Eliane Cantanhêde
"Playing God"
Até que tentei, mas não resisti à tentação de dividir com você um pouquinho das agruras de uma mulher sul-americana em férias sozinha pelos EUA e tentando embarcar sozinha num vôo doméstico em Israel. Dureza.
Digo isso depois de sofrer overbooking em Nova York num vôo direto para Tel Aviv. Um vôo marcado e comprado com 25 dias de antecedência, confirmado por telefone na véspera e para o qual me apresentei com mais de três horas de antecedência. A supervisora da companhia simplesmente implicou comigo. Impotente, com sede e com fome, desmaiei duas vezes no aeroporto de Newark. O que ela fez? Chamou a polícia. Eu lá, estatelada no chão, com o pulso fraco, e o policial --com base na versão dela-- me acusando de "tumultuar o aeroporto" e me ameaçando de... prisão!
Deus que livre a gente de só ter a alternativa de companhias americanas para voar. Aí é que todo mundo, quer dizer, todo passageiro brasileiro vai ver realmente o que é bom para a tosse.
Digo isso, também, depois de cair nas garras da polícia israelense, pelo simples fato de a policial de plantão no aeroporto de Eilat (extremo sul do país, entre Jordânia e Egito) não conseguir digerir que eu, mulher, sul-americana e naquele momento sozinha, pudesse ter dinheiro e condições de sair viajando por aí. Você não imagina o que é passar uma hora e meia sob as garras deles. E nem imagina o que é receber seus pertences -- roupas, iogurte, cartão de crédito, desodorante, dinheiro, sapato, batom, tudo misturado e jogado feito lixo. E sem a mala! Me devolveram quase tudo, sem a mala. E como vou viajar? Resposta da policial: "Arranja umas caixas". Simples assim: "Arranja umas caixas", com o avião saindo e num aeroporto que nem lanchonete tem.
No final, saí correndo pela pista, chorando alto. Entrei no avião às 7h28 e ele imediatamente fechou as portas e saiu. Por uma questão de minutos, consegui embarcar. Caso contrário, teria perdido esse vôo e o meu vôo de volta para o Brasil, via Nova York. Mais: só fui autorizada a embarcar com o laptop, parcialmente desmontado, e o passaporte. O resto, inclusive minha bolsa e minha carteira semivazia (dinheiro, documentos e cartões estavam espalhados), foi socado na bolsa, na mala de mão e numa sacola que, por acaso, estava fechada na mala. Depois, tudo isso foi despachado como bagagem. A mala, o recarregador do celular e o do laptop ficaram lá, para serem mandados depois, por amigos que vinham via Roma. E foi assim que cheguei a Tel Aviv sem os cartões e sem um tostão, nem em dólar, nem em euros, nem na moeda israelense. Isso é procedimento de segurança ou selvageria? E é bom para a imagem de Israel?
Detalhe: a policial tinha mais ou menos a idade das minhas filhas!!!
A supervisora americana deve ter dito a si mesma que estava defendendo os interesses da companhia, como a policial israelense deve ter-se convencido de que defendia os interesses do país dela. Ledo engano. Isso era só pretexto para que, em ambos os casos, elas pudessem fazer o que os americanos bem definem como "play God" (brincando de ser Deus).
Enfim, exausta, humilhada e decepcionada, desembarquei no meu próprio país. E... dei de cara com o caos de Guarulhos no sábado. Quatro horas de espera. O café da manhã tinha sido às 7h, no vôo internacional. O primeiro copo d'água e o primeiro saquinho de amendoim, às 3 da tarde.
O namorado da minha filha, Carlos Frederico, acompanhou tudo isso como a minha família: perplexo, incrédulo. Quando voltei, ele matou a charada: eu passei nos EUA e em Israel o que milhares ou milhões de pobres passam no Brasil. Lá, eu era tão cidadão de segunda classe como eles são aqui.
PS - Se as férias foram boas? Sim, foram ótimas, apesar de tudo.
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Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Participou intensamente da cobertura do choque entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, em setembro de 2006. E-mail: elianec@uol.com.br |
