Pensata

Luiz Caversan

11/08/2007

"É só uma virose..."

"Você está com uma virose!"

Ouvi esta frase repetidamente ao longo de uma semana em que todas as pragas, se não as do Egito, pelo menos as que circulam entre São Paulo e Brasília, onde tentei trafegar, se abateram sobre mim.

Febre, dor de cabeça, desarranjos mil, tontura, dores por todo o corpo, o pensamento mais positivo que tive em alguns momentos foi: vou morrer!

Morrendo pelo menos passaria aquele mal estar desesperador, delirava eu em meus 39 graus cravados no termômetro, bom companheiro de criado mudo, assim como o buscopan, o AAS, a colestiramina e outras "minas"...

"Que nada, você está só com uma virose..."

Como só!?

Bem, não morri, a febre foi embora, estou agora, todo dolorido, tentando recuperar as forças para retomar a rotina.

Embora meu querido amigo e médico insista que a virose seja "apenas" um dos problemas a serem investigados, ela, a virose, é uma unanimidade em São Paulo. Todo mundo tem, teve ou conhece alguém que tem ou teve recentemente um vírus derrubador, daqueles de dar febre, dor de cabeça, desarranjos mil etc.etc.

Na verdade, virose virou uma justificativa para males diversos da vida moderna. Antes, tínhamos o resfriado, o esgotamento físico ou mental, depois a estafa, a seguir o stress, agora a virose. Todos eles igualmente a perpetuar nossa condição de "cadáveres adiados", porque, como não nos abatem totalmente, permitem que observemos muito bem nossa fragilidade, nossa perenidade e nossa pequenez diante do universo.

Talvez a febre não tenha ido totalmente embora e eu esteja ainda delirando, mas fico aqui imaginando que o vírus, qualquer vírus, pode, na verdade, ser uma vingança do próprio universo contra nossa presença deletéria, avassaladora, que resulta em devastação e põe em risco a sobrevivência do planeta.

Vale aqui citar mais uma vez o sensacional filme "Matrix", o primeiro, em que há um diálogo, antológico, entre o vilão Mr. Smith e o herói Morpheus, em que o primeiro defende a inteligência artificial no lugar da humanidade e que diz mais ou menos o seguinte: "Só existe uma outra espécie de seres vivos iguais ao homem, que destrói tudo à sua volta, muda-se para outro lugar, destrói novamente, e vai se mudando, deixando atrás de si um rastro de destruição.
Esses seres semelhantes ao homem são os vírus".

É, pode ser...

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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