Pensata

Eliane Cantanhêde

14/07/2004

Fogões e geladeiras do Mercosul

O Ministério do Desenvolvimento morde e o Itamaraty assopra. Um cuida da questão comercial. O outro se reserva o direito de agir estrategicamente: manter boas relações com os vizinhos, consolidar e ampliar o Mercosul e negociar em bloco com o resto do mundo. Traduzindo em miúdos, eis a reflexão brasileira: é preciso fazer um acerto com os argentinos, mas líder que é líder não perde as estribeiras por qualquer bobagem.

É assim que o governo Luiz Inácio Lula da Silva tentar levar com jeito a nova crise com a Argentina, que cisma em impor barreiras para produtos brasileiros. O mais novo lance será hoje, quarta-feira, 14/07, em campo adversário. É na Argentina que os empresários dos dois países, sob a intermediação do Desenvolvimento e do Itamaraty, vão tentar chegar a algum lugar.

Os dois lados parecem um tanto perdidos desde a semana passada, quando o governo Néstor Kirchner decidiu encrencar com geladeiras, fogões e lavadoras do Brasil. Depois disso, a ameaça foi ampliada da linha branca para outros produtos e até para carros, o que não faz muito sentido. O Brasil exporta carros populares e baratos para o vizinho, que exporta para nós modelos mais luxuosos. Eles não têm muito do que reclamar.

Mas não só estão reclamando, como ameaçando. E a última foi a Secretaria de Transportes anunciar uma resolução criando dificuldades para o tráfego de caminhões brasileiros até o Chile, via Argentina. Flagrada pelo jornal "Valor", a resolução ficou meio no limbo e parecia descartada na tarde de ontem, pelo óbvio motivo de que seria o fim da picada. Já imaginou um caminhão com produtos brasileiros ter que rodar 1.200 km a mais só porque os argentinos estão com dor de cotovelo?

Apesar da pressão argentina e do desconforto dos industriais brasileiros, especialmente de São Paulo, o Planalto e o Itamaraty não arredam pé de uma postura e de um tom muito calmos, condescendentes até.

"É preciso ter paciência", me disse ontem o assessor internacional de Lula, professor Marco Aurélio Garcia, reconhecendo o direito dos argentinos de reclamarem e pressionarem. Afinal, a Argentina passou por crises muito mais graves do que as nossas (eles tiveram o Menem, gente!) e voltou a crescer em 2003 e 2004 sem boas condições para aguentar o tranco. Ou seja: o país cresce, mas a planta industrial é precária. Assim, o país passou a comprar muito para atender a demanda interna, mas tem pouco a oferecer à venda aos seus parceiros. Resultado: pela primeira vez, em nove anos, o Brasil está superavitário nas trocas com o vizinho.

O pau vai quebrar lá, na reunião da Argentina. Mas, aqui em Brasília, Lulinha paz e amor vai continuar fingindo que não é com ele, o Planalto vai manter o tom do deixa-disso e o Itamaraty vai usar e abusar dos punhos de renda. Tudo em nome de um "interesse maior".

Os empresários que os desculpem, mas o mais importante não é vender isso ou aquilo para a Argentina. É fortalecer o Mercosul, que já comporta Chile e Venezuela, está se expandindo até o México e que _goste você ou não dos vizinhos_ só existe com a Argentina.

É com o Mercosul que o governo Lula alimenta a idéia de negociar por cima com os demais blocos, como EUA e União Européia. E, a partir disso, tornar o Brasil um líder mundial. Pode ser só um sonho, mas não é por causa de geladeiras e fogões que o governo vai botar tudo a perder.
Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Participou intensamente da cobertura do choque entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, em setembro de 2006.

E-mail: elianec@uol.com.br

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