Pensata

Eliane Cantanhêde

27/06/2007

A guerra não acabou

A Aeronáutica interveio, prendendo ou afastando os líderes do movimento dos controladores, que conseguiu parar o país no dia 30 de março e, virava e mexia, criava o caos nos aeroportos. A guerra, porém, não acabou.

A primeira reação dos controladores foi de perplexidade, com resistências residuais em Brasília e mais fortes em Manaus, no Cindacta-4. A Aeronáutica comemorou, achou que tudo estava bem. Pode ter comemorado o fim do caos --e do movimento--antes do tempo.

A reunião de controladores, ontem (terça), em Brasília, superou as avaliações tanto de um lado, o do governo, quanto do outro, o dos próprios controladores. Havia, nos cálculos de repórteres da Folha, perto de cem representantes.

Com um detalhe: havia, também, gente do controle do tráfego militar. O que tem isso? Tem muita coisa: significa que pode ter havido "contaminação" dos militares que cuidam estritamente da defesa aérea. A Aeronáutica, seguramente, não contava com isso.

De um lado, o Comando diz que: 1) isolou os líderes e esvaziou o movimento; 2) os afastados foram substituídos por militares da área de defesa, altamente qualificados e treinados para agir na aviação civil na emergência; 3) o plano de contingência está funcionando às mil maravilhas, inclusive com dois "tubulões" do Rio e de São Paulo para o Nordeste, sem "contramão"; 4) as bases aéreas estão de prontidão para "eventualidades".

Do outro lado, os controladores respondem que: 1) novos líderes surgiram e o movimento está mais organizado e mais forte do que nunca, porque quem não tinha aderido agora está aderindo porque se sentiu atingido com a punição dos companheiros; 2) os controladores da área de defesa não estão aptos para atuar na aviação civil, foram treinados correndo, com metade do tempo necessário, e a situação é de risco; 3) o plano é uma "balela", porque tudo pode parar de novo a qualquer momento; 4) as bases não são suficientes para cobrir os profissionais em caso de uma greve em massa.

Do Palácio do Planalto, Lula assiste a tudo de camarote. Primeiro, apoiou os controladores e afastou a Aeronáutica. Depois, ficou acuado pelo movimento e humilhou a Aeronáutica. Mais adiante, recuou e deu todos os poderes à Aeronáutica, até dar declarações condenando os controladores.

E agora? Agora, registrou que a Aeronáutica venceu a batalha da sexta-feira passada, viu que a reunião dos controladores de ontem tinha bom quórum e aguarda para ver quem vai ganhar a guerra. Para quê? Para apoiar o vitorioso final.

De resto, a pesquisa CNT Census mostra que, com crise aérea ou sem crise aérea, ganhando a Aeronáutica ou os controladores, a popularidade de Lula está inabalável. Então, para que se aborrecer?!!!!

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Participou intensamente da cobertura do choque entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, em setembro de 2006.

E-mail: elianec@uol.com.br

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