que as votações acontecerão normalmente na Casa. Rechaça a possibilidade de paralisia legislativa e de crise institucional. Nega ameaças a senadores.

Em desabafos reservados, porém, diz que poderá ficar 200 dias na cadeira de presidente do Senado suportando ataques. Afirma que já sofreu o desgaste político. Diz que sua vida privada já foi afetada ao máximo. Aliados e amigos se encarregam de revelar supostos fatos incômodos a respeito de outros senadores, pura chantagem velada.

Na presidência do Senado, Renan poderá atrapalhar muito a vida do governo e de colegas. Desafia senadores a questioná-lo na sessões da Casa. Enfim, é outro Renan. Disposto, inclusive, a criar problemas para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de dizer o contrário nas raras declarações públicas.

Kennedy Alencar, 39, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

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