Pensata

Kennedy Alencar

13/07/2007

Tio Ben na Casa Branca

Editorial do "New York Times" de 8 de julho, domingo, dizia que o mundo "precisa da aplicação sábia do poderio e dos princípios americanos". O texto, intitulado "Manter ocupação é uma traição dos EUA ao mundo", referia-se à guerra do Iraque.

O trecho do editorial deveria nortear a política da nação mais rica e poderosa do mundo não apenas para o conflito no Oriente Médio, mas também para ações em outros assuntos. O ambiental, tão em voga por causa do aquecimento global, é um deles.

O gigantesco orçamento militar americano (cerca de meio trilhão de dólares em 2007) não existe por suposto espírito bélico ou por amor ao desejo de levar a "superior" democracia ocidental a todos os cantos do planeta. O dinheiro gasto na indústria armamentista cria empregos, gera fortunas, vitamina empresas, aquece a economia norte-americana.

O projeto de escudo antimísseis na Europa oriental soa anacrônico e paranóico. Não há Guerra Fria ou ameaça iraniana real a justificá-lo. No entanto, será uma oportunidade de negócios tão atraente para empresas americanas como tem sido a Guerra do Iraque.

Uma aplicação sábia da liderança e força americana significaria, por exemplo, redução do gasto militar em benefício de tecnologias que produzam energia limpa ou menos agressiva ao meio-ambiente. Os EUA já entraram na onda de Lula sobre os biocombustíveis. É uma parte da solução, mas não será a salvação da lavoura. Para alguns, o etanol pode até ser a perdição da lavoura. Parece exagero, mas isso é tema para outra coluna.

Investimentos na produção de energia eólica e solar, de modo a baratear sua expansão em escala global, seria um uso inteligente e responsável do poder americano. Hoje, essas fontes de energia são muito caras na comparação com petróleo, etanol, gás e carvão. O mais rico e forte país do planeta deveria liderar uma substituição paulatina das fontes de energia mais hostis ao meio ambiente.

No entanto, o presidente George W. Bush prefere continuar a ignorar o Protocolo de Kyoto e a pregar que os países em desenvolvimento reduzam voluntariamente suas emissões de carbono na atmosfera. Setores da intelectualidade americana bombardeiam os biocombustíveis. Exemplo recente: Lester Brown, um pioneiro do movimento ambientalista influente em Washington, diz que os biocombustíveis são a maior ameaça à biodiversidade na Terra.

Mais: caso a classe média chinesa no futuro breve, diz Brown, tenha o padrão de consumo da classe média americana, o planeta não terá como acomodar todos. Ou seja, a ascensão social que os pobres do mundo almejam, tão própria da natureza humana, é uma ameaça à Terra.

Então, o que fazer? Talvez seguir o conselho do editorial do "New York Times" seja um belo começo.

Os americanos aceitariam trocar seus jipões de seis e oito cilindros por carros mais ecoamigáveis? A elite americana, como fez o jornal mais influente do mundo, está disposta a pressionar seu governo a tomar decisões à altura da liderança global dos EUA?

Será possível o G-7, grupo de sete países mais ricos do planeta, fazer concessões na OMC (Organização Mundial de Comércio) para alavancar o desenvolvimento dos países mais pobres? A opinião pública de países da Europa, que já tem alto grau de consciência ecológica, poderia pressionar os seus líderes a discutir com menor conservadorismo o forte protecionismo agrícola do continente?

Demonizar os Estados Unidos e os países ricos é saída demagógica e improdutiva. Não se trata disso, muito menos de deixar de cobrar dos países emergentes respeito ao meio ambiente na medida em que suas economias se desenvolvam. Trata-se de fazer uma discussão sem viés, sem que um lado, no caso o menos próspero, pague fatia maior da conta.

Os efeitos negativos do legítimo desejo dos mais pobres de melhorar de vida, bem à maneira do sonho americano, devem ser resolvidos de forma compartilhada pelo mundo inteiro. Congelar a miséria não vai dar. Como disse o tio Ben a Peter Parker: "Lembre-se, com grande poder vem grande responsabilidade".

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Em tempo

Haverá eleição presidencial nos Estados Unidos em 2008. Infelizmente, Ben Parker foi assassinado. Mas, quem sabe, o tio do Homem-Aranha não sirva de inspiração aos republicanos e democratas que aspiram suceder Bush filho.

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Renan se enfraquece mais

Desde o início de seu inferno político, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), não abriu mão de um centímetro de poder. Alegava que seria o caminho mais rápido para a perdição. Ao desistir de presidir a sessão do Congresso na quarta (11/07), Renan deu o primeiro passo concreto por conta própria nesse sentido.

Renan avaliou que presidir a sessão seria pior do que se ausentar. Na prática, deu no mesmo. Ele se demitiu da função de presidente do Congresso.

No Senado, ao comprar briga com a oposição, o peemedebista começa a criar arestas que incomodam o Palácio do Planalto. Renan vende a Lula que a sua crise é de interesse do governo. Na verdade, seria uma forma de enfraquecer o presidente. Lula, porém, ainda não comprou essa briga. Nem dá sinais de que comprará.

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Aviso

Este jornalista estará em férias nas próximas semanas. Voltará à Pensata em 10 de agosto.

Kennedy Alencar, 39, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.

E-mail: kalencar@folhasp.com.br

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