Eliane Cantanhêde
Anac, o abacaxi
A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) se transformou numa ilha, cercada de críticas por todos os lados, mas sólida como qualquer agência cujos diretores tenham mandato aprovado pelo Congresso. Os de fora podem não gostar; os de dentro só saem se quiserem.
As críticas vêm de todos os lados e são dos mais diferentes tipos, variando de acusações de incompetência a insinuações de improbidade e de tráfico de influência.
Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os diretores da Anac são um bando de atrapalhados que não resolvem problemas e só prejudicam a imagem do governo. Para o novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, o presidente da agência, Milton Zuanazzi (gaúcho como ele), fala demais e resolve de menos.
Para os parlamentares - inclusive governistas -, para a imprensa, para a opinião pública em geral e para os usuários de aviões em particular, a Anac é no mínimo inútil, mas pode ser bem pior do que isso. Mas vamos ser cautelosos: cada um é cada um, cada diretor é cada diretor, cada responsabilidade é cada responsabilidade.
O ex-presidente da Infraero, brigadeiro J. Carlos Pereira, por exemplo, mirou e centrou fogo diretamente na mais poderosa diretora da agência, Denise Abreu, que estava mexendo todas as pedrinhas para transferir o transporte de cargas de Congonhas para Ribeirão Preto. Segundo o brigadeiro, com todas as letras, o empenho não era nada nobre e nem mesmo técnico: era só porque ela é amiga de um empresário cheio de interesses no negócio.
Está criado um impasse: além de não ser demissível, a tal Denise é próxima do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu e, mesmo depois da saída dele do governo, manteve a maior desenvoltura no Planalto. Parece bem amiga da turma lá.
Aliás, aí está toda a origem do problema: os diretores foram indicações políticas, e nenhum deles tem realmente experiência numa área tão complexa e tão perigosa como aviação civil, com exceção do coronel Veloso, militar que atua nisso há muitos anos.
Como também disse o brigadeiro J. Carlos, diretores da Anvisa (a agência da vigilância sanitária) não precisam ser experts em dengue ou tuberculose, mas devem pelo menos saber a diferença entre uma e outra. Na Anac, é importante saber, por exemplo, os limites de operação de aeroportos e como fiscalizar companhias gananciosas.
Enfim, é uma confusão, um barata-voa de acusações e de falta de resultados. Mas uma coisa é certa: pelo menos um setor se diz muito satisfeito com a agência responsável por fiscalizar a aviação civil no nosso Brasil varonil: as companhias aéreas.
No depoimento do presidente da TAM, Marco Antonio Bologna, à CPI do Apagão Aéreo, ele não conseguiu explicar por que raios o Aibus-A320 do acidente de Congonhas continuou voando mesmo depois de apresentar problema no reverso, superaquecimento numa turbina, problema no trem de pouso e de ter puxado para um lado durante um pouso.
Ao mesmo tempo, ficou evidente a nada sutil intimidade com que Bologna se referia ao presidente da Anac. Em Brasília, dentro e fora do governo, o homem é chamado de Zuanazzi. Para os íntimos da TAM, a começar de Bologna, é simplesmente "Milton".
Juntando as duas coisas: as empresas aéreas estão enchendo as burras, esticando ao máximo a corda de seus aviões e de seus funcionários e fazendo o que bem entendem. A Anac não sabe, não viu, nem ouviu. Até parece alguém que a gente conhece...
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Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Participou intensamente da cobertura do choque entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, em setembro de 2006. E-mail: elianec@uol.com.br |
