Pensata

Luiz Caversan

25/08/2007

Olhos tristes da América Latina

O táxi contorna a Plaza San Matín e se aproxima da calçada que leva a Calle Florida. O dia claro e frio faz as pessoas andarem apressadas e bem agasalhadas neste quase fim de inverno argentino, coração de Buenos Aires.

A Calle Florida e longa e tortuosa, ostenta uma mistura intrigante de comércio que lembra a um só tempo 25 de Março e Oscar Freire (São Paulo), Saara e Garcia Dávila (Rio). Luxo e zona total se misturam, assim como o castelhano portenho e o português que se fala em todo canto. A impressão é que há mais brasileiros na Calle Florida do que na avenida Atlântica em alta temporada.

Mas, antes de se chegar ao começo da Calle, vindo da praça com o herói San Martín plantado em seu cavalo, há que se romper outra barreira, que se manifesta assim que o táxi encontra junto à calçada: as crianças pedindo esmola.

É uma, duas, três, dezenas ao longo dessa e de outras plazas, dessa e de outras calles, numa cidade de contrastes tão ou mais gritantes quanto os nossos exemplares tradicionais - Rio, São Paulo, Salvador, Recife, Porto Alegre, Brasília...

Os olhos, sempre os olhos.

Talvez não haja nada mais emblemático do quanto a humanidade não deu certo do que os olhos tristes de uma criança pedindo esmolas.

Ops, cometo um ato falho, erro a digitação e escrevo "pedindo escolas", o que vem a ser a mesma coisa.

Crianças pedindo escolas aqui são carinhas de índio perdidas nesta selva com jeito de Europa em pleno extremo sul da América. Aí, por aí, são as faveladas, afro descendentes, para não dizer pretinhas porque isso só se pode falar nas internas, ou as branquinhas mesmo de Porto Alegre, e as moreninhas albanesas de Milão e Veneza, não importa, marroquinas de Paris, africaninhas de Lisboa.

Sempre aqueles olhos tristemente acusadores.

As nossas particularmente apontam o fracasso do Novo Mundo, a tristeza de uma América Latina que vai mas não vai, tenta e nunca chega lá, tanto que elas, as crianças e seus olhos tristes, estão por aí e por aqui aos montes.

A Calle Florida se percorre com dificuldades, porque todos precisam muito comprar alguma coisa. Os cafés também estão disputados, porque há que se beber alguma coisa para espantar o frio. As crianças de calle, corruptela que crio para as nossas crianças de rua, também espantam o frio a seu modo, correndo e girando, diferentemente das nossas porque agasalhadas, menos remelentas e quase todas com blusas de lã e gola rolê.

Um certo toque fashion, sarcasticamente street fashion como que a nos revelar que a globalização está sim senhor em todos os cantos, até na pobreza que nos assalta.

E cuide-se, diz o rapaz do hotel, porque assaltos há aos montes e essas crianças são terríveis, garante.

Não, meu caro, terríveis somos nós, terrível é tudo isso que nos cerca e que deixa sempre do lado de fora esses pequenos frágeis e indefesos.

Esses olhos tristes, que agora são latino-americanos por mera circunstância geográfica, mas que transcendem fronteiras apontando seus dedinhos sujos em nossa direção para, com todo o direito do mundo, dizer assim: a culpa é sua, viu?

Seja lá em que língua for, será uma verdade irrefutável...

Luiz Caversan, 52, é jornalista, produtor cultural e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos Cotidiano, Ilustrada e Dinheiro, entre outros. Escreve para a Folha Online.

E-mail: caversan@uol.com.br

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